A banalização do escândalo (1)
Bons tempos aqueles em que um escândalo era um escândalo e correspondia ao que está descrito nos dicionários. No do Aurélio, por exemplo, escândalo "é aquilo que perturba a sensibilidade pelo desprezo às convenções ou a moral vigente".
Pode ser também "um grave acontecimento que abala a opinião pública". Ou então "a indignação provocada por um mau exemplo ou ação vergonhosa, leviana, indecente".
Antigamente, um escândalo de bom tamanho apeava gente graúda do poder, aniquilava reputações para sempre, fazia o dólar subir e a bolsa de valores despencar. Ocupava a mídia por semanas ou meses a fio. Imperava soberano em todas as rodas de conversa.
O governo Lula banalizou o escândalo. E essa será sua herança maldita.
Está com jeito de caixa de lenço de papel – você saca um e logo surge um pedaço do próximo. E saca o próximo e o seguinte se insinua.
Mal você entende uma história e sua atenção é desviada para outra.
Quer dizer que o governo Lula é o campeão de escândalos? De escândalos revelados, talvez.
O fato é que o governo Lula surpreendeu todo mundo. Manteve a política econômica que o PT condenara até a véspera da eleição de 2002. E patrocinou, tolerou ou foi indiferente a atos claramente imorais. Só reagiu a eles quando provocado.
Foi assim com a quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo Costa. O crime ficou configurado quando o blog da revista ÉPOCA divulgou o extrato da conta do caseiro na Caixa Econômica pouco antes das 19h da sexta-feira dia 17 de março.
Um presidente cioso do seu papel de defensor da legalidade daria ordens expressas a seus auxiliares para que apurassem o crime em tempo recorde. Bastaria o fim de semana para esclarecer tudo.
Mas, não. A semana de 19 de março começou com o caseiro na condição de investigado pelo suposto crime de lavagem de dinheiro. E Palocci só caiu na segunda-feira 27 – mesmo assim por que o presidente da Caixa se recusou a assumir sozinho a autoria da violação do sigilo.
O que forçou a queda de Palocci foi o fogo cerrado disparado pela mídia. Se ela tivesse adotado a postura leniente e prestativa da revista ÉPOCA, Palocci ainda estaria ministro com aquela cara de santo. E não se sabe onde estaria o caseiro a essa altura.
Enviada por: Ricardo NoblatA banalização do escândalo (2)
O que fez Lula quando Roberto Jefferson lhe falou sobre o mensalão no início de 2005? Chorou, segundo Jefferson. Não chorou, segundo Lula. Chamou Aldo Rebelo, ministro da Coordenação Política, e pediu que se informasse sobre o assunto.
Rebelo procurou João Paulo Cunha (PT-SP), presidente da Câmara dos Deputados. E ouviu dele que a Câmara investigara notícia publicada a respeito pelo Jornal do Brasil. E concluíra que nada ocorrera.
O gesto de Lula de acionar Rebelo e de se contentar com a resposta de João Paulo salvou-o de ser citado de maneira dura pelo deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR) no relatório final da CPI dos Correios.
Na verdade, a Câmara nada investigou. Como notícia do Jornal do Brasil sobre o mensalão se baseara em uma curta entrevista do deputado Miro Teixeira (PDT-RJ) negada por ele no dia seguinte, a investigação terminou sem ouvir ninguém. Ninguém.
Pensando bem: como a Câmara poderia ter investigado a denúncia se o próprio João Paulo recebia dinheiro de Marcos Valério?
O rol de escândalos do governo Lula se distingue do rol de escândalos de outros governos pela originalidade dos meios usados e o amadorismo dos seus principais protagonistas.
Ou não há originalidade em esconder dólares em cuecas? E não é obra de amador pagar suborno a deputados por meio de ordem bancária?
Na história política recente do país, poucos escândalos atraíram tantas testemunhas e deixaram tantos rastros como o que provocou a derrocada do ministro mais poderoso do governo.
Ele tentou mobilizar todo o aparelho do Estado para esmagar o caseiro.
A rapidez com que os escândalos se sucedem produz o efeito perverso de entorpecer as pessoas. Elas parecem ter perdido de vez a capacidade de se indignar. Pior: parecem resignadas com o que acontece. Não se movem. Apenas assistem.
Se antes elegeram Lula por julgá-lo diferente dos demais políticos, agora poderão reelegê-lo por achar que os demais políticos não são diferentes dele.
Enviada por: Ricardo Noblat