Entrevista:O Estado inteligente

quarta-feira, abril 05, 2006

SOLITÁRIO E TRAPALHÃO por Villas-Bôas Corrêa



Jornal do Brasil

A série de crises que atormenta o presidente-candidato Lula acentua alguns traços da sua personalidade, expondo qualidades e defeitos na vitrine iluminada da ampla cobertura da mídia.

Se uma dose de azar e de imprevisto atenua a sua responsabilidade direta no esvaziamento do governo, que murcha como balão apagado despencando do céu, o despreparo do estreante na gerência da máquina estatal e a fraqueza dos quadros petistas e dos aliados ajudam a entender as trapalhadas que pipocam a cada dia, em inesgotável tormento.

Além das perdas dos principais titulares da equipe, afogados nas enxurradas de escândalos, a mudança de ministros do monstrengo que superlota a Esplanada dos ministérios impôs o afastamento dos que se desimcompatibizaram para tentar melhor sorte nas urnas de 1º de outubro, pioraram o que já estava ruim.

O toque final ficou por conta das indecisões e dos equívocos do timoneiro caipora. Para o governo que foi obrigado a despedir o ex-todo poderoso José Dirceu da chefia da Casa Civil, com o desfalque do mais destacado articulador político desde a campanha, virtual presidente em exercício; a privar-se de Antonio Palocci, o ministro da Fazenda que era a referência do governo, paparicado pelos empresários, mimado pelo mercado, blindado pela coleção de pesquisas, com índices que ecoavam êxitos no combate à inflação, em choque com os medíocres resultados do PIB - foi um desafio tamponar os rombos, embora previstos com data certa.

Mas o dedo presidencial agravou o embaraço. De saída, a nomeação de Waldyr Pires para o Ministério da Defesa foi um erro em dose tripla. Na Controladoria Geral da União (CGU), Waldyr Pires vinha mantendo um bom desempenho e recolhendo elogios de parlamentares e da imprensa. Por que bulir com quem está quieto e inventar moda? Depois a mudança da CGU para o Ministério da Defesa, nas circunstâncias, soou como uma nova provocação aos militares. A segunda, depois do intervalo. Não pareceu prudente a escolha do deputado Aldo Rabelo, hoje na presidência da Câmara, para a pasta que reúne os antigos ministérios das três armas: Exército, Marinha e Aeronáutica. Com habilidade e compreensão dos dois lados, o deputado do PCdoB no duro período de verbas insuficientes para a simples rotina das Forças Armadas passou em branco. A substituição pelo vice-presidente José de Alencar foi bem recebida, embora sem resultados.

Lula parece que estava saudoso da afirmação da sua autoridade e repetiu a dose. O azar fez o resto. O comandante do Exército, general Francisco de Albuquerque estava engasgado com o lamentável episódio, de larga e crítica repercussão, quando interrompeu a decolagem de avião, já na pista, para que ele e sua esposa embarcassem nos lugares cedidos por passageiros. E os sucessos do ex-ministro Palocci não chegaram aos quartéis, sem recursos, com a previsão de um segundo semestre tormentoso.

Mas o general Albuquerque escolheu a oportunidade errada para a desforra. E arruinou o soneto com a emenda da lamentável ordem do dia para comemorar o aniversário do golpe militar de 1º de abril de l964, que nos custou quase 21 anos de ditadura fardada com o rodízio dos cinco generais-presidente. Não se comemora o que suplica o perdão do esquecimento. E que já foi julgado pelo voto em uma eleição presidencial indireta e três diretas, sempre com a derrota do candidato governista e a vitória da oposição.

No cesto dos erros mistura-se o de Lula, na escolha do ministro inadequado, com o general Albuquerque ressuscitando o cadáver que tanto custamos a enterrar. Com a mudança dos ministros, as coisas só tendem a piorar. Entre os que pediram as contas para disputar os ambicionados mandatos parlamentares, um dos melhores empregos do mundo, poucos deixarão saudades.

O que vem por aí, entre interinos e titulares, é a aventura a todo o risco da experiência com uma turma de desconhecidos: nos Esportes, o Orlando Silva Júnior, que não é parente do maior cantor do Brasil; nos Transportes, para cuidar da buraqueira nas estradas, o Paulo Sérgio de Oliveira Passos; na Integração Nacional, o Pedro Brito Nascimento, com o desafio de iniciar e tocar as obras do projeto de irrigação do Nordeste com as águas do São Francisco, a promessa de Lula que não saiu do papel.

Estes, os titulares. Entre os interinos, as promessas de revelação de Guilherme Cassel, para o Ministério de Desenvolvimento Agrário, com a carga pesada do Incra e das invasões do MST, no delírio da depredação de fazendas, culturas e centros de pesquisa; Altemir Gregolin na Secretaria da Pesca e José Agenor Álvares da Silva no Ministério da Saúde.

Os cupinchas sussurram que o presidente-candidato sofre as agruras da solidão. Potoca que não pega. Lula não sabe ficar sozinho, está sempre cercado pela corriola. Pelo visto não acredita na sabedoria do ditado que adverte que antes só do que mal acompanhado.

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