O GLOBO
O celular do ministro de Minas e Energia, Silas Rondeau, tocou na sexta-feira na hora do almoço e era o ministro de energia da Bolívia adiando para depois do carnaval a reunião que seria feita no Brasil com Evo Morales. Logo depois do almoço, o ministro foi para uma reunião com argentinos e venezuelanos sobre o gasoduto que cortará o Brasil, se algum dia for feito.
A Bolívia não quer vender para o Brasil só gás. Quer vender produto com valor agregado. Por isso, o presidente Evo Morales quer que a Petrobras invista no projeto de um Pólo Gás Químico e em uma usina térmica com capacidade de produção de 2 mil megawatts na fronteira. A usina forneceria energia para o Brasil. É isso que está no memorando de entendimento que está sendo negociado. Mas Morales quer submeter o documento aos presidentes da Câmara e do Senado. Por isso, o adiamento.
O setor de energia no Brasil está com vários projetos controversos. A Petrobras vai aumentar seus investimentos na Bolívia sem exigir que eles esclareçam o que querem dizer com as ameaças de estatização dos bens em mãos de estrangeiros na área de gás.
Não dão garantia e querem garantias.
O gasoduto Brasil-Argentina-Venezuela é assunto de seis grupos de trabalho. Silas Rondeau participou de uma das reuniões na sexta-feira, no Rio de Janeiro. No dia 9 de março, haverá reunião de ministros dos três países.
Quanto a outro projeto cercado de polêmica, o das hidrelétricas do Rio Madeira, o ministro acha que será possível licitá-las em julho:
— O prazo para que a avaliação ambiental seja concluída é abril. Eles podem dar ou não dar a licença, mas esse é o prazo para a resposta — diz.
As empresas privadas de energia estão preocupadas com outros temas bem mais imediatos. Há muita gente no mercado que acha que o gasoduto com a Venezuela é delírio e que não poderia ser a prioridade agora; que na área hidrelétrica há outros projetos muito mais viáveis e baratos e teme que, na Bolívia, o Brasil esteja indo muito rapidamente, sem se proteger com garantias.
Nas últimas semanas, o preço da energia no mercado spot oscilou fortemente, saindo do patamar de R$ 16 o MWh para R$ 80; para depois cair de volta para os R$ 40. O que faz essa oscilação é o temor de que o Brasil esteja dependente demais de um São Pedro generoso.
— O nível dos reservatórios está muito mais baixo do que no ano passado e o nível de precipitação está menor que a média história recente — comenta um empresário.
— Não é verdade. Só está acontecendo uma coisa pequena nos reservatórios do Sul — contestou o ministro.
Especialistas garantem que, no Sudeste, também o nível dos reservatórios está mais baixo que em 2005.
O setor acha que só não haverá crise energética se houver investimento em aumento da capacidade e se São Pedro continuar mantendo um bom regime de águas.
E os investimentos mais importantes estão todos sendo feitos pelas estatais. Há empresas no mercado com recursos em caixa, aplicados no mercado financeiro, à espera de soluções para a confusão regulatória.
O ministro Silas Rondeau acha que esses investimentos não são feitos porque a taxa de retorno exigida pelo investidor estrangeiro é alta demais:
— Sei de casos, como os de que você está falando, de empresas que entraram no leilão, mas acabaram não comprando e me disseram que o investidor queria retorno muito alto. A lógica das empresas estatais é outra. Elas podem ter um retorno mais apertado. Só que hoje elas sabem que ou competem, ou morrem.
Semana passada, entrevistei na Globonews o senador Rodolpho Tourinho, que foi ministro de Minas e Energia e estava no governo na época da crise de energia, e o consultor Adriano Pires.
Os dois acham que há riscos de desabastecimentos de energia.
— O Brasil está num dilema. Se crescer, fica sem energia. Só não tem apagão se não crescer. O governo quer que as empresas estatais façam tudo, mas precisa do investimento do setor privado — alerta Adriano.
Tourinho, que tem defendido um projeto de regulação do transporte de gás que atraia o setor privado, acha que o governo tem se dedicado a grandes projetos e deixado de lado as pequenas soluções, que ajudariam enormemente o setor.
— Em vez de terminar o gasoduto do Nordeste, ele quer fazer um grande gasoduto com a Venezuela e a Argentina — comenta.
Na semana passada, mostrei aqui que existem dez usinas com licença ambiental e que não saem do papel porque o governo não consegue resolver um nó regulatório criado pela mudança de modelo feita no governo Lula. Em vez de resolver isso, o governo quer fazer duas grandes hidrelétricas no Rio Madeira, na Amazônia, ao preço de R$ 20 bilhões.
Silas Rondeau diz que as hidrelétricas não são caras, porque tudo depende do custo a que conseguirão produzir em comparação ao custo da energia nova.
Defende o projeto do gasoduto — considerado por tantos como mirabolante — com a Venezuela e a Argentina. O ministro abre o computador e mostra a apresentação. O gasoduto uniria centros produtores de gás na Venezuela, em Santos, no Peru, na Argentina e na Bolívia:
— Olhe agora o mapa da Europa todo cortado de gasoduto. Olhe o mapa dos Estados Unidos. Por que não fazer o mesmo na América do Sul? Se for feito, será projeto de longo prazo.
O problema é que a falta de energia pode estar mais perto. O nível dos reservatórios está baixando, os investimentos privados estão parados e o país precisa crescer.