Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, abril 07, 2006

Eu me sinto inconformado e humilhado JEFFERSON PERES

O GLOBO

À semelhança de milhões de outros brasileiros, sinto um misto de dor e raiva impotente com a trágica situação que vive esta bela e mui amada cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Sentimentos que se aliam ao espanto de quem não consegue entender por que essa imensa tragédia não tenha provocado a mobilização de toda a sociedade carioca, se não mesmo uma cruzada nacional, sob a liderança do governo federal.

Sim, porque não ocorrem aqui mazelas comuns a outras grandes cidades do mundo. As chagas do Rio não encontram similitude com as de nenhum centro urbano de países com o mesmo nível de desenvolvimento do Brasil, menos ainda com os de nível mais elevado.

Falo das duas manifestações mais graves e mais visíveis de patologia social. Uma, a criminalidade violenta e desafiadora; outra, a ocupação desordenada dos espaços públicos.

Claro que em todas as cidades ocorrem assaltos à mão armada. Mas em nenhuma os criminosos dominam comunidades, interditam ruas, decretam o fechamento do comércio e travam batalhas campais durante horas e às vezes dias.

Certo que em todas as cidades se encontram pessoas isoladas, geralmente toxicômanos, doentes mentais e desajustados a pedir esmolas nas ruas. Mas em nenhuma são vistas centenas, se não milhares de sem-teto, aos montes, a fazer de dormitórios as vias públicas. Como já disse alguém, "a rua aqui é um sistema de punição coletiva, onde cada qual joga dejetos ou escarra, tropeça em pedras soltas ou em seres humanos".

A situação atual do Rio de Janeiro, para mim, é um espelho a refletir a dupla imagem da falência do Estado brasileiro e, de certa forma, do nosso fracasso como nação.

Como é possível conviver com isso e suportar isso? Como é possível um país desperdiçar um patrimônio natural e cultural desse porte, deixando se degradar aquela que é – sem ufanismo – a mais bela cidade do mundo?

A desordem urbana do Rio é tão grave que deveria ser enfrentada, em primeiro lugar, pela sociedade carioca, num mutirão cívico, com autoridades, empresários, intelectuais e meios de comunicação na liderança do processo.

Mas, de tão dramática, deveria ser também uma questão nacional, assim encarada pelo governo federal. De preferência, em articulação com os governos estadual e municipal. Se necessário, como medida heróica, para restabelecer aqui o império da lei, com a decretação de uma intervenção federal, rigorosamente dentro dos limites constitucionais.

Num caso ou no outro, seria desencadeada uma vasta Operação Rio de Janeiro, destinada ao resgate da cidade, com a duração de anos, a ser feita com planejamento e mediante a mobilização de um grande volume de recursos financeiros, humanos e institucionais, aplicados nas áreas de reurbanização, habitação popular, educação, saúde e segurança. E a terminar quando o Rio voltasse a ser uma cidade normal, vale dizer, um espaço urbano de convivência minimamente civilizada.

Trata-se de uma questão nacional, sim, seja pela gravidade do problema, seja pelo bem que faria a todo o país a sua solução. A ressurreição do Rio de Janeiro seria um refrigério para a alma nacional, que sangra com a cidade. Sua reconstrução, social e urbanística, teria para o Brasil o mesmo efeito que teve a construção de Brasília na era jusceliniana.

Lamento muito, como senador por outro estado, não ter legitimidade, nem influência, nem poder para tentar reverter a lenta agonia desta cidade tão amada. Mas fica aqui o meu protesto, ao não ver, da parte dos seus filhos ilustres, uma reação proporcional à enormidade da crise.

A tragédia do Rio de Janeiro me afeta profundamente. Como cidadão brasileiro, e carioca honorário, eu me sinto inconformado.

E também humilhado.

JEFFERSON PERES é senador (PDT-AM).

Arquivo do blog