sexta-feira, julho 18, 2008

Eliane Cantanhede - Cordãozinho de ouro




Folha de S. Paulo
18/7/2008

O banqueiro Salvatore Cacciola chegou ontem ao Brasil saudável, otimista e com um forte espírito patriótico: "Eu confio na Justiça brasileira!".
Alguém precisava mesmo confiar. Não seria a família da irmã Dorothy Stang no Pará. Nem o pai da jornalista assassinada a sangue frio.
Nem os milhares que tiveram seus entes queridos mortos por bandidos que andam soltos por aí.
Muito menos seriam os que, como eu, tu, ele, nós (e não eles), vemos o desfilar de réus de colarinho branco por casas legislativas, cargos executivos e palanques eleitorais.
Então, alguém precisava confiar, e esse alguém é Cacciola, que ganhou um habeas corpus (HC), voou para a Itália e, se não desse a bobeira de curtir o nosso, ops!, o seu rico dinheirinho em Mônaco, não passaria pelo desconforto de ser devolvido em classe econômica (como destacou o Zé Simão).
E eis aí Cacciola, confiante na Justiça brasileira, com advogados a peso de ouro, uma fila de pedidos de HC e cheio de amor para dar ao país onde teve um banco e tratamento vip, do início ao fim. O primeiro pedido já foi atendido: nada de algema, um claro acessório de pobre.
Vamos ver, agora, a trabalheira do Supremo julgando os HC do Cacciola, do Daniel Dantas e sua turma, do Naji Nahas e seus doleiros, do Celso Pitta e seus padrinhos, aliás, ex-padrinhos. E comparar o resultado com a média. Como informa o repórter Felipe Seligman, o tribunal julgou no mérito 4.089 HC de janeiro de 2007 a junho de 2008 -negou 90%.
Por falar nisso, um juiz de Fortaleza acaba de recusar um HC para o ladrão que tentou, sem sucesso, roubar o cordão de ouro do ministro Gilmar Mendes. O preso, de 18 anos, sem antecedentes criminais e com residência fixa, deve ser mais perigoso para a sociedade do que Nahas, Pittas, Dantas e Cacciolas.
Além de bem mais baratinho. E o cordão não era um qualquer. Era o do presidente do Supremo, certo?

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