Entrevista:O Estado inteligente

quarta-feira, maio 18, 2005

Zuenir Ventura:Um casal abusado



Eu preferiria que essa inelegibilidade da governadora e de seu marido tivesse sido decretada pelo voto, como conseqüência da conscientização do eleitor, da evolução de seu sentido crítico e de seu discernimento. Mas vamos convir que realmente não dava para a Justiça ficar esperando. O casal abusou demais — primeiro, abusou de nossa paciência, depois abusou do poder econômico e político, do cargo, das palavras, das instituições, dos recursos públicos, da boa-fé do cidadão humilde, dos limites éticos e morais. Abusou, enfim, do direito de abusar.


E, como se não bastasse, resolveu afrontar o Estado democrático. Desde os tempos da ditadura militar que não se via tanta virulência destilada por um representante do Executivo contra o Judiciário, rompendo as elementares regras de respeito, civilidade e harmonia entre poderes democraticamente constituídos. O que o ex-governador e a atual governadora disseram da juíza Denise Appolinário, colocando-a sob suspeita, desqualificando-a, acusando-a de ser "simpatizante do PT", de agir por "vingança", de praticar com a sentença um "ato terrorista" foi de fato uma agressão à própria democracia.

Teria sido melhor para a reputação do casal se, em lugar dos vitupérios, eles se defendessem das acusações que os levaram a essa condenação. É sintomático que não quisessem explicar a sentença da juíza, cujos trechos O GLOBO publicou no sábado passado. É um documento arrasador, feito apenas de fatos, uma espécie de raios X das práticas de corrupção e clientelismo usadas pelos Garotinhos nas eleições de 2004 em Campos.

Só a certeza da impunidade explica o desplante com que, às vésperas das eleições, foram distribuídas centenas de cestas básicas, cheques-cidadão, casas a R$ 1 real, kits escolares e dinheiro para compra de votos. Para dar uma idéia: fiscais chegaram a apreender na sede do PMDB, partido dos Garotinhos, 238 cheques e R$ 318 mil em espécie, de origem não comprovada.

Sobre as casas a um real, informa a sentença que houve "3.338 cadastros somente entre os dias 18 e 21/10/2004, mais precisamente a nove dias do segundo turno das eleições". Em relação aos kits, "a máquina pública estava de tal forma comprometida com a campanha eleitoral, que não aguardou-se o início do ano letivo": a distribuição do "impressionante número de 43.199 kits de material escolar" foi feita logo. A leitura desse documento não deixa dúvida de que do ponto de vista da moralidade administrativa, este governo não vale o que para ele é a medida de todas as coisas: um real.
o globo

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