| O Estado de S. Paulo |
| 12/9/2006 |
Empréstimo é coisa que banco deveria saber fazer. No entanto, ficaram tanto tempo acomodados com os ganhos fáceis em Tesouraria (aplicações em títulos) que desaprenderam seu ofício. São como jogador de futebol que fica muito tempo parado. Quando volta à ativa não tem a mesma habilidade para lidar com a bola. Prova do despreparo do setor financeiro para novas tarefas é o repentino surgimento do pastinha nas operações de crédito consignado, o que se faz com desconto da prestação diretamente do salário ou da aposentadoria. João Ayres Rebello Filho, presidente da Associação Brasileira dos Bancos Comerciais (ABBC) e principal executivo do Banco Fibra, conta que tudo começou com o aumento da importância dos correspondentes bancários. Nos anos 90, a rede bancária passou a fazer algumas operações com seus clientes fora das custosas agências bancárias convencionais. O Banco do Brasil, por exemplo, utilizou-se das agências postais e a Caixa Econômica Federal, das casas lotéricas. Os correspondentes são os coordenadores dessas operações. Para não ficar para trás, há seis anos, os bancos pequenos (bancos sem rede de agências) saíram à conquista de clientela nova e também se valeram dos tais correspondentes que, por sua vez, apressaram-se a abrir portinhas nas cidades mal atendidas pela rede bancária. Essa gente preparou financiamentos para compra de aparelhos domésticos e veículos ou agilizou pequenos empréstimos pessoais. Há três anos, ganhou importância o crédito consignado. Os bancos pequenos viram nele oportunidade para ganhar mercado sem correr grandes riscos. Mais uma vez, recorreram aos correspondentes para convencer funcionários públicos de pequenos municípios ou aliciar aposentados nas filas dos bancos a tomar empréstimos a juros substancialmente mais baixos do que os que estavam pagando ao agiota ou à rede bancária. Como o negócio cresceu, os correspondentes atiraram-se à subcontratação de autônomos que, de pastinha debaixo do braço, trataram de fazer o assédio a funcionários públicos, pequenos assalariados e aposentados. A demanda pelo serviço foi tanta que, em três anos, esse universo de financeiros-formigas se multiplicou. Estatísticas do Banco Central mostram que a rede de correspondentes bancários saltou dos 13,7 mil em 2000 para os 90,4 mil projetados para o fim deste ano. Enquanto isso, estimativas da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), a entidade que cuida dos interesses do setor, dão conta de que os pastinhas (oficialmente chamados promotores de serviços bancários) já são cerca de 70 mil pessoas. Os bancos sem rede movimentam 60% do crédito consignado. Nessa faixa, 80% dos empréstimos são intermediados por correspondentes e/ou pastinhas. Com a enorme demanda do serviço, a comissão inicial de 5% sobre o empréstimo, paga pelos bancos, passou rapidamente a 7%, depois a 10% e, em muitos lugares, ultrapassou os 20%. Para um empréstimo consignado de R$ 2,8 mil (média do segmento), uma comissão de 20% equivale a R$ 560, rachada entre o correspondente e o pastinha. Rebello conta que a desenvoltura com que passaram a operar esses correspondentes e pastinhas diluiu os vínculos contratuais com os bancos com os quais estavam inicialmente comprometidos. "Muitos dedicam-se agora a leiloar o passe dos seus clientes para outros bancos." A Febraban tem uma reação ambivalente à novidade. De um lado, reconhece que, se não fosse a agressividade comercial de correspondentes e pastinhas, não teria sido possível o crescimento do crédito consignado de 264%, de R$ 11 bilhões em março de 2004 para R$ 40 bilhões em junho de 2006. De outro lado, sente que a nova categoria passou a controlar o acesso a um enorme universo de novos clientes. Por isso, vê a necessidade de enquadrar esse contingente-formiga. Os sindicatos dos bancários, que contam hoje com 400 mil associados, aparentemente não se deram conta do rápido crescimento de uma categoria não sindicalizada, disposta a trabalhar 24 horas por dia e a abrir mão de férias e de fins de semana para descolar clientes para os bancos. O rápido surgimento desse exército não mostra só o despreparo da rede e dos gerentes bancários para o crescimento do crédito para pessoa física, que saltou dos R$ 49 bilhões em dezembro de 2004 para R$ 81 bilhões em junho de 2006. Mostra, também, a capacidade do sistema bancário, geralmente pesado e lento, de improvisar e buscar soluções criativas para problemas novos. |
Entrevista:O Estado inteligente
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terça-feira, setembro 12, 2006
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