O Congresso viveu na quarta-feira momentos de sentidos opostos, em que o pior da classe política, demonstrado na absolvição do ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha, terminou exposto na seqüência da aprovação do relatório da CPI dos Correios, uma boa surpresa pela seriedade com que foi redigido, ressalvadas uma ou outra concessão. Na vitória de João Paulo Cunha, um dos mais comprovados dos mensaleiros, o plenário da Casa ostentou o conhecido compadrio, o descarado clientelismo e o repulsivo corporativismo que mancham o Congresso.
Não foi a primeira vez. Já se sacramentaram absolvições sem qualquer justificativa, a não ser por esses desvios da vida pública. De maneira compreensível, muitos dos Conselho de Ética, cujos pareceres têm sido rasgados nas sessões plenárias, ameaçaram renunciar. Por um apelo do seu presidente, Ricardo Izar, o movimento foi contido. Mas pelo menos quatro se mantinham irredutíveis.
Como a maioria do plenário tem votado movida a conchavos, de nada valeram as provas contundentes de que João Paulo Cunha se beneficiou do dinheiro do valerioduto e ainda usou o terceiro cargo mais importante na hierarquia da República para beneficiar o publicitário Marcos Valério, traficante de interesses, financista e um dos administradores do propinoduto.
O veredicto está em contradição com a CPI. Enquanto o consistente relatório do deputado peemedebista Osmar Serraglio era aprovado, a maioria da Câmara preparava-se para desconsiderar nove meses de investigações e jogar no lixo os dois volumes de quase duas mil páginas do parecer final da comissão. Felizmente, tudo que foi apurado irá para o Ministério Público, onde se espera que o caso seja tratado com a necessária seriedade.
Foram desconsideradas as provas irrefutáveis de que houve mesmo mensalão, financiado por algumas empresas privadas, mas basicamente por dinheiro desviado de estatais (Visanet/Banco do Brasil, Correios, Eletronorte), por meio de aparelhos petistas e de partidos da aliança governamental incrustados na máquina pública.
Pelo menos, esta legislatura está no fim, e o eleitor, em outubro, terá chance de fazer aquilo que os parlamentares não fazem: limpar o Congresso.