Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

FHC: recado também para dentro



Reinaldo Azevedo, Primeira Leitura (07/02/06)

Sei por que FHC deixa o PT tão irritado e por que seus capas-pretas saem por aí nervosos, como se o ex-presidente tivesse desenhado Lula com uma bomba na cabeça. Aquele que ainda é a principal referência do tucanato tem o dom de acelerar as partículas do jogo político quando o marasmo é favorável, como vinha sendo, ao petismo. Quando menos, ele vem para dividir a cena. O que Lula considera insuportável.

Mal posso esperar para ler as análises, todas com inequívoco DNA petista, segundo as quais o tucano fez tudo o que o comando do PT queria: afinal, o que interessa ao Planalto é polarizar com o ex-presidente. Bobagem! FHC deu um grito de guerra. Se será ou não seguido por seus soldados, é o que se vai ver. Mas retirou o tucanato e a oposição daquela mornidão burocrática e daquela conversa abestalhada de que a disputa vai-se dar em torno de modelos de governança.

O que o ex-presidente vem lembrar é que a POLÍTICA — sim, ela mesma! — estará no centro da disputa. Quem quer um confronto quase burocrático, em torno de uma numerália burra, é Lula. Burra por quê? Porque, evidentemente, ele pretende despi-la das circunstâncias. E há uma boa chance de setores do tucanato caírem nessa armadilha. Daí a importância do grito de guerra. Lembram-se do famoso “é a economia, estúpido?”, da campanha de Clinton? Aqui no Brasil, já dissemos uma vez, era o caso de dizer: “É a política, estúpido”. E, agora, é preciso renovar: “É a ética, estúpido”. E esse debate ético não pode se restringir à questão da roubalheira, não. Mas também às escolhas feitas pelo governo, seus beneficiários e o custo de se ter uma gestão petista.

FHC concedeu duas entrevistas (à IstoÉ e ao programa Roda Viva) e escreveu um artigo (no Estadão) como o chefe político do partido que hoje é favorito para substituir o PT. E a assertividade com o que o fez é coisa meio rara no tucanato. Lula, com efeito, passou por uma recuperação de prestígio eleitoral por razões mais do que claras e conhecidas. Mas ainda perderia, hoje, para Serra por uma boa distância.

E onde é que se ouvem os rojões? No arraial tucano? Não! Os petistas é que comemoram. Entre as aves de bico grande, um guarda obsequioso silêncio; outro diz que está tomando aulas frenéticas sobre o Brasil e flerta com uma convenção que faria sangrar o partido. Bom, bom, bom, alguém tem de chamar para si a responsabilidade de distinguir, como Paulo, o Apóstolo, o som da flauta do som da cítara. E o ex-presidente o fez.

Bom para o PT? Digam o que disserem, duvido. Segundo o último Ibope, a rejeição a Lula passa dos 30%; a de Serra e Alckmin está em 7%. O prefeito tem 8 pontos de vantagem sobre o petista no segundo turno. É claro que tudo isso pode ser posto a perder e, convenhamos, não são pequenos os esforços em certas áreas tucanas para tanto. FHC percebeu duas coisas: o PT falando sozinho, e os seus generais batendo cabeça e atuando contra o próprio patrimônio. Por isso deu uma sacudida na macieira. Também pode ter pressentido um jogo perigoso: gente apostando todas as fichas, mas para colher resultados em 2010...

O tucano-mor mandou, sem dúvida, um recado para fora, para os adversários. Mas também enviou um recado para dentro.

Publicado em 7 de fevereiro de 2006

Arquivo do blog