Entrevista:O Estado inteligente

segunda-feira, abril 10, 2006

A Era da Informação é um fiasco

OESP



 A Era da Informação é um fiasco

Meghan Daum*

Declaro por meio deste instrumento que a Era da Informação é um fiasco absoluto. Podemos dizer que, graças à internet, aos telefones celulares, aos noticiários 24 horas e a todo tipo de newsletters por e-mail, não há fiapo de informação que nos escape. Mas eu sou uma prova viva de que isso não é verdade.

Considere-se a passeata pelos direitos de imigrantes do penúltimo fim de semana no centro de Los Angeles que, agora sabemos, atraiu mais de meio milhão de pessoas. Não posso acreditar que esteja admitindo isso por escrito, mas no sábado de manhã eu não sabia de nada.

Descobri quando saí para comprar o jornal e dei de cara com meu vizinho, que estava usando uma camiseta branca com a estampa "Unite Now" (Unidade Já).

"Vai à passeata?", ele me perguntou.

"Que passeata?", respondi.

Ele me olhou como se eu estivesse chegando de Paris e admitisse candidamente que não tinha visto a Torre Eiffel.

Por mais envergonhada que estivesse, o fato é que muitas outras pessoas não ficaram sabendo. Minha amostragem dos desinformados como eu inclui um advogado que virou professor de história, um escritor formado numa grande universidade e - atenção - um produtor de noticiário de televisão. Uma amiga disse que ouvira sobre a manifestação, mas só no contexto dos boletins de rádio com advertências sobre potenciais problemas de trânsito.

Todas elas são pessoas que passam boa parte do dia na internet, muitas vezes enquanto escutam noticiários no rádio e conversam por telefone com amigos e parceiros que não vivem exatamente em cavernas.

De alguma maneira, eu, como tantos outros, consegui perder a cobertura que precedeu o evento. Será que isso aconteceu porque estava ocupada demais lendo notícias sobre Jessica Simpson (cantora adolescente no estilo Britney Spears) e obscuros artigos de jornais australianos sobre "estética darwinista" no Yahoo?

Bem, foi isso mesmo.

Não é o caso de apelar para aforismos de ocasião como "quanto mais se aprende, menos se sabe", mas ouso dizer que a razão por que alguns de nós não tomam conhecimento de notícias importantes é que há notícias demais circulando. Quanto mais informação disponível, menos informados ficamos.

PROVINCIANISMO

Atribuo esse fenômeno a muitas coisas: Wikipedia, portais para todos os gostos possíveis e imagináveis, blogs com as mais esdrúxulas, detalhistas e inúteis reflexões e descrições. Mas seja qual for a fonte, suspeito que a causa fundamental é a superparticularização da informação.

Podemos nos congratular por sermos consumidores seletivos de notícias , mas essa seletividade pode nos emburrecer um pouco. Encare o fenômeno como uma espécie de provincianismo intelectual.

Agora que podemos moldar nossa torrente de informações assinando canais de notícias e passando batido, na internet, pelos assuntos que consideramos chatos para aqueles que realmente nos interessam, podemos abarrotar nossas reservas pessoais de dados sem o incômodo de aprender algo realmente novo.

A velha maneira de obter notícias estava alicerçada no tripé telejornal, rádio e algum diário impresso. Para aquela minoria rarefeita mas muito influente, havia também uma dose extra diária de comentários e análises do noticiário, em algum daqueles veículos ou em revistas. Se essa velha maneira de se informar tinha um centímetro de profundidade e um quilômetro de largura, o processo, hoje, é como pesquisar dissertações.

Ou seja, em vez de diversificar, nós escavamos fundo. É um desdobramento peculiar da dicotomia do famoso conceito de Isaiah Berlin da raposa "que sabe muitas coisas" e o ouriço "que sabe uma coisa muito importante".

Apesar de termos ampla oportunidade de conhecer um pouco (ou mesmo bastante) sobre tudo que um mecanismo de busca oferece, costumamos passar batido por toda aquela informação disponível para aprender mais sobre o assunto em que já estamos interessados. O resultado é que nos tornamos uma nação de ouriços.

Não é esse o enfoque usual sobre o contexto contemporâneo da obtenção de informações. Se existe uma noção que os críticos da cultura acalentam, é a idéia de que as manchetes tomaram o lugar das reportagens e "análise" é outra palavra para o que fazem comentaristas metidos a sabichões.

LEQUE ESTREITO

Há alguma verdade nisso, mas não seria possível também que a sobrecarga de informações está gradualmente reprogramando nossas mentes, de tal modo que estamos realmente pensando com mais profundidade sobre uma gama de tópicos mais estreita?

Isso poderia explicar a expressão de horror no rosto de meu vizinho. Aliás, ele e sua mulher são sindicalistas profissionais - em outras palavras, ouriços dedicados no que diz respeito a questões de imigração.

E embora eu tenha pensando em mim freqüentemente como uma raposa (bom papo em jantares sociais, embora acadêmica sofrível), foi só então, parada, de roupão, em meu jardim e sentindo-me a pateta do pedaço, que percebi que sou um ouriço também.

Se ele me perguntasse sobre cinema alemão, eu teria deitado e rolado (afinal, não comparecem 500 mil pessoas em festivais de cinema alemão).

Ainda estou tentando me livrar do meu embaraço.

Jamais pensei que diria isso, mas talvez seja hora de entrarmos todos em contato com nossa raposa interior - pelo menos um pouco. Os ouriços podem ser mais cerebrais no estrito senso, mas é difícil espremer aqueles espinhos pontudos numa camiseta "Unite Now".

* Jornalista do 'Los Angeles Times '

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