Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, abril 11, 2006

Os maus companheiros

Os maus companheiros

Artigo - Fernando de Castro
Jornal do Brasil
11/4/2006

João Paulo Cunha acaba de ser absolvido em Brasília. Fez seus eleitores de otários. Deu certo. É provável que seja contemplado com mais um mandato em outubro. Entre todos os absolvidos, o caso de JP Cunha (não confundir com JP Cuenca) é o mais grotesco. Cunha é ex-presidente da Câmara. Usou o cargo para providenciar trambiques com Marcos Valério, em troca de simpáticos R$ 50 mil para si e passagens aéreas e hospedagem no Rio para sua secretária particular. Em 2002, candidato único à presidência da Câmara, mesmo assim achou por bem contratar os serviços de Valério para fortalecer sua imagem junto a seus pares. Coisa de R$ 150 mil para seus colegas parlamentares não esquecerem que ele era a única opção de voto. Não esqueceram.


No auge de sua popularidade, virou figurinha fácil na TV. Notava-se uma discreta predileção pelo público jovem. Esteve na MTV e no programa de Serginho Groissman. Ar de songa-monga, fala pausada, discurso encharcado de mensagens de auto-ajuda, falava aos novos um político preocupado com o futuro do país. Ressaltava a importância de virtudes como a honestidade e a transparência, qualidades até então desprezadas na política nacional, mas finalmente brotadas em abundância graças a sujeitos como ele, Professor Luizinho, José Dirceu, Lula e José Genoíno.

Mentiu, obviamente. Mas como a mentira se dirigisse a um público pouco interessado no assunto, colheu palmas suficientes para inflar-lhe o ego. Chegadas as primeiras denúncias contra sua conduta, entretanto, revelou-se um péssimo mentiroso. Em dia pouco inspirado, acusou um equívoco na conta da operadora de TV a cabo para justificar a presença de sua esposa no Banco Rural no dia do saque de R$ 50 mil. Vendo sua fachada de bom-moço desmontar-se à medida que as denúncias iam se acumulando, assumiu em definitivo um aspecto deplorável, digno dos aspirantes ao estrelato que logo se vêem desviados para uma derrocada irreversível.

A barba, antes bem aparada, logo abundou pelo rosto, anunciando desânimo e conformismo. As olheiras remetiam a noites insones. Convencido do fim passou a cogitar a renúncia, um dos privilégios mais covardes à disposição dos parlamentares com tendência à vigarice. Demovido da idéia, apegou-se ao histórico da Casa, onde o castigo aos infratores não chega a ser um hábito muito praticado.

Eufórico com os primeiros sinais de que ninguém ali estava muito animado com a idéia de enxotar os vigaristas, chegou confiante ao Conselho de Ética, no dia 7 de março, para a leitura do relatório do deputado Cezar Schirmer (PMDB-RS). O otimismo era tamanho que antes se ocupou em ligar para seus aliados, recomendando que não entrassem com um pedido de vista, manobra que causaria o adiamento da votação.

Atingido em cheio pela consistência dos argumentos do relator, que recomendava a sua cassação, não lhe restou alternativa a não ser providenciar com urgência uma mudança de planos. Coube à dançarina e nas horas vagas deputada Ângela Guadagnin (PT-SP), como sempre, entrar com o pedido de vista e adiar a votação. O desespero atingiu o auge logo em seguida, quando um João Paulo Cunha transtornado reclamava a falta de camaradagem do relator e sua estranha escolha pelo caminho da justiça.

""Vou ser cassado por isso?"", interrogava a seus pares, dando a entender que não tinha feito nada além de uma simples malcriação. A resposta veio na semana passada. Não, João Paulo Cunha não seria cassado por isso. Apesar de toda a angústia que o acompanhou ao longo dos últimos meses, sua escolha ao apostar no péssimo caráter dos membros da Casa, infelizmente, revelara-se acertada. Comemorou bebendo vinho com os outros deputados também absolvidos, entre os quais o Professor Luizinho. Como de praxe, aproveitou para acusar a imprensa de promover uma campanha com o propósito de denegrir sua imagem. Provavelmente não deve ter se dado ao trabalho de reparar antes nos sujeitos com quem brindava alegremente a consolidação da impunidade.

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