Um conjunto de acontecimentos políticos, não necessariamente conectados entre si, pressiona o Palácio do Planalto nos últimos dias, exigindo decisões enérgicas que não parecem estar nos planos do presidente Lula. A abertura de uma CPI para apurar o esquema de corrupção que estaria instalado nos Correios, para a qual a oposição conseguiu ontem o número de assinaturas necessário, é mais uma derrota política do governo.
Também a provável derrota no STF no julgamento sobre a obrigatoriedade de os partidos indicarem seus representantes na CPI dos Bingos promete abalar os alicerces do governo.
O senador do PDT Jefferson Perez, que juntamente com o senador do PMDB Pedro Simon entrou no Supremo para garantir o direito da minoria de convocar uma CPI, diz que a decisão do Supremo — que já está 4 a 0 a favor — será "histórica", não por ser uma derrota do governo, mas por garantir a atuação no Congresso dos partidos políticos que não sejam da base aliada do governo.
Às crises políticas envolvendo processos contra ministros, que o governo vem tentando fingir que não existem, soma-se agora esta última denúncia contra um dos principais partidos da base de sustentação do governo. O PTB é tão importante na estratégia do Planalto que simplesmente duplicou sua bancada desde a eleição de 2002, e já teve como objetivo político "ser o PFL do PT", no sentido de que seria a base liberal do governo.
Essa comparação, hoje, receberia certamente o repúdio dos pefelistas, tão escandalosa é a denúncia de que o PTB montou uma verdadeira rede de corrupção em vários órgãos do governo, e não apenas nos Correios, rede essa revelada pelo diretor de contratação dos Correios, Maurício Marinho, até com um certo ar de orgulho, enquanto embolsava sem contar um pacotinho de R$ 3 mil.
A paralisia diante de chantagens, muitas vezes explícitas, de seus aliados, amplia a sensação de insegurança na sociedade, e a imagem do governo vai sendo corroída lentamente, o presidente Lula gastando seu capital acumulado de popularidade. Assim como, em meados de seu primeiro ano de governo, o presidente Lula deixou-se paralisar por movimentos sociais como o MST e os sem-teto, fazendo com que a percepção de que a violência estava se alastrando sem ser contida tomasse conta de uma parte da população, especialmente a classe média, também hoje há uma sensação de que, desde a desastrosa eleição do deputado Severino Cavalcanti para a presidência da Câmara, o governo perdeu o controle da situação política e se deixa manipular pelos partidos que teoricamente formam sua base de apoio no Congresso.
Essa sensação de fragilidade, de incapacidade de tomar decisões, já existe em relação ao governo de maneira geral, e pode estar contaminando o próprio presidente Lula que, à falta de uma coordenação política eficiente, muito por causa do próprio PT, está se colocando à frente das negociações com os aliados, e tem sido perigosamente desautorizado por eles.
Ontem mesmo, na reunião com líderes dos partidos aliados, o presidente Lula teve que ouvir reclamações diversas contra o PT e, ao saírem, os líderes não se sentiram constrangidos pelo presidente e disseram coisas como "quem quer governar sozinho vai dar com os burros n'água".
Se essa imagem de fragilidade política afetar o cacife pessoal de popularidade do presidente Lula, terá como efeito imediato uma desagregação ainda maior dos partidos aliados, que debandarão em busca de um porto seguro para as eleições de 2006. O slogan cunhado pelo chefe da Casa Civil, José Dirceu, de que "este é um governo que não rouba nem deixa roubar", pode ser uma boa frase, mas está distante da realidade. Certamente não estamos diante de um governo corrupto, mas há uma sensação de que os acordos políticos são feitos com uma certa frouxidão de conceitos éticos que permite uma descrição tão detalhada como a que o tal Marinho deu aos empresários que o corrompiam.
Talvez o que melhorou tenham sido apenas as tecnologias para flagrar os corruptos, como câmaras invisíveis que mostram cruamente "as tenebrosas transações" de que nos falou Chico Buarque. É possível imaginar-se, como insinua a situação, que esses mesmos esquemas funcionavam no governo Fernando Henrique, pois os partidos que compunham sua base de apoio no Congresso eram os mesmos.
Mas nunca apareceu uma fita como essa, nem o deputado Roberto Jefferson teve tanto poder explícito como hoje, a ponto de o presidente Lula, depois de ter dito que lhe daria um cheque em branco sem receio, mandar-lhe um abraço de solidariedade. Talvez apenas no governo Collor, do qual era o chefe da "tropa de choque", o deputado Roberto Jefferson tenha tido tanto prestígio.
São problemas de nosso sistema político que, teoricamente fortalece os partidos com um "presidencialismo de coalizão", mas na prática dá uma margem de manobra imensa à atuação individual de parlamentares, que trabalham em benefício próprio e de seus grupos, sem que os partidos tenham qualquer poder sobre eles. Fica então o governo nas mãos de grupo políticos que não têm compromissos com conceitos éticos. Mas o governo Lula precisa ser tão rigoroso com os deslizes dos que compõem sua base no Congresso como tem sido no combate à corrupção dos colarinhos brancos, sem dúvida um ponto alto da atuação do Ministério da Justiça.
o globo
Entrevista:O Estado inteligente
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