Diz
o Houaiss que a obstinação é “o apego forte e excessivo às próprias
idéias, resoluções e empreendimentos; pertinácia, persistência,
tenacidade”. Numa segunda acepção, está lá: “comportamento que denota
esse apego; teima, birra”. Não se pode condenar ninguém pelo “apego
forte às próprias idéias”. Se for “excessivo”, as coisas começam a
ficar mais complicadas. Ser dotado de “pertinácia, persistência,
tenacidade” é, sem dúvida, uma virtude. Já a “teima e a birra”
caracterizam-se como defeitos. Com aquelas se fabricam grandes
vitórias; com estas, marcha-se para derrotas monumentais. Não seria
difícil listar na história uns e outros casos; em uns, encontrar
a pertinácia; em outros, a birra.
O PSDB enfrenta, no caso da
postulação do governador Geraldo Alckmin, o lado não virtuoso da
persistência. Ele parece estar movido por uma vertigem visionária
única, de que os outros líderes partidários não conseguem compartilhar.
Por isso o seu comportamento já não se distingue da teimosia. Embora os
números não lhe pareçam favoráveis; embora as circunstâncias políticas
apontem para a candidatura Serra; embora as chances de vencer Lula
pareçam bem maiores se o candidato tucano for o prefeito, ele demonstra
o “apego excessivo às próprias idéias”. Sabe que, se os tais “caciques
tucanos” decidirem, decidido estará. Mas sabe também que seu adversário
interno não irá para uma disputa de risco se o partido não estiver
unido. E, entendo, não deve ir mesmo. Se a cúpula não consegue
controlar Alckmin, o partido se torna seu refém. Com o PSDB rachado,
por que Serra tentaria a Presidência? Ora de voltar para a prancheta.
Bem,
neste ponto, chegamos à cara do impasse (e depois me permitam
historicizá-lo um pouco): ora, se Serra declina de disputar a
Presidência porque não vê um PSDB compacto e disposto a ir para a
guerra, Alckmin será, então, o candidato. Mas ele o será de um partido
em condições de vencer? Não parece. Se, contra as evidências dos
números e das circunstâncias, a escolha não recai sobre o favorito, por
que uma aposta no futuro há de dar ao PSDB a energia necessária para
vencer o agora forte Luiz Inácio Lula da Silva? Ademais, avançou-se
tanto neste dilema, que parecerá a boa parte da opinião pública que
Serra só desistiu da disputa porque acredita, já hoje, que não há como
bater Lula. Se os fatos não são suficientes para levar Alckmin a apoiar
Serra, por que aquilo que nem fato é vai levar Serra a apoiar Alckmin?
Não sendo o prefeito o candidato, será muito difícil eliminar a
impressão de que se escolheu um nome para perder sem prejuízos maiores.
Não
sei em que medida pode estar havendo tal cálculo em certas hostes, ou
seja, se está usando a disputa de 2006 para alavancar um nome para
2010. É uma possibilidade plausível. Basta a gente andar um pouco e vai
encontrar os apostadores da bolsa de futuros da política prevendo um
trágico segundo mandato para Lula, que chegaria ao fim roto,
desmoralizado, em fadiga de material. E, aí sim, um nome tornado
nacional por uma campanha neste ano venceria facilmente a disputa no
pleito seguinte.
Especuladores de mercado costumam se dar bem
melhor do que especuladores da política. Por mais que pareça
irracional, o mercado tem certas regras e não depende da
estabilidade/instabilidade da opinião pública. Em política, esse
cálculo aventureiro sempre termina mal. Aliás, a história recente está
aí para demonstrar: resolveu-se preservar Lula porque, ao fim, cairia
de podre. Não caiu. Não cai. Aqui se disse que não seria assim.
Falei
em história. O leitor que tiver a curiosidade de recuar um pouquinho no
tempo deve ler as reações de alguns caciques tucanos quando o Datafolha
chegou a dar Serra com 13 pontos de vantagem sobre Lula. Ou quando o
mesmo instituto apontou o prefeito com ainda folgados oito pontos.
Fez-se um esforço danado para dizer que elas de nada valiam. Serra, que
se impôs impedimentos para se dizer candidato — num cuidado, entendo,
até excessivo —, não podia nem mesmo se defender das críticas que
tinham origem em lideranças de seu próprio partido. O curioso e irônico
é que foi justamente uma pesquisa, a do CNT/Sensus, por mais
incongruências que tenha, que fez disparar o alarme no tucanato. Agora
é tarde? Ainda não. Mas digamos que já se vai avançado nas horas.
Entre
a hesitação e o fogo amigo tucanos e as circunstâncias favoráveis que
colheram Lula — mais previstas do que o Natal no dia 25 de dezembro —,
a oposição viu o favoritismo lhe escorrer pelo vão dos dedos. Se, com
13 pontos à frente, o PSDB tivesse decidido um “Agora é Serra”, a
realidade hoje em dia seria outra. Mas não foi assim que se deu. Agora,
sobram nós a desatar. A obstinação de Alckmin, tornada uma teimosia,
também lhe cria problemas: ele avançou um pouco além do razoável para
um recuo absolutamente sem traumas do ponto de vista pessoal. O curioso
é que teria uma eleição para o Senado praticamente assegurada, o que
lhe daria a ambicionada expressão nacional, mas a vaga é solenemente
desprezada pelos tucanos.
Já nem se diga da candidatura ao
governo do Estado, que acabou se tornando um troco, um caraminguá,
derivado da outra disputa. São Paulo tem o segundo maior orçamento do
país. Alguns tucanos acham um absurdo que o PSDB possa abrir mão do
quinto orçamento, o da capital, mas não se mexem em favor do segundo. A
história não perdoa: mata.
Chega a ser melancólico que se possa
falar, hoje, de um Lula forte depois de tudo o que aprendemos e sabemos
sobre o PT. Mas é o que temos. Por mais absurdo que isso pareça, tem a
sua razão de ser. O Lula “que não sabia de nada” sempre foi o chefe
inconteste do partido e impôs a sua vontade o que, obviamente,
torna, no mínimo, inverossímeis as suas desculpas. Muita lambança se
fez no PT, mas ninguém se atreveu a contestar tal fato, decorrente de
sua história, não da teimosia ou de um ato de força.
Alguns
tucanos, ao contrário, têm a mania de, diante de um fato adverso,
ignorá-lo e substituí-lo por uma teoria sobre o futuro. Correm, sim, o
risco de perder a eleição mais ganha da história. E o país corre o
risco de ver referendado um governo que só não caiu porque contou com a
boa vontade daqueles a quem caberia depô-lo quando era a hora. A
história não perdoa. Mata.
Prévias e mecanismos de escolha
Alguns
amigos de esquerda (petistas, claro) — sim, eu os tenho! — estão
inconformados que sejam os “caciques” tucanos a escolher o candidato do
partido à Presidência. Acham que isso evidencia um PSDB elitista e
refratário à democracia. São bons amigos, mas são petistas. E, claro,
eu os ouço sempre com receio de que me batam a carteira dos argumentos
caso eu me distraia. Só se pode ser um petista sendo um batedor de
carteira da história. Eles vão me perdoar porque dizem do que penso
coisa bem pior. Por que não ocupam seu tempo e sua tinta combatendo o
clepto-stalinismo de seu partido em vez de se preocupar com a
“democracia tucana”?
Chega a ser encantador, porque de um cinismo
corajoso, que petistas censurem a ausência de prévias ou “consultas
amplas” no tucanato quando o PT é a evidência máxima não de uma
oligarquia, mas de uma autocracia. O partido pertence a Luiz Inácio
Lula da Silva, que sempre fez rigorosamente o que quis no seu quintal.
Todos os mecanismos basistas de consulta se
caracterizaram por uma monumental fraude: pouco importa se estamos
falando da disputa interna das correntes ou de expedientes
administrativos como o tal “Orçamento Participativo”, uma mentira para
engabelar trouxas e manter mobilizadas as correntes internas da legenda
— as únicas que “participam”.
Partidos não são obrigados a adotar
um mecanismo de consulta universal, previsto em algum código que
pré-exista à sua história. Embora entes públicos, congregam as pessoas
que se afinam com seu ideário: não podem e não devem aspirar à
unanimidade e à representação da totalidade do país — o PT, com laivos
fascistóides, ambicionou e ambiciona tal condição. Deu-se mal. Ora, se
o PSDB tem lideranças reconhecidas por seus filiados como capazes de
tomar uma decisão, o mecanismo de escolha é tão legítimo como o voto de
cada filiado. Quem contesta a liderança de FHC no tucanato? O
jornalismo petista infiltrado nos jornais? Tenham paciência! Na
democracia, cada homem tem de valer um voto. E o voto de cada homem de
tem de valer igualmente. Um partido pode, e deve, conviver com a
meritocracia. Assim é em qualquer lugar do mundo.
A extinta URSS
era o país que mais promovia assembléias no mundo e decisões saídas das
“bases”. Era o exemplo de democracia que sabíamos.
Truque
Ocorre
que setores do próprio PSDB, do PT e, como sempre, do jornalismo,
cismaram que as “prévias” seriam ruins para Serra e positivas para
Alckmin, que já defendeu o expediente. Seriam mesmo? No primeiro
episódio em que decidiu bater chapa com o prefeito, o governador
perdeu: refiro-me à eleição de Jutahy Jr. (PSDB-BA), serrista
declarado, para a liderança do partido na Câmara, e não de João
Almeida, também baiano, que é alckminista. Assim, não parece que o
prefeito perderia a disputa interna se escolhesse tal caminho. Aliás,
tal episódio é ilustrativo: os três maiores jornais do país noticiaram
em letras garrafais que a bancada federal tinha uma maioria
pró-Alckmin. Não tinha. No dia da eleição, Jutahy disse com todas as
letras quem era seu candidato.
Ocorre que os jornalistas, os
petistas, os jornalistas petistas e o próprio Alckmin sabem que Serra
não caminharia para tal afunilamento de disputa interna. E faz bem em
rejeitá-lo. Se vitorioso, dirão que atropelou o adversário; se
derrotado, fica difícil vê-lo engajado na campanha de seu oponente
interno. Mais ainda: seria um sinal óbvio de desunião. E assim seria
vendido o episódio à opinião pública.
De súbito, vejam vocês, os
petistas passaram a se preocupar com a “democracia interna” do PSDB! E
seus porta-vozes na mídia não querem mais saber de falcatruas ou
mensalão do seu partido. Isso tudo já passou. “Isentos” e “democratas”
que são, estão apenas em busca de um motivo a mais para malhar os
“tucanos”, que já começam a ser caracterizados pelos submarinos
petistas plantados nas redações como um “partido de elite”. Como
sabemos, “popular” mesmo é Lula com seus juros reais de 13%.
Ultima
nota: o grande monstro que assombrava a postulação de Serra era a
renúncia à Prefeitura, vista como uma heresia — mais grave do que
desenhar o Profeta comendo uma deliciosa bisteca de porco. Pesquisa
atrás de pesquisa, a tolice, uma armação petista, se desfez. Só resiste
em certo jornalismo e em certos jornalistas, que se fingem de críticos
independentes para disfarçar o joelho marcado pelo altar do petismo
mais rombudo.
Em suma: quem se preocupa com os mecanismos de
decisão da candidatura tucana, mas silencia sobre a roubalheira
clepto-stalinista, é um indecente. Também merecia cadeia. Ao menos a
cadeia moral.
Vai ser quem?
Depende do que
vai decidir. A pesquisa que o próprio partido encomendou indica que
Serra é o nome competitivo hoje. Alckmin acredita que ele próprio, no
futuro, tem mais chances. E ameaça com um racha. Faz um jogo
complicado. Porque hoje nada indica que possa vencer, mas age como quem
não pretende ajudar na vitória alheia. Se um racha ameaça derrotar o
partido com que a legenda marche para a derrota com Alckmin,
porém unida. Será um momento muito educativo da história.
O
governador tem razão quando supõe que Serra não aceitará uma
candidatura com o PSDB trincado. Como ele virou o senhor de tal
trincamento, a decisão, então, é ainda mais restrita do que o tal
colégio dos cardeais. Quem considera antidemocrático que o nome seja
definido por FHC, Tasso e Aécio parece achar muito natural que dependa
de um homem só: próprio Alckmin.
Encerro com um enigma.
Talvez seja o caso de deixar de lado que não tem solução — a
Presidência — e começar a chamar para a pauta o que ainda não tem nem
equação: o governo de São Paulo. Convenha-se: se o PSDB não consegue
conter um obstinado, a culpa não é só do portador da obstinação.
[]
Publicado em 19 de fevereiro de 2006.