ming@estado.com.br
O primeiro a identificar os sintomas da doença holandesa na economia brasileira foi o professor Yoshiaki Nakano, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), que acendeu luzes amarelas já em meados do ano passado.
De lá para cá, nem a agressividade do Banco Central nas compras de dólares estancou a queda das cotações. Os analistas econômicos vão dando razão a Nakano e pedem providências.
Esta coluna tratou algumas vezes desse assunto, desde 22 de setembro do ano passado, mas é preciso retomar os conceitos e avançar na terapêutica.
A doença foi identificada no fim dos anos 70, quando a Holanda passou a explorar vastas jazidas de gás natural no Mar do Norte. Era época do segundo choque do petróleo, as receitas com exportações de gás ficaram tão altas que a forte entrada de dólares causou a rápida valorização do florim, então a moeda local (hoje é o euro). O câmbio assim derrubado tirou competividade da indústria e travou o crescimento econômico da Holanda.
É mais ou menos o que acontece agora no Brasil. As vigorosas compras de commodities pelos asiáticos têm provocado um choque de exportações, o dólar não pára de escorregar no câmbio interno e a indústria brasileira passa repetidos sinais de anemia.
A medicina econômica dispõe de alguns antídotos contra o mal. Como a perplexidade com a nova situação aumenta, convém dar uma repassada neles.
Uma forma de atacar os problemas produzidos pelo choque das exportações de commodities é a atual receita do Banco Central: comprar os dólares que sobram no câmbio interno para assim reduzir as pressões pela valorização do real. É tentar atingir o sintoma e não a causa. Já se viu que essa terapia não vai longe. Compra de dólares custa muito, aumenta a dívida e empilha reservas que começam a pesar nas contas públicas - além de não servir para grande coisa. Enfim, esse procedimento parece esgotado ou próximo disso.
Há a proposta de setores da Fiesp, de instituir um imposto sobre exportações de commodities para que a arrecadação forme um fundo a ser repassado para a indústria mais prejudicada. É a volta do confisco, imposto no passado sobre exportações de café e açúcar, em princípio para financiar estoques reguladores. Poderia também compensar uma redução de impostos sobre a produção para reduzir o custo Brasil e dar mais competitividade à indústria. Seria a pior saída, porque desencoraja as exportações, o que se quer estimular.
Outra idéia vai na direção oposta: estimular importações para que haja mais procura de dólares e a valorização do real seja estancada. Bastaria que o governo reduzisse ou eliminasse a incidência do Pis-Cofins sobre os preços dos produtos importados. O ex-presidente do Banco Central Affonso Celso Pastore repisa nessa sugestão.
A professora Eliana Cardoso, da FGV, sugere que se adote o modelo chileno. O cobre corresponde a mais de 40% das exportações chilenas e quando suas cotações disparam, como agora, o governo chileno põe em marcha mecanismos que comprimem as despesas públicas. Assim, os juros podem cair; juros mais baixos é mais dinheiro na economia, o consumo aumenta, crescem as importações e o câmbio tende a reequilibrar-se. Não deixa de ser uma variável da proposta do ex-ministro Delfim Netto, de meta de déficit nominal zero, para que os juros caiam.
Algumas dessas idéias podem combinar-se. De qualquer maneira, uma providência tem de ser tomada para fortalecer o organismo econômico. Se nada acontecer, a tendência é de o dólar continuar deslizando, agora para a faixa dos R$ 2,10 e daí sabe-se lá para que patamar.