Entrevista:O Estado inteligente

sábado, setembro 23, 2006

VEJA Cinema O ônus da história - Oliver Stone

Oliver Stone desiste da controvérsia – e
tira a personalidade de As Torres Gêmeas



Isabela Boscov


Foto divulgação


A confusão da emergência: as torres em si viraram tabu

Will Jimeno, policial novato da Autoridade Portuária de Nova York, e seu sargento, John McLoughlin, foram os sobreviventes de número 18 e 19 a ser retirados dos escombros do World Trade Center, em 11 de setembro de 2001. Depois deles, só mais uma pessoa seria encontrada com vida. Vinte pessoas salvas, contra 2 749 vítimas fatais. Esse é o tipo de estatística que sugere predestinação e heroísmo e conduz, na medida do possível, a uma história com final em tom maior. Exatamente a matéria-prima, enfim, que poderia interessar a um grande estúdio empenhado em fazer um filme sobre os atentados que não desonre os fatos, e que ainda assim o público queira ver. O curioso é que um projeto como esse tenha ido parar nas mãos de Oliver Stone, conhecido por suas hipérboles, suas teorias conspiratórias e suas inclinações políticas explosivas. Em As Torres Gêmeas (World Trade Center, Estados Unidos, 2006), que estréia nesta sexta-feira no país, o diretor faz o que pode para se refrear. Mostra os dois policiais saindo de casa enquanto suas mulheres e filhos ainda dormem. Segue-os no início do que parecia ser um dia normal e, depois, na confusão do chamado de emergência. Soterra-os em grande estilo e então acompanha seus esforços mútuos para se manter vivos, assim como a aflição de suas famílias, que não sabem que destino eles tiveram. Resultado: de duas histórias tão específicas quanto as de Jimeno e McLoughlin (respectivamente, Michael Peña e Nicolas Cage), ele tira uma narrativa absolutamente genérica – uma espécie de Apollo 13 no Marco Zero.







Peña, como Jimeno: o novato ficou catorze horas sob os escombros e teve duas paradas cardíacas

Cage, como McLoughlin: o sargento passou 22 horas soterrado e sofreu dezenas de cirurgias

Essa confusão entre respeito e insipidez (da qual o inglês Paul Greengrass se esquivou de forma magistral em Vôo United 93) é o que torna As Torres Gêmeas tão insatisfatório. Temeroso de ser acusado de sensacionalismo, Stone suprimiu toda e qualquer cena das torres em si, seja do impacto dos aviões, seja do seu desmoronamento. Alega que essas imagens já não têm o que oferecer – o que diz mais sobre o medo que ele hoje tem de seus instintos para a controvérsia do que sobre o estado de espírito da platéia em relação à tragédia. Em entrevista a VEJA, o diretor disse que sua intenção era retratar o momento anterior à politização dos atentados, em que o mundo ainda estava do lado dos americanos. É duvidoso que, dadas as cenas de comemoração registradas em países árabes imediatamente após o fato, ele acredite no que diz. O mais provável é que esteja tentando se reinventar como um ser apolítico. E sem dentes: um cineasta com menos passado teria menos motivos para recuar, e prestaria melhor serviço à história.

Com reportagem de Tania Menai, de Nova York

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