O país ficará hoje olhando para o Banco Central se perguntando: será que os juros vão subir de novo? Há esperança de que não subam, mas a seqüência de oito altas não conseguiu reduzir a inflação. Muita gente começa a falar em novas formas de combater a alta de preços. O dilema é este: os juros não estão debelando a inflação, mas não há outras formas além das clássicas.
Se existe uma coisa que o Brasil aprendeu foi a evitar heterodoxias no combate à inflação. Tudo deu errado: controle de preços, congelamento, pacto com empresários, acordo setorial para redução temporária de imposto em troca de queda de preços, ameaças, xerifes, laçar bois, pajelança. O que funciona é o mix: política monetária, política fiscal e concorrência. Já aprendemos também o que deve ser evitado. Uma das coisas a evitar é o governo levantar a suspeita de que está sendo preparado algo que não pode ser dito.
Todo arsenal de esquisitice foi tentado durante os anos 80 e começo dos anos 90. Nada funcionou. O presidente Lula lembrou outro dia uma frase de Ulysses Guimarães que deixou muita gente com pulga atrás da orelha. A frase de Ulysses era a seguinte: "Nem tudo o que vai se fazer na economia pode ser dito antes; se for dito, não pode ser feito." Ela é bem anos 80. Naquela época, acreditava-se que, quanto mais secretos fossem os planos, mais eles dariam certo.
O Banco Central não tem conseguido reduzir a inflação. Oito elevações de taxas de juros, a mais alta taxa nominal e real do mundo e a inflação nos últimos 12 meses acumula 8%. A cada semana, as expectativas dos bancos para a inflação do ano sobem mais um pouco. Isso pode alimentar a tentação no governo de buscar outros caminhos. Apesar de o ministro Antonio Palocci ter dito que "não existe coelho, nem cartola na política econômica", é bom lembrar que o PT sempre acreditou que era possível combater a inflação através de pactos e câmaras setoriais. Até hoje não tentou pôr em prática suas velhas crenças porque devem ter se dado conta de que, na prática, nada disso funciona. O que é preciso é reforçar a política monetária com uma política fiscal mais restritiva. O país está numa situação curiosa: cumpre as metas de superávit fiscal, mas, ao mesmo tempo, tem aumentado os gastos correntes de forma assustadora.
Muitos analistas acham que o aperto monetário dado até agora foi suficiente para reduzir a inflação e que é preciso neste momento esperar o efeito das medidas. As indicações são de que, no futuro de 12 meses, a taxa vai convergir para a meta. Mesmo assim, como o remédio clássico da elevação da taxa de juros não está funcionando, o governo pode ficar tentado a chamar curandeiros de plantão.
A economia brasileira parece prisioneira de alguns mistérios: quando os juros sobem, a demanda costuma cair e os preços também. Os juros subiram, as vendas do comércio cresceram 9% — e ainda não caíram — e a inflação permanece alta. Para dar um exemplo do sucesso no comércio mesmo com juros altos, ontem, no seu balanço do primeiro trimestre, o Ponto Frio registrou uma alta nas vendas de 31% na comparação com o mesmo período de 2004.
Quando o câmbio cai, as exportações diminuem e os preços de produtos impactados pelo câmbio costumam cair também. Aqui, o câmbio caiu abaixo, muito abaixo, do que se previa, mas a inflação permanece alta.
A demanda tem sido mantida pelo crédito consignado, a inflação tem sido alimentada por gastos públicos, as exportações estão se segurando em contratos previamente acertados. Mas devagar os efeitos começam a aparecer. Mesmo com um volume alto de vendas do comércio, a indústria começa a mostrar os efeitos da redução do crescimento provocados pela alta dos juros; apesar do crescimento das exportações nos últimos meses ter sido impressionante, o ministro Luiz Fernando Furlan tem dito que os contratos não têm sido renovados; os dados mostram que a economia começou a se desacelerar. Os índices de preços de atacado mostram que os preços impactados pelo dólar começam a cair.
Portanto é o caso de esperar um pouco mais para ver a reação da economia aos juros altos. Nem o Banco Central deveria elevar os juros hoje — e sim esperar o efeito do grande aperto já dado nas reuniões anteriores do Copom — nem o governo deveria pensar na possibilidade de qualquer outra forma de combater a inflação que não fosse a clássica. Ambos deveriam acreditar mais no forte aperto monetário já dado no país e aguardar um pouco mais seus efeitos sobre a inflação.
COMPLETA DOIS anos este mês um sistema logístico de transporte de toras de madeira em barcaças oceânicas desenvolvido pela Norsul especialmente para a Aracruz. Nestes dois anos, foram 72 mil viagens de carretas a menos nas estradas entre Bahia e Espírito Santo. Para não resolver um problema e provocar outro, a rota foi desenvolvida junto com a ONG Baleia Jubarte de modo a não prejudicar as baleias que habitam a região de Abrolhos.
o globo
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