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Aparentemente existe um contraste entre o noticiário da semana e o trio de filmes sobre a questão árabe-israelense em cartaz no Brasil - Munique, de Steven Spielberg, Free Zone, de Amos Gitai, e Paradise now, de Hany Abu-Assad. Esses filmes se caracterizam pelo respeito à complexidade da questão, com ênfase nas dúvidas que humanizam seus personagens e, ao fundo, apontam para a possibilidade de conciliação. Os fatos recentes, como a vitória eleitoral do Hamas na Palestina e a resistência dos colonos judeus na Cisjordânia, mostram que a intolerância ainda conta com muitos votos mútuos.
Munique é um belo filme. Tony Kushner, o roteirista, ajudou a trazer Spielberg para outro grau de maturidade. Não há frases demagógicas como "Eu poderia ter feito muito mais" (Schlinder). Não há o herói americano que restabelece a estabilidade comunitária. Não há, acima de tudo, a equivalência tradicional em seus filmes entre pátria e lar; Spielberg descobriu que essas entidades nem sempre rimam. Descobriu as sombras, as ambivalências. Descobriu a herança européia, tanto que algumas cenas poderiam ser assinadas por um Bertolucci. É chato dizer isso, mas o 11/9 lhe fez bem. Em Munique, as torres gêmeas aparecem como se indicassem que não há refúgio para quem interfere em problemas intrincados. Os acontecimentos se processam em cadeia.
O que ele consegue é um equilíbrio entre ação e reflexão que raramente se vê no cinema. Há momentos falhos em ambos os quesitos - diálogos que parecem gratuitos no contexto narrativo, seqüências que parecem lentas ou redundantes. Há os problemas de precisão histórica, que têm sido apontados por alemães, judeus e islâmicos. Há o maior defeito de todos, que são as hesitações e trapalhadas implausíveis do grupo encarregado de vingar o seqüestro dos atletas israelenses na Olimpíada de 1972. Li também queixas sobre a violência de algumas cenas e a falta de emoção de outras. Mesmo assim, o filme prende, tem alguns atores de primeira (Geoffrey Rush como Efraim, que merecia ter sido indicado para o Oscar), tem imagens de grande poder (os três agentes sentados à beira do rio, um deles morto, como vultos de uma causa inglória); e quem não se emociona com a conversa de Avner por telefone com a filha é isopor.
Mais importante: o filme não toma partido. O quinteto perambula pela Europa e o sentido de "missão" vai se perdendo. Numa das melhores falas, Carl (Ciaran Hinds) diz para Avner que ele é o tipo de pessoa que é capaz de enfrentar qualquer coisa menos o silêncio, a inação. Aí entendemos por que é o líder escolhido pelo Mossad, o serviço secreto israelense. Eric Bana não é um ator capaz de mostrar com toda riqueza a maneira como o andamento das operações vai perturbando a convicção de Avner, mas a sensação se instala no espectador. Ele se vê numa roda sem fim, num "círculo de sangue", e quer escapar em Nova York.
A expressão "círculo de sangue" aparece em Free Zone, um filme irregular e chato, que se salva por algumas passagens e pela visão geral da questão. O excesso de closes e tagarelice deixa o enredo confuso. Sobre a personagem de Natalie Portman, Rebeca, que abre o filme com um choro de seis minutos, terminamos não sabendo quase nada afora o fato de que é uma americana que não pode ser considerada judia por não ter mãe judia. Sua jornada Jordânia adentro, até a fronteira fulcral entre Iraque, Arábia Saudita e Síria, serve como aprendizado às avessas, pois terminamos achando que a israelense (Carmen Maura) e a palestina (Hana Lazslo) são tão conflituosas quanto semelhantes.
O fanatismo surge apenas indiretamente em Free Zone; em Paradise now é o tema central. A história flui levemente, com uma visão também multívoca da questão, mas por momentos tem um jeito de "Homens-bomba também choram", o que talvez explique sua indicação ao Oscar de filme estrangeiro. O mais agudo é a mudança de comportamento dos dois terroristas, pois um instila a dúvida no outro e depois termina agindo, ao contrário do amigo. Seu discurso, como no filme de Gitai, justifica a violência pela opressão de Israel, que já foi muito além das fronteiras estabelecidas na fundação em 1948. Daí a desconfiança que todos sentimos quando um Sharon decide retirar de Gaza os colonos, ao mesmo tempo que ergue muro na fronteira para isolar Israel.
O sentimento de humilhação é a matéria com que os ideólogos islâmicos do sacrifício trabalham, além da promessa do paraíso pós-morte. O orgulho é mais importante que a própria discussão sobre quem tem mais direito àquela terra, de implicações políticas, culturais e religiosas infindáveis. Simplificações, porém, são freqüentes. O desenvolvimento da margem ocidental de Nablus aparece como símbolo daquela opressão, como se a pobreza de um povo fosse causada exclusivamente por outros países. E o tempo todo nossa sensação é a de que esses jovens prefiririam se divertir a se explodir.
Os três filmes, até onde a arte pode enviar recados, pedem o diálogo. Parecem de acordo, como eu, com a idéia de que é preciso haver um Estado palestino em convívio político com o Estado de Israel. Mas esquecem a cultura da unilateralidade que se consolidou na região. O Hamas nem sequer aceita a idéia de que Israel exista. O "establishment" de Israel só vê terrorismo nos outros. Os EUA, que municiam Israel, fazem pouco - devido aos compromissos de uma elite empresarial e à tradição de sua política externa, mescla de interesse e missionarismo que tanto agrada a Bush e sua equipe. A chance de paz talvez esteja, sim, no apego às coisas simples da vida (namorar, brincar, comer, criar) sugerido nos filmes, mas não é nada simples de atingir. Nesses desertos os labirintos se perpetuam.
RODAPÉ
Se você quer um autor que não cabe nas versões atuais de esquerda e direita, leia Against the Flow, de Samuel Brittan (Atlantic Books), colunista do Financial Times que não acredita que jornalismo pensante seja contradição. Ele foi contra a guerra do Iraque, mas não contra a deposição do Taleban. Critica a mentalidade americana que, ao ditar que "o inimigo do meu inimigo é meu amigo", justifica apoio a ditadores em nome do anticomunismo e, agora, do antiterrorismo. Mas também mostra os equívocos da ONU. Não vê a globalização como um processo determinista, apontando o valor da tecnologia e criticando o Estado do bem-estar social. Escreve brilhantemente tanto sobre Keynes e Russell como sobre Friedman e Hayek. E sua crítica ao pós-modernismo - anticapitalista, irracionalista e hiper-relativista - é das melhores que li.
OS 'BRIGHTS'
É fascinante o artigo de V.S. Ramachandran, grande cientista indiano, sobre os chamados "neurônios-espelho", no site Edge (www.edge.org). O dr. Rama, como é conhecido, é um estudioso das interferências entre corpo e comportamento. Os "mirror neurons", como pesquisadores italianos demonstraram recentemente, formam um sistema de simulação muito sofisticado no caso do cérebro humano. Aprendemos por imitação e repetição, nos colocando na perspectiva do outro graças a esse grupo de células localizadas no córtex cingulado, lá onde a consciência intelectual e os sentimentos primários se encontram.
Nossa sobrevivência depende das ações alheias; somos, por assim dizer, seres biologicamente sociais (e por isso, acrescento, sentimos vergonha dos outros quando levamos um tombo, ao contrário dos pingüins). Há em cada indivíduo uma assimetria, uma confusão entre mundo interior e exterior, justamente porque trabalhamos com encenações. O cérebro tem mentes múltiplas, é habitado por vozes e imagens como num teatro mutante. Aquilo que a grande literatura intui, desde Cervantes e Shakespeare, agora a ciência renova.
A ARTE DE EXPOR
Um pouco do ambiente evolutivo em que surgimos está em Dinos na Oca, no parque Ibirapuera, exposição que conta com exemplares muito interessantes de diversas regiões do planeta, inclusive da Chapada do Araripe e da Lagoa Santa. O cenário não é tão limpo e informativo como era o daquela exposição na Faap em 2004, mas a coleção é maior. (E é uma pena que, nas bilheterias, o atendimento ao público seja cenozóico, carente de organização e agilidade.) Uma curiosidade a observar é o número de vezes em que a Terra sofreu cataclismos, levando à extinção mais de metade das espécies. Isso sugere que sua biodiversidade não é tão frágil quanto se pinta.
POR QUE NÃO ME UFANO
A politização do Judiciário, evidenciada mais uma vez nas medidas de Nelson Jobim contra a abertura dos sigilos dos amigos de Lula e Palocci, e a incompetência para negociar, pasmante na concessão de salvaguardas à Argentina, são dois fatores de atraso do Brasil. A propósito, li algumas pessoas saudando a eleição da "socialista" Michelle Bachelet no Chile, como se ela não tivesse sido sustentada pela política econômica de Ricardo Lagos, de abertura comercial, rigor fiscal e reforma institucional. E que chances teria uma agnóstica e divorciada num pleito brasileiro?