Entrevista:O Estado inteligente

segunda-feira, abril 10, 2006

Delinqüência Por Reinaldo Azevedo

PRIMEIRA LEITURA

O ambiente político brasileiro está pleno de incertezas. Comecemos pela maior delas: o candidato ainda tido como favorito para a Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva, depende, para ficar em pé, de que não se faça com o sigilo bancário de Paulo Okamotto o que se fez com o do caseiro Francenildo Costa. Vale dizer: o líder pode estar a um passo da queda. Em vez de ganhar o mandato que ainda não tem, é razoável a chance de que perca aquele que ele tem. Se tudo é incerto, uma certeza, no entanto, está posta: a delinqüência política está em alta e à solta. Seu lance de momento consiste em tentar vincular José Serra, candidato tucano ao governo de São Paulo, à série de denúncias que colheu Geraldo Alckmin, o presidenciável do PSDB. Trata-se de uma sordidez que, para variar, conta com o auxílio da mídia para prosperar.

Aliás, este site e sua revista, que defendiam a candidatura de Serra à Presidência, foram acusados, estupidamente, de ser beneficiados por propaganda da Nossa Caixa, o que seria do interesse de Geraldo Alckmin! Faz sentido? Não. Mas e daí? Os "isentos", não obstante, prestam serviço ao PT. Se o fazem por dinheiro ou não, pouco importa. Há quem ache que a corrupção ideológica é moralmente superior à outra, àquela da grana. Não é. Há uma boa chance de que seja até pior. Porque o criminoso se esconde numa suposta causa, que o isentaria de culpa. Mas avancemos. Atribuir a Serra a origem das denúncias ou dar curso a tal especulação corresponde a abrir aquela que parece ser a única, embora estreitíssima, porta à candidatura do PT ao governo de São Paulo.

Essa especulação nasceu primeiro no PT. De lá partiram as reiteradas fofocas de que a seqüência de notícias ruins que colheu Alckmin era "fogo amigo". Não era e não é. As acusações estavam na ponta da agulha, à espera a definição da candidatura, para serem disparadas. Também esperavam apenas ordem para acionar o gatilho as rebeliões nos presídios e na Febem. Assim será. O Brasil está entrando naquela zona cinzenta em que o crime comum e o crime político começam a obedecer a um comando único.

Gente safada não precisa de motivo, mas de pretexto. Então ficamos assim: a denúncia de que Alckmin teria financiado veículos de comunicação que o apoiavam incluiu Primeira Leitura, que defendia o nome de Serra. Este, por sua vez, estaria na origem da denúncia. Deve, então, ter metido na lista suspeita um veículo que o apoiava para esconder suas pegadas. Entenderam? O que parece o samba do tucano doido não passa do enredo do jornalismo ideologicamente corrompido, rendido a um partido.

E, antes que se diga que, então, somos a outra face do mesmo mal, observo: mentira! Nossa posição está muito clara: defendemos o nome de Alckmin para a Presidência e o de Serra para o governo de São Paulo. E é perfeitamente possível fazê-lo nos textos opinativos sem distorcer o noticiário nem mentir. Mais: Primeira Leitura não usa de fontes em off para espalhar boatos. Nossas análises são em on. O PT pode não gostar das opiniões que lê aqui. Mas não tem como contestar as informações relativas ao partido.

Atribuir a Serra a responsabilidade pelas denúncias obedece a um duplo objetivo do petismo: desestabilizar a candidatura de Geraldo Alckmin antes mesmo que ela dê os primeiros passos — ainda não se viu nada parecido com uma pré-campanha —, lançando a marola de que o ex-governador poderia ser substituído por Serra, que não teria engolido a escolha do outro como o nome do partido.

No cenário imaginado pelos petistas, agora com a ajuda de jornalistas, Alckmin se convence de que, de fato, está sendo vítima de fogo amigo e dá o troco. Assim, tão logo uma onda de denúncias colha Serra — e é claro que virá —, a suposição óbvia é de que teria Alckmin por trás, retaliando. O alvo da retaliação, por sua vez, treplicaria. E, assim, os dois tucanos ficariam se matando, enquanto Marta Suplicy assistiria ao confronto de camarote, preparando seu caminho para o Palácio dos Bandeirantes.

Pode-se dizer que ninguém é ingênuo a ponto de cair em truque tão sujo e primário. Pois eu lhes digo que os políticos são seres um pouco complicados e mais inseguros do que dão a entender. Também eles, como qualquer um de nós, acreditam em letra impressa mais do que seria prudente. Sabem que, em muitas casos, a notícia de jornal, de revista, é a ponta de uma disputa de bastidores que envolve lobbies, fontismo, relações de amizade, esferas de influência. O ambiente da política é construído para que se veja uma assombração a cada esquina.

Se a gente olhar direito, restou ao PT em São Paulo fazer o quê? O partido foi absolutamente surpreendido pelo desfecho. Em sua prancheta, o candidato à Presidência seria Serra, numa disputa com Lula que os petistas davam como mais difícil, mas possível de ser vencida, e já se viam com a mão no segundo maior Orçamento do país. Hoje, têm um Lula sempre à beira do impedimento como favorito e reconhecem que vencer Serra em São Paulo é tarefa das mais difíceis. Até manifestação de protesto contra a renúncia do adversário à prefeitura o PT promoveu, numa cena, que eu saiba, inédita na história política brasileira.

Que os tucanos tenham juízo e saibam enfrentar essa onda. Quanto a certo jornalismo... Vejam só. Quando Serra despontava como favorito à Presidência, viviam a lembrar de um papelucho vagabundo, uma chantagem vulgar, que teve de assinar. Tendo Alckmin sido o escolhido para disputar a Presidência, os mesmos que brandiam aquele papel estúpido apostavam que o outro não se conformaria e partiria para a guerra de destruição. Partiu, sim, para a batalha: mas para conquistar o Palácio dos Bandeirantes, tema que era debatido na cúpula tucana havia tempos. Não foi solução de improviso. Ora, como Serra não fez o que se esperava e renderia um noticiário mais sanguinolento, então que se atribua a ele aquilo que achavam que ele deveria ter feito. "Que ousadia a desse cara não fazer o que todos esperávamos!"

A campanha, está claro, não vai ser limpa. Mas o jornalismo não faria mal nenhum em, vá lá, ao menos filtrar as fofocas. Ademais, mesmo entre tucanos, abundam os hortelões à espera de colher algumas folhas mirradas de suas apostas equivocadas.

[reinaldo@primeiraleitura.com.br]
Publicado em 10 de abril de 2006.

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