FOLHA
Entre as charges de Muhammad editadas por um jornal dinamarquês e reproduzidas em diversos órgãos da imprensa européia, uma delas retrata o profeta usando um turbante que tem a forma de uma bomba. A sua mensagem não é uma crítica aos movimentos jihadistas que praticam o terror em nome do islã, o que pediria algo como um Osama bin Laden envergando uma fantasia de Muhammad. Ela é uma identificação do islã, como crença e como comunidade de fiéis, ao terror.
O argumento de que o mundo muçulmano distingue-se do Ocidente por não ter conhecido um movimento de reforma religiosa como o protestantismo e uma revolução ideológica como o iluminismo, que separou a política da religião, sugere um debate histórico complexo e legítimo. Já a proposição de que o islã é a crença dos fanáticos constitui uma incitação ao ódio religioso. E a defesa do direito de publicação dessa charge, em nome do princípio iluminista da liberdade de expressão, equivale a uma perversão intelectual. Parte significativa da mídia ocidental, inclusive a Folha, engajou-se alegremente na elaboração desse sofisma libertário.
Os sofistas mais pretensiosos usaram, como de costume, a muleta do silogismo e -surpresa!- invocaram o suposto precedente dos "Versos Satânicos", do escritor indo-britânico Salman Rushdie. Mas como comparar um insulto grosseiro com uma obra literária que, pelo recurso ao experimentalismo radical ou meramente decorativo, explora a tensão cultural que perpassa o islã no eixo formado pela Londres dos imigrantes e pela Mumbai da colonização britânica?
Jornais da Arábia Saudita, da Síria, do Irã e do Paquistão figuram, em bases cotidianas, os judeus como banqueiros sanguessugas ou conspiradores de uma trama voltada para o domínio do mundo. Eles também repercutem as investigações "científicas" dos falsários que, sob as roupagens de historiadores, negam o Holocausto. Diante dos protestos ocidentais, autoridades e editores desses países, nos quais a mídia está submetida à vontade dos regimes políticos, retrucam com discursos hipócritas sobre a liberdade de imprensa. Quando os jornais ocidentais se perfilam ao lado dos que publicaram a charge de Muhammad, estão imitando o comportamento da pior imprensa do mundo. Com uma diferença: encantados por seus próprios lugares-comuns altissonantes, nem sequer percebem a natureza farsesca do papel que desempenham.
O Muhammad da charge dinamarquesa não é um raio no céu limpo. Na figuração ocidental do islã, disponível todos os domingos nas bancas, sucedem-se terroristas encapuzados, multidões enfurecidas e mulheres lacradas em burcas. Esse lixo, que emerge das águas misturadas da ignorância e do oportunismo, cumpre funções políticas nítidas, mesmo que seus autores não saibam reconhecê-las. Ele veicula a mensagem de uma oposição irredutível entre o Ocidente, que seria o fruto da razão histórica, e o islã, que seria um reduto do fanatismo e da intolerância.
A liberdade absoluta é o estado de natureza hobbesiano. A liberdade de incitar o desprezo e o ódio ao islã serve à agenda política da "guerra de civilizações". Paradoxalmente, entre os beneficiários dessa agenda, encontram-se os regimes autoritários do mundo árabe e muçulmano e a rede jihadista do terror global.
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