Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, setembro 08, 2006

Sua excelência, o fato - luiz Carlos Mendonça de Barros




Folha de S. Paulo
8/9/2006

A ação de um governo deve ser criar condições para que todos os brasileiros evoluam na qualidade de suas vidas

UM DE meus professores na Escola Politécnica costumava dizer que "contra fatos não há argumentos". Quando se trabalha com previsão econômica muitas vezes só os fatos mostram que um determinado cenário é o correto. Como está acontecendo agora no Brasil de Lula e de sua equipe econômica tão exótica como um ornitorrinco.
O crescimento pífio do PIB no segundo trimestre do ano e o IPCA de agosto divulgado nesta semana -notáveis 0,05%- são fatos que não deixam dúvida sobre duas teses que tenho defendido nesta coluna: a política econômica do governo está errada e a inflação no Brasil tem hoje uma dinâmica tradicional que não está sendo levada em conta pelo Banco Central e pela grande maioria dos economistas ligados ao chamado mercado.
A primeira tese entra em choque frontal com a euforia de muitos de meus colegas com o governo Lula. Pouparei o leitor da Folha das manifestações que tenho ouvido citando apenas uma, por ser ela simbólica do quero dizer. "Este é o melhor momento de nossa economia desde de 1500, quando fomos descobertos." Foi dita por um membro exitoso dessa estranha comunidade em recente cerimônia pública. Além de mostrar ignorância sobre nossa história econômica contemporânea, o autor dessa frase agride o conjunto da sociedade.
A ação de um governo deve ser a de criar condições para que TODOS os brasileiros progridam e, por meio da atividade econômica, melhorar a qualidade de suas vidas. E, se olharmos para a economia brasileira hoje, dificilmente vamos encontrar fatos que nos permitam concordar com a bravata que citei acima. A forma correta de medir os resultados da política econômica sobre a sociedade me parece ser a evolução da renda média real do trabalhador ao longo dos anos.
Para não ser acusado de antigoverno, vou utilizar como período de análise os últimos 20 anos. Vou tomar o caso da Grande São Paulo, região para a qual existem dados confiáveis de aferição da renda do trabalhador e inflação nesse período, e os dados nacionais da Pnad. As informações disponíveis para outras quatro regiões metropolitanas -Recife, Salvador, Belo Horizonte e Porto Alegre- mostram o mesmo comportamento captado pelas estatísticas do Seade/Dieese no caso da Grande São Paulo.
Primeiro, relaciono os dados de renda média real do trabalho do levantamento feito pelo Seade/Dieese para a região metropolitana de São Paulo, em reais de junho de 2006 (dados deflacionados pelo IPC-Fipe):
1986/1989: R$ 1.050,00
1995/1998: R$ 1.350,00
1999/2002: R$ 1.200,00
2003/2006: R$ 1.050,00
Ao longo de 20 anos, o trabalhador das grandes zonas metropolitanas do país não saiu do lugar em termos de rendimento real de seu trabalho. Se usarmos o rendimento médio do trabalhador no Brasil todo calculado no Pnad do IBGE o quadro é semelhante, embora os dados disponíveis de renda média real do trabalho cheguem apenas até 2004, conforme abaixo (com valores atualizados para setembro de 2004):
1986/1989: R$ 818,00
1995/1998: R$ 887,00
1999/2002: R$ 814,00
2003/2004: R$ 726,00
Cabe aqui uma pergunta aos nossos eufóricos membros da comunidade financeira: "Está rindo do quê?". A resposta a essa pergunta é muito simples. A euforia dos mercados está associada à incrível melhoria de nossas condições externas e à segurança que uma moeda respaldada por mais de US$ 70 bilhões de reservas -e que serão US$ 100 bilhões em fins de 2007- garantem. E certamente isso é uma conquista extraordinária para todos nós, brasileiros. Mas é preciso usar essas novas condições para o país crescer, com trabalho e salário. Mas isso a política econômica à qual o Brasil está submetido há quase dez anos não é capaz de fazer.

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