Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, abril 04, 2006

A montagem de uma vilania

EDITORIAL DE O ESTADO DE S PAULO

A montagem de uma vilania

Desde a primeira hora do escândalo da Caixa, quando uma revista semanal divulgou, 18 dias atrás, o produto da violação do sigilo bancário do correntista Francenildo Santos Costa, esta página sustenta que o governo - e não uma solitária autoridade excessivamente zelosa ou um funcionário subalterno mais realista do que o rei - foi o responsável pela torpe tentativa de desmoralizar o caseiro que afirmou ao Estado ter visto "umas 10 ou 20 vezes" o então ministro Antonio Palocci na casa de má fama onde ele nunca teria posto os pés.

Não foi por clarividência nem pela posse de informações reservadas que se chegou a tal avaliação. Ela tem o respaldo de uma massa de antecedentes de conhecimento público - a folha corrida do sistema de poder petista - e na certeza, disso derivada, de que a armação contra Francenildo resultou, como tantas outras, da ética dos fins que justificam os meios. É o que libera o uso do Estado para o acobertamento de ilícitos de toda sorte e para a perpetuação, no seu comando, do partido e de sua figura máxima.

As revelações dos últimos dias sobre a montagem da versão sórdida de que Francenildo teria acusado Palocci por estar a soldo da oposição não apenas confirmam que se cometeu um crime de governo - a mando do seu mais reverenciado ministro -, mas evidenciam que a trama foi além da Fazenda e da Caixa. Para destruir a reputação do caseiro, Palocci mobilizou assessores diretos do ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos. Queria que atiçassem a Polícia Federal contra o seu denunciante. Chamou-os a sua casa na noite em que o presidente da Caixa, Jorge Mattoso, lhe entregou os extratos de Francenildo.

Quando os assessores - o chefe de gabinete Cláudio Alencar e o secretário de Direito Econômico Daniel Goldberg - repassaram a Palocci a informação da autoridade policial de que não havia base para a sua pretensão, este recorreu a outro golpe baixo. Acionou o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) do governo para que declarasse Francenildo suspeito de "lavagem de dinheiro", obrigando assim a polícia a investigá-lo. A cúpula do Coaf poderia ter se recusado, mas preferiu compactuar com a violência. O mesmo já haviam feito Mattoso, um consultor e dois funcionários da Caixa.

Depois de mentir sobre o esquema torpe, Mattoso entregou o ministro, ao depor na PF. E fez vazar a história de que reagiu com um palavrão quando Palocci quis que ele aceitasse ser o bode expiatório do escândalo. Essa também teria sido a reação do ministro da Justiça quando Palocci cobrou dele mais dureza da polícia contra Francenildo. A conduta de Thomaz Bastos no caso parece ambígua. Mesmo alertado por seus assessores das ações delituosas de Palocci, cobriu-o de elogios numa entrevista e declarou não haver motivo para a Polícia Federal apurar a quebra de sigilo do caseiro. Mudou de idéia dois dias depois.

E no domingo, quando a revista Veja e o jornal Folha de S.Paulo publicaram novos detalhes da trama de Palocci, deu ordem a seus auxiliares Daniel Goldberg e Cláudio Alencar para que fossem à Polícia Federal, "entregar" Palocci - para "limpar sua barra".

Foi nessas reportagens de domingo que se revelou que Bastos advertira Lula, antes da decisão de demitir o ministro, de que o seu colega da Fazenda era o provável mandante da invasão da conta do caseiro. (Um dos mais próximos colaboradores de Palocci, jornalista Marcelo Netto, por sua vez, teria sido o divulgador dos extratos.) O que põe em causa o comportamento do chefe de governo. Admita-se, à falta de prova em contrário, que ele não soubesse dos fatos antes, embora tenha sido no Palácio do Planalto, a pouca distância do seu gabinete, que Palocci determinara a Mattoso o arrombamento da conta de Francenildo.

Mas, entre a denúncia de Bastos e o desmentido de Palocci, Lula ficou com este último, pelo menos em público. Efetivamente, à luz desses fatos incontestados, o discurso do presidente na transmissão de cargo de Palocci para Guido Mantega foi um prodígio de hipocrisia.

Lula não só o chamou de "grande irmão" - espetacularmente alheio ao sentido que se pode aplicar ao termo nesse contexto - como o investiu no papel de vítima de achincalhes e leviandades. Mais compostura não teria feito mal ao presidente. No caso de Palocci, menos truculência teria preservado o seu mandato. Mas, sendo o que é este governo, quando se pensa que os seus "erros" e a sua soberba se esgotaram, sempre tem mais.


Arquivo do blog