Entrevista:O Estado inteligente

quarta-feira, agosto 08, 2007

Clóvis Rossi - O que realmente cansa



Folha de S. Paulo
8/8/2007

O que realmente deveria cansar os brasileiros são as cenas de miséria explícita, quase sempre desenroladas longe das vistas do grande público nos grotões de pátria, mas que, às vezes, invadem outras áreas.
A mais recente delas: a, digamos, "exumação" de 76,1 toneladas de carne, enterradas em uma área militar do Rio de Janeiro porque, supostamente, estavam "sem condições de uso".
Repito: no Rio de Janeiro, Estado que disputa com Minas Gerais a condição de segundo mais rico do país, depois de São Paulo. Mas ocorreria também em São Paulo se o "enterro" tivesse sido aqui.
Comparar a "exumação" da carne no Rio com cenas parecidas no Nordeste é pouco. A passividade tapuia já absorveu o fato de que o Nordeste é uma área pobre, ainda por cima castigada por condições climáticas que, em algumas zonas, são inclementes. Logo, comer calango, por exemplo, seria o "destino" do nordestino dessas regiões, de acordo com o conformismo tão brasileiro. "Deus qué".
O certo seria comparar com certas regiões da África, o continente esquecido na era da globalização.
O Brasil ou, ao menos a sua fatia mais pobre, a sua colossal fatia pobre, também foi esquecido. Políticos que se cansaram de criticar o regime militar por esse, digamos, esquecimento resolveram descansar das denúncias após chegar ao governo.
Reproduzem eternamente o modelito que mantém 77,2% dos brasileiros com renda de até cinco salários mínimos (R$ 1.900). Renda familiar, não individual. Modelito que mantém 89% dos brasileiros longe do ensino superior, a metade deles apenas com ensino fundamental. Modelito em que o Bradesco não cansa de quebrar recorde de lucro, ano após ano, apenas para ser atropelado pelo recorde de lucro do Itaú no dia seguinte.

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