Entrevista:O Estado inteligente

domingo, abril 09, 2006

O Datafolha, as elites, o povo e o futuro Por Reinaldo Azevedo

PRIMEIRA LEITURA

Os números do Datafolha, obviamente, são muito ruins para o ex-governador Geraldo Alckmin, candidato do PSDB à Presidência, e são formidáveis para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Não há como negar essas duas evidências. A expectativa dos tucanos era a de uma melhora, ainda que discreta, de seu candidato. E até os petistas esperavam que a nova crise que tomou o governo, que chegou à ante-sala de Lula, fosse abalar seu prestígio eleitoral.

Lula, no entanto, segue como franco favorito, com chances reais de vencer no primeiro turno. O eleitorado se moveu um pouco, sim, em relação à pesquisa anterior do Datafolha, só que rumo a Anthony Garotinho, do PMDB. Conforme escrevi aqui na edição passada, povo e elite respondem pelos números, que são o resultado de erros de cálculo político das oposições e de uma crise ética, sem precedentes, que se alastra. Lula já está reeleito? É claro que não. Mas é bom o PSDB pensar na vida, refletir sobre seus erros e, se possível, parar de errar.

Erro de cálculo
Comecemos pelos erros de cálculo. Não vou repisar pela enésima vez a besteira, algo prepotente, que foi deixar Lula "sangrar no cargo". Em política, não se morre na véspera. Quando havia todos os elementos — e há ainda — para que se processasse o Apedeuta por crime de responsabilidade, as oposições (a maioria de seus líderes ao menos) optaram por blindá-lo e a seu ministro da Fazenda. Como sói acontecer com um setor do oposicionismo, parecia que a estabilidade do país e da economia era uma tarefa mais sua do que do próprio governo. É claro que ninguém tem de investir em crise. Mas à crise do Estado democrático se responde com democracia. E a democracia tanto elege como depõe.

O segundo erro, naturalmente, se deu na escolha do candidato que encarnaria o anti-Lula. Os eleitores já haviam feito a sua escolha — era José Serra —, mas a burocracia partidária (a tucana, no caso) decidiu que estava errada. Ignorou-se o candidato que estava tecnicamente empatado com o petista para escolher o que, à época, perdia no primeiro turno. E, a rigor, pode perder ainda hoje. A transferência de voto de Serra para Alckmin, pelo visto, ainda não se deu. Teve um primeiro impulso na pesquisa anterior do Datafolha e refluiu.

Tudo perdido para Alckmin?
É claro que os números que aí estão não podem ser considerados antecipatórios do que se vai dar em outubro. Mas são um sinal de alerta, uma advertência. Evidenciam que a blindagem de Lula saiu pela culatra, que os eleitores ainda não assimilaram a troca de quem tinha mais por quem tem menos, que Alckmin ainda não conseguiu estabelecer com o eleitor a devida relação de confiança, que o trabalho das oposições, enfim, não começou.

Mas evidenciam, também, que a disputa será muito mais difícil do que se pensava. No imaginário político dos entusiastas da candidatura do ex-governador, sempre se falou num tal choque de gestão e de competência e se fez uma pregação, algo difusa, do crescimento econômico como alternativa ao lulismo e força propulsora da postulação tucana. Para tanto, convenha-se, seria necessário que a percepção média da população fosse outra. Para que o discurso acima fizesse sentido, seria necessário que a economia estivesse sendo especialmente perversa para os mais pobres. Mas não está.

O real sobrevalorizado faz crescer a renda dos muitos pobres (ao menos enquanto durar o encanto), mas a da classe média está esmagada. Quando isso se combina num ambiente de baixo crescimento econômico, significa que o dinheiro que poderia ser destinado a investimento e poupança está sendo queimado no consumo. O país não sai do lugar, mas há um conforto real para as camadas menos favorecidas, o que rende votos ao governo. Eles se somam àqueles cevados pelo Bolsa Família. Quero dizer com isso que será difícil convencer a população a trocar o conhecido pelo que, admitem os próprios partidários de Alckmin, é ainda desconhecido.

Sempre se viu esse desconhecimento pelo prisma de um certo "potencial de crescimento". A expressão faz sentido se a larga maioria da população está em busca de uma alternativa para apear o governante de turno. Mas, por ora, não é o que se vê. Quando escolheu Serra para ser o anti-Lula, o eleitorado trocava um conhecido por outro. Mas isso é passado. Esse trem já passou. Apenas estabeleço aqui, digamos assim, a genealogia dos números que aí estão,

Ética e moral
O discurso da falha ética e da imoralidade dos poderosos tampouco parece prosperar quando o envolvido é Lula. Sim, em dezembro do ano passado, sua imagem pessoal foi bastante afetada pela crise do mensalão — e olhem que sabíamos menos do que sabemos hoje. Mas aí o Congresso Nacional fez o favor ao PT de optar pela convocação extraordinária, mas sem trabalhar, embora seus membros recebessem o salário. Antes disso, os oposicionistas decidiram poupar os seus membros flagrados no caixa dois de campanha, conferindo verossimilhança à mentira petista de que todos eram iguais. Abriram-se as portas para a absolvição dos mensaleiros do PT. Pior: tendo um candidato francamente favorito, os tucanos foram os primeiros a negar a naturalidade da candidatura Serra.

O resumo da ópera é que o PT, o partido que se lançou na política para ser diferente, hoje mente de um outro jeito e se diz igual a todo mundo, mas com uma particularidade: falaria a "verdade" sobre o caixa dois,  coisa que os outros esconderiam. Assim, se a alternativa econômica, até agora, não foi articulada pelo tucanato, a pregação ética, quando Lula está em causa, parece ecoar no vazio. Porque, sim, a oposição errou gravemente quando não soube dar e ser o exemplo. O crime dos seus era outro e infinitamente menor. Mas o PT propôs que tudo fosse igualado pelo máximo para que se optasse pela pena mínima. E o expediente foi aceito pelo outro lado.

O povo é de confiança?
Fiz um texto algo irônico na edição passada dizendo que não considerava o povo de confiança desde que li Júlio César, de Shakespeare. Ele dramatiza uma situação mais ou menos real, a se dar crédito a Suetônio em seu Os Doze Césares. Primeiro a massa aplaudiu o assassinato do líder; depois, endossou a perseguição a seus algozes. Na peça, isso é magnificamente representado no discurso de Marco Antonio diante do corpo inerte, perfurado pelas adagas.

Falando a uma platéia ainda hostil ao morto, Marco Antônio faz o elenco das virtudes da vítima e repete, ao fim de cada período, a sentença: "Brutus é um homem honrado". Quando termina de falar, a "rua romana" quer esfolar o "traidor", ainda que Shakespeare o trate com certa simpatia e que o dito-cujo estivesse mesmo tentando salvar o que restava de República... Bem, mas já me desviei.

O necessário, caros leitores, é que paremos de ver o tal "povo" como uma categoria inimputável, sempre manipulável e sujeito aos truques das elites políticas. Sim, elas erram muito, como se vê. Parte delas é composta de pilantras. Mas jamais caiam no conto de que exista um povo indigno do governo que tem. Verdadeiro mesmo é o outro clichê: cada povo tem rigorosamente o governo que merece.

É claro que a crise ética e moral sem precedentes, nos Três Poderes da República, é um péssimo exemplo. Mas a recepção popular a isso tudo não é apenas passiva. Quantos são os que concedem com as pequenas malandragens no dia-a-dia? Quantos são os que acham que "quem pode mais chora menos?" Quantos são os que acham realmente legítimo e normal que o governante chegue ao poder para se arrumar?

Digam aí: vocês acreditam que há quem ignore ao menos o essencial da história? Eu duvido. Pobre ou rico, beneficiário ou não das lambanças petistas, não há indivíduo que possa alegar desconhecimento. Ok, admito até que o sujeito esteja pensando como certos jornalistas: "São todos iguais". Mas, se iguais, então por que escolher Lula? Alguns dos fatores conjunturais aqui enumerados explicam, mas é preciso considerar a existência de uma certa ética coletiva lassa, algo dissoluta, que talvez ache normal que um governante se aproprie do que não lhe pertence.

Concluindo
É por isso que os organismos da sociedade civil, seus grupos de associação e representação — dos clubes às igrejas, passando pelos partidos políticos e pelos entes de Estado — são tão importantes. Deveriam funcionar como a bússola da ética. Em vez disso, corrompidos e conspurcados pelo Moderno Príncipe (o PT), tornam-se também eles agentes da bandalheira. Para uma cultura de ética elástica, dirigentes despidos de qualquer princípio; para indivíduos com moral já meio torta, o exemplo dos amorais. O resultado é o pior possível.

Esse conjunto explica o desempenho de Lula. E sua eventual vitória em outubro pode jogar o país numa crise até certo ponto inédita. Reparem bem na clivagem que o PT está forçando — o Lula dos pobres contra o Alckmin dos ricos — e vejam como o partido que um dia se disse socialista trocou a luta pelo arranca-rabo de classes. Chegou a hora de chamar cada indivíduo à sua responsabilidade. Chegou a hora de perguntar se ele aceitaria Lula como sócio.

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