Aconseqüência mais interessante da nota do comandante do Exército, general Francisco de Albuquerque, sobre o aniversário do 31 de Março é a ausência de conseqüências. O elogio rasgado, e sem qualquer restrição, ao regime militar foi absorvido com tranqüilidade pelo ministro da Defesa, Waldir Pires, que amargou seis anos de exílio depois da deposição de João Goulart. No dia seguinte, o assunto estava praticamente esquecido.
Em 1964, a deposição de Jango pode ter impedido a aventura de uma república sindicalista — seja lá o que o isso significaria: ele certamente morreu sem fazer a menor idéia. Os militares souberam assumir o poder, mas demoraram muito tempo para desejar, planejar e finalmente conseguir restabelecer o regime democrático de forma indolor para todos os interessados. Certamente não o fizeram com a rapidez de intervenções anteriores, como na deposição de Getúlio em 1945, quando a volta aos quartéis foi tão rápida quanto eficiente.
A partir da morte do general Costa e Silva, seguiram-se anos de treva e sangue, com violência dos dois lados. E a volta à democracia foi trabalho de lenta engenharia do governo Geisel.
O elogio sem restrições ao golpe e suas conseqüências tem todos os defeitos comuns a qualquer elogio sem restrições. Ele ignora a existência de vítimas e de abusos de poder, comuns em todos os regimes de força. E também, involuntária mas nitidamente, deprecia o trabalho dos militares que trabalharam para restabelecer a democracia.
O Brasil de hoje nada tem a ver com o saudosismo do comandante do Exército. Ele afirma que o regime de exceção teve êxito "na dissuasão silenciosa, na eficiência evidente e na competência reconhecida". Alguém sabe o que significa "dissuasão silenciosa"?
Pouco importa. O que interessa mesmo é o fato de que, para o Brasil jovem de hoje, a provocação raivosa do comandante do Exército nada significa. Console-se, general: se Chico Buarque cantasse hoje que "você não gosta de mim, mas sua filha gosta", mais de metade do Brasil também não saberia do que ele estava falando.
O comandante do Exército é anacrônico. Vive no passado, mas a culpa não é apenas sua. Talvez tivesse agora postura mais contemporânea e mais discreta se não tivesse, outro dia, conseguido interromper a decolagem de um avião comercial — pela primeira vez na História do Brasil — para que ele e sua excelentíssima pudessem viajar, mesmo tendo chegado atrasados ao aeroporto.
Pelo visto, a façanha alimentou perigosamente a sua sensação de que o tempo parou.