Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, abril 04, 2006

Que é que é isso, companheiros?

EDITORIAL DO JORNAL DA TARDE

Que é que é isso, companheiros?

A versão de como teria ocorrido a truculenta e ilícita quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo Santos Costa, o Nildo, por ordem do ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci, contada na revista Veja que está nas bancas, é estarrecedora, mas ainda assim não surpreende tanto. Em tudo e por tudo, ela repete uma velha tática empregada pelos comunistas na guerra fria e no Brasil mais recentemente pelos petistas de desqualificar o adversário ou qualquer pessoa que os assuste ou prejudique, recorrendo para isso a quaisquer instrumentos, pois, afinal, já rezava a cartilha stalinista, "os fins justificam os meios". Foi isso que ocorreu com Toninho do PT, Paulo de Tarso Venceslau e tantos outros que haviam detectado brechas no apenas aparente monólito de pureza e probidade ética no passado.

O que estarrece tanto no episódio não é a presteza dos funcionários da Caixa Econômica Federal que se apressaram em atender à ordem ilegal dada pelo ex-presidente Jorge Mattoso e emanada do principal interessado em desmoralizar o caseiro, o então ministro da Fazenda em pessoa. Nem a solicitude com que a Polícia Federal acolheu o apelo do colega do chefe (Márcio Thomaz Bastos, ministro da Justiça) e abriu um inquérito de lavagem de dinheiro contra um brasileiro pobre, que o partido do chefe dos dois ministros e deles próprios jura publicamente representar. Quem conhece a sabujice e o oportunismo da burocracia pública não tem o direito de acreditar que a ética suplante o carreirismo.

O que mais espanta naquilo que a revista chamou adequadamente de "golpe sujo" é a facilidade com que o sanitarista Antonio Palocci transitou na fronteira entre o médico e o monstro quando fez de tudo para salvar a pele e reafirmar a própria versão mentirosa usando fria e descaradamente as instituições como se elas estivessem a seu serviço, e não o contrário. Assusta ver como um dos mais competentes e lúcidos ministros da Fazenda da História centenária da República pode se comportar para se defender. Como seus companheiros de jornada, cuja sordidez a Nação conheceu de sobra desde que começaram a se tornar públicas as informações sobre as atividades da "República de Ribeirão Preto em Brasília". Difícil encontrar diferenças de caráter entre Palocci, Buratti, Barquete, Poletto, etc.

A notícia de que, afinal, a Polícia Federal vai indiciar amanhã Antonio Palocci (chamado por Lula de "grande irmão", em mais um daqueles involuntários surtos de sinceridade a que o presidente é arrastado por sua dificuldade de lidar com a língua solta) por três crimes - quebra do sigilo funcional, abuso de poder e advocacia administrativa (ação para se autobeneficiar) - refaz parte da justiça no caso. Mas ainda fica no ar uma questão: como é que, depois de um crime de Estado tão grave ser revelado sem que ninguém o desminta, o pobre Francenildo continua sendo alvo de inquéritos da Polícia Federal e do Coaf? Que é que é isso, companheiros?


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