Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, abril 07, 2006

Estabilize-se, ministro EDUARDO GRAEFF

FOLHA

Tarso Genro deixou o Ministério da Educação para cumprir uma missão nobre: refundar o PT, abalado pelos escândalos que envolveram e ceifaram grande parte de sua cúpula. Malsucedido nessa empreitada, rejeitado pela corrente majoritária de seu partido, ele volta ao governo como coordenador político com uma incumbência ainda mais edificante: ajudar a manter a estabilidade das instituições no processo eleitoral.


Não há mesmo interesse ético em jogo, ministro? Somos todos farsantes? Belo começo de conversa para um estabilizador...


Gostaria de lhe desejar mais sorte na nova missão. Lendo o artigo que ele publicou aqui mesmo há alguns dias ("Tendências/Debates", dia 31/3), no entanto, receio que somente sorte não vai dar se lhe faltarem grandeza e um pouco de coragem, como pedem Cazuza e Frejat no "Blues da Piedade".
Grandeza para entender que o papel de estabilizador das instituições em tempos bicudos não combina com a arrogância belicosa com que você, Tarso Genro, tenta desqualificar em bloco, de saída, as críticas ao seu partido e ao seu governo.
"A esquerda que apóia Lula vai compreender que o argumento "moralista" é só ataque político. Não há interesse ético em jogo." Não há mesmo, ministro? Somos todos uns farsantes, então -eu e milhões de brasileiros ofendidos e envergonhados com a degradação das práticas políticas e com a corrosão das instituições protagonizadas pelo seu partido e pelo seu governo nestes três anos. Belo começo de conversa para um estabilizador...
Um pouco de coragem não lhe iria mal para enfrentar precisamente aqueles fantasmas aos quais você alude muito de passagem no começo do seu artigo para rapidamente se colocar debaixo da sombra familiar e protetora deles mesmos. Que fantasmas, ministro? Pense bem.
Primeiro, o fantasma camarada de um mundo singelamente dividido entre "esquerda" e "direita", sendo esta incapaz por definição de preocupações éticas e sociais autênticas, e aquela, investida para sempre no monopólio das boas intenções em nome das quais todas as vilezas são justificadas de antemão.
Depois, como projeção do primeiro, o fantasma mistificador da "herança maldita", usada e abusada como folha de parreira sobre as vergonhas do seu partido e do seu governo.
Com que então "nenhuma acusação até agora foi tão grave quanto as três que ainda pairam -sem resposta- contra FHC"?
Quanto aos escândalos forjados, eu mesmo me dei ao trabalho de compilar os fatos e respondê-los um por um num livrinho intitulado "Combate à Corrupção e Denuncismo na Era FHC". Entendo que, quando ele foi publicado, você estivesse ocupado demais para ler, disputando o governo do nosso Estado. Por que não tenta agora? Leva um segundo para baixar daqui: http://www. psdb.org.br/biblioteca/publicacoes/ livroBranco.pdf. E umas duas horas para ler de cabo a rabo.
Pensando melhor, por que se dar a esse trabalho quando o seu partido e o seu governo se encarregaram de produzir as melhores respostas às tais acusações?
Compra de votos para a emenda da reeleição? A bancada governista atual, com a faca e o queijo na mão, instalou uma Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar esse assunto de cambulhada com o "mensalão". Instalou e desinstalou apressadamente, sem conclusão. Não sem ouvir o ex-deputado Ronivon Santiago negar que tivesse recebido dinheiro dos governadores do Acre e do Amazonas em 1997; e confirmar que recebeu dinheiro do PT, pelo "valerioduto", para pagar o advogado nos processos que lhe custaram a perda de um novo mandato.
Grampo do BNDES? A resposta, neste caso, veio por intermédio de ninguém menos que o presidente Lula, quando disse em discurso que um "alto companheiro" lhe falou de corrupção no BNDES e teve que dar o dito por não dito depois de ser taxativamente desmentido pelo então presidente do banco, Carlos Lessa.
Quanto à "estafa cambial", francamente, a esta altura dos acontecimentos, melhor seria não falar de corda em casa de enforcado. A menos, é claro, que a chiadeira de economistas e empresários sobre o real hipervalorizado, os juros astronômicos e o crescimento medíocre da economia brasileira -apesar dos ventos a favor como há décadas não se viam no mundo-, tudo isso também lhe soe como "ataque político" injustificado ao seu governo. Perversidade das elites, pois não?
Mas, afinal, quem diz que o aguerrido estabilizador está atrás de respostas? "Não discuto aqui se as acusações contra os governos FHC e Lula são verdadeiras ou não", você esclarece. Preferiria, confessa, a companhia do governo FHC sob o manto opaco da verdade "ficta" -aquela que a tropa de choque do seu governo tentou sem êxito emplacar na CPI dos Correios.
Lamento, ministro, mas alguns de nós -alguns milhões, diria- vamos insistir na verdade dos fatos. Pelo devido processo legal, sem atalhos para produzir "provas" como essa que o seu governo sacou em tempo recorde contra o caseiro Francenildo. O "ovo da serpente", não é? Sim, fale-nos desse fantasma...
Quanto ao que está em jogo nestas eleições, os temas do crescimento, da inclusão social, da democratização, prepare-se para assistir ao bom debate. Sem se insurgir contra o fato inevitável e saudável de que o seu partido e o seu governo, com os seus fantasmas, é que estarão em julgamento. Respire fundo, ministro. E mostre, desde já, se possível, algum respeito pelo corpo de jurados.

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