O GLOBO
O navio era brasileiro e se chamava “Progresso”.
Era quarta-feira, 12 de abril de 1843. A embarcação havia saído de Paranaguá, pegou sua carga em Quelimane, Moçambique, e estava voltando para o Rio de Janeiro, quando foi atacada por um navio inglês. Os brasileiros tentaram fugir, os britânicos levaram a melhor: tomaram o navio e prenderam a tripulação. O pastor protestante inglês Pascoe Grenfell Hill foi a bordo e relatou: no navio brasileiro, viajavam 447 negros que estavam sendo trazidos como escravos. Alguns tinham marcas no peito feitas com facas para serem reconhecidos pelos donos quando desembarcassem no Rio.
Alberto Costa e Silva, poeta e historiador, avisa logo na primeira frase do prefácio: “É terrível este livro.” Manolo Florentino também alerta para o que se lerá. Chama-se: “Cinqüenta dias a bordo de um navio negreiro”; é não mais que uma brochura da coleção “Baú de Histórias”, da Jose Olympio. Nele somos levados de volta a um passado de ignomínia que o relato direto e seco recupera e atualiza.
“A bandeira britânica que por algum tempo tremulava no nosso mastro, com alguma demora foi respondida pela bandeira brasileira verde e amarela”, conta ao descrever o começo da perseguição.
Era o nosso auriverde pendão, sem ainda os sinais da República, mas com as mesmas cores. E o que ele encobria é indescritível. Libertados pelos ingleses, os africanos festejam, enquanto são abertas as correntes às quais estavam presos aos pares, no convés e no porão. Do total, 231 eram meninos. Comemoraram com júbilo a libertação e a prisão dos seus algozes. “E quando eles viram a tripulação do barco empurrando sem cerimônia os prisioneiros para o bote ao lado que ia levá-los para a fragata, eles soltaram um grito longo e universal de triunfo e alegria.” A alegria deles durou pouco tempo. O leitor de hoje aprende no livro que as boas intenções não resistem aos fatos, quando a conjuntura vivida naquele mundo oitocentista era a mais espantosa das banalizações da violência.
Nos cinqüenta dias que se seguem, em direção à Cidade do Cabo, o pastor nos conduz por um mundo de horrores do que acontecia no navio, mesmo sob nova direção. A operação logística e gerencial de um navio negreiro era complexa.
Os ingleses despreparados não sabem como lidar com situações graves, como o racionamento de água e comida, controle dos desesperados passageiros daquele navio até chegar a um porto onde eles pudessem ser desembarcados sem o risco de serem novamente escravizados.
Eram libertadores e viram algozes também. Todos acabam prisioneiros da mesma lógica louca daquele tempo terrível, no qual o Brasil escolheu o pior lado. As 118 páginas do diário de Grenfell Hill na trágica viagem até a Cidade do Cabo — durante a qual morrem 163 escravos — são reveladoras.
O pastor esteve no Rio também e faz observações interessantes. Viu uma cidade quase inteiramente negra, na qual a música e a dança já eram a forma de atenuar o sofrimento: negros nas ruas, tocando e cantando enquanto trabalhavam “ao som de chacoalhantes substâncias dentro de uma bexiga”.
O passado imprime e explica o presente às vezes, como mostrou o historiador e ambientalista Warren Dean.
No seu livro famoso e definitivo, “A ferro e fogo”, Dean conta como o Brasil destruiu a Mata Atlântica. Nele se vêem os sinais antigos dos nossos vícios. O desprezo pelo meio ambiente é em tudo semelhante ao desprezo de hoje. A destruição da Mata Atlântica é irmã do desmatamento da Amazônia de agora. O livro é um relato aterrador dos vícios originais do Brasil. E erros.
Diante da exuberância da mata, incendiá-la; diante dos povos da terra, matá-los e escravizálos; diante das informações sobre a biodiversidade acumulada pelos locais, ignorá-las até se destruir as espécies sobre as quais se deveria aprender o valor.
“Ao longo da costa, de São Vicente a Cabo Frio, onda após onda de doenças devastaram os tupis; em 1600 estavam reduzidos a uns quatro ou cinco mil, um declínio assustador de 95% em um século. O assalto genocida aos povos tribais ampliarase por uma área muito maior, e ampla faixa de floresta havia sido deixada sem ocupantes humanos.” Um erro levou a outro erro, ensina Warren Dean, encontrando uma relação entre a escravidão e o desmatamento.
“Para a Mata Atlântica os perigos eram imensos porque uma sociedade baseada na mão-de-obra compulsória não levava em conta o meio ambiente.
Os plantadores de cana não viam na floresta nada a não ser um obstáculo à realização das suas ambições. A conservação dos recursos naturais iria mostrar-se irrelevante em uma sociedade na qual a conservação da vida humana era irrelevante.” Para que trazer de volta histórias tão trágicas? Porque um país é feito das escolhas que fez e das marcas que carrega. A escravidão é a pior das nossas marcas, atravessou 75% da nossa história conhecida; o desmatamento é uma obra ainda incompleta, mas incessante. Em dias como o de hoje, é preciso falar da pátria. Em outros 7 de setembro, falei de virtudes; hoje falo de tragédias e dilemas. O corajoso olhar para o passado é a melhor forma de construção do futuro.
Um passado terrível assim não se esquece; superase, mas apenas depois de entendê-lo e reconhecer suas marcas no presente.
Entrevista:O Estado inteligente
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