O presidente Lula está entrando num terreno perigoso quando insiste em insinuar — por enquanto não acusa, fala apenas genericamente — que existem pessoas que querem “melar o jogo”. Ele tergiversa sobre o assunto, mudando de opinião, como é seu feitio quando está enrascado. Questionado no “Bom dia, Brasil” sobre por que afirmara no exterior que a oposição estaria interessada em “melar o jogo”, Lula negou que a intenção fosse essa. Ontem, na entrevista à CBN, ele confirmou a suspeita de que querem “melar” a eleição, e à tarde, numa reunião com prefeitos, subiu o tom, pedindo cuidado a seus apoiadores porque “tem gente que não aceita um operário no poder e achavam que me tirariam à força”.
Tudo isso faz sentido com a primeira advertência que o presidente lançou ao ar no programa eleitoral do início da semana, quando pediu “ao povo brasileiro” que mantivesse a calma e não aceitasse “provocações de perdedores”.
Soava como ameaça, e continuando soando. Já há manifestos no site do PT com centrais sindicais denunciando supostos golpes contra a candidatura Lula.
À medida que a repercussão do mais recente escândalo de seu governo, a da compra de um dossiê para atacar candidatos tucanos, vai se refletindo nas pesquisas eleitorais, indicando que um segundo turno é provável, o presidente vai subindo o tom das críticas à oposição, como se não fossem membros do PT, e de sua campanha à reeleição, os responsáveis pelo ato criminoso.
Na verdade, quem quis dar um golpe foi o PT, tentando “melar” a eleição em São Paulo para impedir que o candidato tucano José Serra vença no primeiro turno. Quem conhece bem o PT por dentro não se espanta com essa gangsterização da política, e vê nesse novo caso indícios claros de que o chamado Campo Majoritário, que era dominado por José Dirceu e dominava o partido, voltou ao comando das ações depois que Ricardo Berzoini assumiu a presidência em substituição a Tarso Genro, que queria “refundar” o partido e foi atropelado pela ação de Dirceu.
Quando o atual secretáriogeral do PT, Raul Pont, diz que essas jogadas são “da mesma turma de sempre”, está apenas constatando que o Campo Majoritário, embora não exista mais formalmente, continua dando as cartas no partido.
O pessoal dissidente do PT, que fundou o PSOL, tem uma visão interna do partido que lhes permite analisar o que está acontecendo, se não com isenção, pelo menos com informação de bastidor.
Chico Alencar, candidato a deputado federal, tem um diagnóstico contundente: “O PT está irremediavelmente comprometido com a busca e manutenção do poder institucional que engavetou seus sonhos originais e derrubou suas fronteiras éticas. Política sem utopia se amesquinha”.
Ele atribui ao que chama de “nova casta” de ex-dirigentes sindicais, experts no capital de giro dos fundos de pensão, da qual Berzoini é grande exemplo, a introdução do pragmatismo absoluto no PT, o que faz com que mensaleiros sejam candidatos com fartura de recursos.
Para Chico Alencar, a origem da dinheirama para a compra do dossiê “vai revelar envolvimento de mais gente, talvez até do Rio, no esquema perverso, executado com a presunção da impunidade”.
Já Cid Benjamim, candidato a deputado estadual pelo PSOL, irmão de Cesar Benjamim, que é vice de Heloísa Helena, conta em seu blog “uma historinha” que demonstra muito bem o que pode estar por trás da compra do dossiê contra os tucanos e do tal setor de “inteligência” da campanha de reeleição de Lula. Segundo ele, em fevereiro de 2002, estando em Porto Alegre para cobrir para um jornal do Rio o Fórum Social Mundial, conversou com José Dirceu, com que mantinha “relações cordiais”, ainda que no PT fossem adversários.
Cid relata a conversa: “Lá pelas tantas, na sua megalomania, Dirceu disse: ‘Estou montando um serviço secreto dentro do PT. Uma coisa que será sigilosa e que as pessoas sequer saberão que existe. E esse serviço vai ficar subordinado diretamente a mim’. Fiquei intrigado. Por que diabos ele estaria me contando isso? Será que pensa em me recrutar para seu SNI particular? Mas, depois, me convenci de que sua tagarelice advinha mesmo da descomunal vaidade.
Hoje, tudo indica que essa autêntica Operação Tabajara foi produto do serviço secreto criado por Dirceu. Estará ele ainda à frente desse simulacro de KGB? Eu não afastaria a hipótese”.
Por acaso, ou não, José Dirceu, em seu blog, se antecipou aos fatos e atribuiu à entrevista da “IstoÉ” o poder de destruir de vez “a candidatura do Xuxu”, sem que Geraldo Alckmin tivesse sido citado pelos Vedoin. O comentário de Dirceu pode indicar que ele sabia da operação — Hamilton Lacerda, o assessor de imprensa de Aloizio Mercadante que foi exonerado do cargo por ter confessado que procurou a “IstoÉ” para “vender” a entrevista, é do grupo político de Dirceu — e, sobretudo, mostra que acabar de vez com a possibilidade de haver um segundo turno na campanha presidencial era, sim, um dos alvos da operação ilegal, e por isso ela foi arquitetada integralmente por elementos do comitê central da campanha de reeleição.
Um cenário possível de acontecer é Lula não conseguir vencer a eleição no primeiro turno por uma margem mínima. Hoje ele tem, pelas pesquisas, 53% dos votos válidos, mas já teve 56%. A diferença entre ele e os demais candidatos, que já foi de 12 pontos percentuais, caiu para 7 pontos. E se, dependendo das abstenções e votos em branco e nulos, Lula chegar à eleição com 49% dos votos válidos, ou mesmo 49,5%, e tiver que enfrentar Alckmin num segundo turno? Será que vai alegar “marmelada” e tentar “melar” o resultado? Ou vai admitir que seus “meninos” foram os verdadeiros responsáveis por jogar fora uma eleição “que estava ganha”?
Entrevista:O Estado inteligente
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