Começara uma rebelião no Carandiru, informou Pedro Franco de Campos, secretário de Segurança Pública de São Paulo. Do outro lado da linha, o governador Luiz Antônio Fleury ficou alguns segundos em silêncio. Mais que o motim irrompido na tarde de 2 de outubro de 1992, inquietava-o a data. No dia seguinte seriam escolhidos os novos prefeitos. Como reagiria o eleitorado a outra rebelião que escancarava os rombos no sistema carcerário? Decidiu que, se o desfecho da história fosse desfavorável ao governo, só no dia seguinte informações negativas seriam liberadas. Transmitiu a decisão ao secretário e passou-lhe a missão:
- Você cuida disso. E mantenha-me informado.
Campos, que o amigo Fleury chamava de "Pedrão", ligou para o coronel Ubiratan Guimarães. O comandante da Polícia Militar ansiava por ações belicosas. Solicitou ao secretário que o autorizasse a invadir o maior presídio da América Latina. Pedrão achou que a idéia fazia sentido.
- Avalie a situação e faça o que tem de fazer - determinou.
O Carandiru se transformara na mais perfeita tradução dos tumores que infestam as cadeias do Brasil. Um vulcão sempre à beira de erupções violentas.
Ali se amontoavam assassinos patológicos, delinqüentes de pouco risco, inocentes detidos por engano, gente que cumprira a pena e aguardava a hora da libertação. O motim fora desencadeado por uma briga entre prisioneiros.
Desorganizado e sem reivindicações claras, estava condenado a morrer de inanição. No início da invasão, resolveram render-se. Mas os inexperientes e assustados guerreiros do coronel tinham licença para matar.
Mataram 111 homens, desarmados e nus no momento do ataque. Os primeiros detalhes da chacina foram divulgados no dia seguinte, meia hora antes do fim da votação. Pedrão foi demitido. Fleury continua a jurar que soube da tragédia depois de consumada. Hoje deputado federal, não gostou de ter sido promovido pelo povo a "Marechal do Carandiru". O coronel Ubiratan sonha com esse posto há 13 anos.
Deputado estadual desde 1997, o conquistador de presídios comemorou nesta semana um surpreendente triunfo jurídico. Por 20 votos a dois, o Tribunal de Justiça de São Paulo anulou a sentença que o condenara, em 2001, a 632 anos de cadeia. Para os meritíssimos, o bravo oficial agira "no estrito cumprimento do dever". Cumprira ordens.
A Argentina demorou anos para sepultar a "lei de obediência devida", baixada pela ditadura militar para assegurar a impunidade de assassinos fardados e torturadores civis a serviço do governo. A Justiça paulista, invocando filigranas, ressuscitou essa indecência em quatro horas.
Marcados para morrer
Orlando Brito
Há muitas diferenças e uma única semelhança entre Anthony Garotinho (à esq.) e Germano Rigotto (à dir.), candidatos a disputar a presidência pelo PMDB. O gaúcho Rigotto sempre esteve no partido e é pouco conhecido fora do Rio Grande. O fluminense Garotinho acaba de chegar à legenda, mas o Brasil o conhece.
A semelhança é mais relevante: ambos acabarão enganados pelos pajés. Rigotto não será candidato por falta de cacife. Por excesso, Garotinho tampouco será.
O Haiti daqui pode esperar
Soldados do Exército brasileiro seguem promovendo nas favelas do Haiti a faxina pacificadora que falta aos morros do Rio. "Não cabe às Forças Armadas combater quadrilhas de bandidos", recita o coro dos militares. É o que tem feito o contingente no Haiti. Só pode ali. Não aqui. O Brasil é mesmo coisa para profissionais. O ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, reafirma que o Exército ficará distante dos morros conflagrados. "Para esse trabalho, temos a Força Nacional", diz. Das lonjuras onde prepara a entrada em ação, a Força só observa o cotidiano das metrópoles brutalizadas.
Certo, há disfunções sociais e econômicas a corrigir o quanto antes. Mas até que os tumores sejam removidos é preciso cuidar da sobrevivência do Brasil.
Milagre da multiplicação
Foto de Sergio Jr.
Algarismos misteriosos: Berzoini jura que o PT cresceu na crise Ricardo Berzoini é um hiperbólico incurável. Nomeado para o Ministério da Previdência Social, resolveu criar a maior fila de idosos de todos os tempos. E assim fez, cavalgando uma fórmula tão singela quanto brutal: decretou o recadastramento dos brasileiros idosos, que se enfileiraram nas calçadas para provar que existiam.
Agora na presidência do PT, o sempre superlativo Berzoini acaba de divulgar cifras audaciosas até para o partido que fez de 2005 o Ano do Mensalão. Segundo o morubixaba da tribo da estrela, deu-se mal quem imaginou que a catarata de escândalos tornaria o PT menor e mais fraco. No começo da semana, informou que o número de militantes é superior ao de janeiro passado, o início do annus horribilis.
"Temos hoje 864.273 filiados", surpreendeu o presidente. As cabeças a mais somariam exatamente 24.165. "Apenas 5.148 deixaram o partido", entusiasma-se.
Quem são os neopetistas?, perguntam os muitos intrigados com o milagre da multiplicação. Berzoini não responde. Só recita os algarismos que parecem coisa do Delúbio.
Doutores têm alergia à mata
Não faltam empregos para médicos, mesmo se recém-formados e inexperientes. O que falta é médico que não sofra de alergia à selva, queixam-se os prefeitos de duas cidades do Amazonas. Coari, 100 mil habitantes, a 370 quilômetros de Manaus, garimpa há um mês 12 profissionais dispostos a cuidar da saúde dos nativos. Parintins, 110 mil moradores, a 315 quilômetros da capital, caça - até agora infrutiferamente - pelo menos 18 médicos. O salário é de bom tamanho. Um novato recebe R$ 4.600 da prefeitura e outros R$ 5.300 do governo estadual. Especialistas ganham R$ 12 mil. Cirurgiões levam R$ 1.500 para "ficar de sobreaviso".
O governo Lula deveria remeter à região 40 companheiros médicos. E festejar o sucesso do Programa Primeiro Emprego.
Um blog muito doido
Antonio Lacerda
Dialeto delirante: Cesar Maia espanca o português na internet
Quem visitou em 13 de fevereiro o blog do prefeito Cesar Maia foi castigado por generosas lições de mau português e pieguice. Seguem-se algumas delas (e, entre parênteses, comentários ligeiros do colunista):
1. "De dezembro de um ano, a fevereiro do ano seguintes, sempre as avaliações dos governos melhoram." (A primeira vírgula está sobrando. Como o s nesse seguintes.)
2. "Porque é assim?" (Por que não perguntar a alguém do ramo se esse porque é junto ou separado? É separado.)
3. "O reveillon produz magicamente uma sensação de começar de novo." (Cesar Maia, quando está de bem com a vida, é pura poesia.)
4. "Vem as férias de janeiro." (cadê o circunflexo no e?)
5. "Em novembro de 2005 com 10 pontos na frente, os liberais chamaram eleições para janeiro de 2006." (Chamaram como, prefeito? Pelo nome? Assoviando?)
6. "Há 15 dias das eleições tudo mudou." (Há com h e acento agudo? O prefeito precisa de um curso intensivo de português. Ou acha que, depois de Lula, vale tudo?)
A coluna informa que o Cabôco Perguntadô e os jurados do Yolhesman Crisbelles estão gozando de merecidas férias. Continuarão longe desta página por mais três semanas.