Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, abril 07, 2006

NELSON MOTTA Bolas e boladas

FOLHA
RIO DE JANEIRO - Conhecendo o rigor ético dos brasileiros, o nosso respeito às leis e a qualidade dos nossos políticos, imagine-se quantos, entre os que acusam Palocci de dedo em riste, não teriam agido como ele, ou pior, nas mesmas circunstâncias.
Claro que isso não o absolve, apenas propõe um exercício de sinceridade: imagine-se o ministro mais importante de um governo, acusado de ter sido visto em uma casa suspeita e que você negue tudo. Uma amiga de fé lhe informa que a testemunha teria recebido uma bolada dias antes da acusação.
Bola pingando na área, você de frente para o gol vazio, goleiro no chão, só não pode chutar para fora, essa seria a sua situação numa metáfora futebolística ao estilo Lula.
O que você faria? O que fariam os indignados acusadores dispondo dos meios de que dispunha Palocci? Chamariam a polícia? Ou o bandido? Ou não fariam nada, afinal, boatos são freqüentes em Brasília. Seria a palavra do caseiro contra a sua, e todos são iguais perante a lei. Ou será que ninguém se empenharia em saber se o acusador teria mesmo recebido uma bolada para testemunhar?
Bem, o resto é história, não só de um crime, uma mentira e uma covardia, mas de uma incrível falta de sorte. Quem, entre os nobres acusadores, imaginaria que a bolada do caseiro fosse legítima? Devem ter pensado que, depois de detonada a bomba na imprensa e provado o suborno da testemunha, a violação do sigilo seria secundária e, na "ética companheira", justificada pelos fins, afinal, era uma conspiração, uma questão de Estado.
O óbvio é que alguém tão inteligente, frio e habilidoso como Palocci deveria estar mesmo desesperado para assumir os altos riscos de uma operação dessas. A ponto de colocar seu cargo e sua carreira em jogo só para negar que tenha estado na tal casa. Acabou provando que esteve.

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