Há uma instigante dúvida no ar: que discurso será mais eficaz para eleger o presidente da República? A expressão ética ou a linguagem laudatória da economia? A denúncia da corrupção ou a exibição do Estado providencial? Ameaça errar quem indicar uma das alternativas. É o caso do presidente Luiz Inácio, que começa a compor a retórica eleitoral com números da economia para demonstrar a expansão do bem-estar social sob seu governo. É o caso também do ex-presidente Fernando Henrique, que convoca o tucanato a centrar o debate na escalada da corrupção, que, segundo ele, compromete "urbi et orbi" (alusão à fala do papa à cidade e ao mundo). O mandatário-mor olha para o estômago e o ex-mandatário, para a cabeça. Ambos parecem esquecer que as duas partes, integrantes do mesmo corpo, não funcionam separadamente. O bem-estar físico de uma implica a saúde mental de outra.
Petistas e tucanos têm visões diferentes sobre o discurso eleitoral. Lula tentará comparar seu governo com o do antecessor, alinhando aspectos positivos a partir de números que atestariam a melhoria de vida dos pobres. O objetivo é mostrar uma sociedade mais igualitária, um país liberto do FMI e auto-suficiente em matéria de petróleo. Tochas propagandísticas começam a se acender. Já o tom do candidato tucano (seja qual for), José Serra ou Geraldo Alckmin, pelos primeiros acenos, elegerá como foco a maior teia de corrupção escancarada da história contemporânea.
O antagonismo dos discursos abre uma reflexão que começa com a leitura do "ethos" brasileiro. Já se disse que os franceses são "o povo da razão", os espanhóis, "o povo da paixão" e os ingleses, "o povo da ação". Para os brasileiros, cai bem o epíteto "povo emotivo cordial-carnavalesco", arrumado pelo embaixador Meira Penna. Estamos distantes dos anglo-saxões, com sua cultura da eficiência. A obediência ao monumento da moral, que alicerça o pensamento de Benjamin Franklin de que a "honestidade é a melhor política", cede lugar, entre nós, à improvisação e à desorganização, conforme tão bem descreveu o timoneiro Simon Bolívar quando disse que na América Latina os tratados são papéis, as constituições não passam de livros, as eleições são batalhas e a liberdade se confunde com anarquia. Sob esse teto esburacado, a ética da responsabilidade, tão do gosto de Fernando Henrique, não encontra espaço para crescer, deixando a disciplina de Max Weber sob franco tiroteio da lógica franciscana do "é dando que se recebe".
Por essa janela Lula entra na casa das massas carentes. Imagina que a corrupção no Brasil, de tão banalizada, iguale políticos e governos. Chegou a dizer um dia que o Congresso abrigava 300 picaretas. Portanto, os mesmos dutos de corrupção que atravessam o território petista corriam em subterrâneos de outros governos. Com essa crença o presidente vestirá a camisa do bom samaritano para emergir como o "pai dos pobres". Há um porém nessa retórica. Trata-se do entendimento sobre o caráter ambivalente da psique humana descrita por Jung. Há sempre dois lados que explicam a condição humana, algo como o primado da razão se contrapondo ao primado da emoção. Exemplo marcante na política é o de Hitler, que teria compreendido, personificado e usado o teor de repressão e recalque profundamente arraigado no povo alemão. Para dar vazão a ele e contrabalançar a frieza germânica, o gênio do mal vestiu o manto da paixão, usando-o ardilosamente.
Por essa via da psicologia das massas se firma a hipótese de que o povo brasileiro, extremamente emotivo, desejaria encontrar a outra margem de sua identidade, ou seja, a responsabilidade, o caminho da ética, a viela da moral. A idéia parece encontrar eco na profunda indignação que invade os poros da sociedade, pela sensação de que o escândalo do mensalão gerou uma reversão de expectativas. Generaliza-se o sentimento de que a corrupção bateu no teto. A sociedade acompanha o desenrolar da crise se identificando com o ideário de defesa dos bons costumes e o ataque aos corruptos. Mais racional, nota que os recursos roubados deixam de ser aplicados em seu benefício. Quer dar um basta nisso tudo. O princípio da maior felicidade para o maior número de pessoas, alicerce do bem-estar social, passa a comportar ingredientes materiais e espirituais. O pão para alimentar o estômago deve sair de uma padaria limpa. E os padeiros precisam provar que não substituem trigo por fécula de milho. Nessa fresta entra Fernando Henrique, para quem ética e moral serão ganchos fortes do discurso. Tem razão quanto a isso.
Há outros componentes para explicar a eficácia de mensagens com abordagens múltiplas. Trata-se de mexer com os instintos de conservação do indivíduo e da espécie, utilizados na propaganda política. Tais impulsos apontam para duas linguagens. Uma, de luta pela sobrevivência e progresso material, que desperta as necessidades humanas de segurança, habitação, emprego, alimento, educação e saúde. Gera forte impacto na base da pirâmide social (é o que Lula vai garantir que fez). Outra, de defesa de valores espirituais, dentre eles a ética, o zelo, a dignidade, a honra e o senso do dever, com efeitos mais positivos sobre estratos médios (é o que oposicionistas, tucanos à frente, vão dizer que o governo Lula não fez). Ambas as linguagens são necessárias para propiciar harmonia social. O desafio de cada candidato será demonstrar que sua proposta servirá mais ao País. Perderá quem acreditar que a economia, sozinha, possa vencer a ética ou vice-versa. O povo dosará o peso de perfis e temas, pondo na balança decisória os vícios privados e as virtudes públicas.