Entrevista:O Estado inteligente

domingo, setembro 10, 2006

Tudo é possível Merval Pereira

O GLOBO
Mais que a seu carisma pessoal, o presidente Lula deverá aos governistas do PMDB sua provável vitória no primeiro turno da eleição presidencial.

Se o ex-governador Garotinho não tivesse sido boicotado em suas pretensões de concorrer à Presidência, ou mesmo se um outro candidato como o senador Pedro Simon ou o governador Germano Rigotto tivesse sido lançado pela sigla, provavelmente hoje teríamos um segundo turno já configurado, restando saber apenas quem iria enfrentar Lula. Não é sem razão, portanto, que o PMDB, antes mesmo do resultado das urnas, já está sendo apontado pelo próprio Lula como o principal parceiro de um futuro governo.

Ao mesmo tempo, num movimento ousado mas que está sendo gestado há muito tempo, o virtual governador reeleito de Minas, Aécio Neves, deixou escapar pela primeira vez a possibilidade concreta de sair do PSDB.

Aécio, com a reeleição garantida com uma votação que se pressente espetacular, de mais de 70% dos votos válidos, deu mais um passo para firmar sua candidatura à Presidência em 2010. Sua disputa pela hegemonia do partido já havia sido desenhada em diversos pronunciamentos contra o domínio da seção paulista, que tenta definir o futuro da legenda com um manifesto do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. O namoro de Aécio com o PMDB já havia sido explicitado quando foi convidado para concorrer já nesta eleição à Presidência, no pressuposto de que seu nome uniria o partido.

Ao admitir que “tudo pode acontecer”, inclusive trocar de partido, Aécio deu apenas mais um passo na sua estratégia, que não se precipitará no primeiro ano do próximo mandato. A partir da reforma política que começará a ser negociada logo depois do resultado oficial da eleição, será possível ver com mais clareza o quadro partidário. Se forem mantidas as regras atuais, a cláusula de barreira tirará do jogo político uma penca de pequenos partidos.

PSB, PPS, PV, PCdoB tenderão a se agrupar em federações partidárias, caso essa figura esdrúxula ainda venha a ser aprovada depois do jogo jogado, o que seria uma excrescência, ou, mais provavelmente, se fundirão às siglas que estarão no jogo real do poder, que não passarão de meia-dúzia: certamente PMDB; PSDB; PFL; PT e mais dois ou três que as urnas abençoarão, entre eles o PDT, talvez o PP e quem sabe o PSOL. Mas, mesmo com Heloísa Helena na casa dos 10% dos votos para presidente, dificilmente o PSOL conseguirá eleger deputados em nove estados, fazendo 2% dos votos em cada um deles.

A maioria dos deputados que se elegerem por essas siglas preferirá aderir formalmente a um dos partidos grandes a permanecer em siglas que perderão o tempo de televisão, punição que inviabiliza a campanha eleitoral.

O PMDB deve sair das urnas, e dessa “pescaria” pós-eleitoral, com a maior bancada da Câmara, e provavelmente o partido com o maior número de governadores — talvez nove ao todo —, mas pode perder a maioria no Senado, onde a disputa será acirrada. Hoje o PMDB tem 20 senadores e pode perder dois ou três na eleição de outubro.

O PFL e o PSDB também devem eleger, cada um, cerca de 18 senadores. A bancada majoritária terá, assim, 19 senadores, e, como a coligação PSDB-PFL não deve se repetir a partir do próximo ano, um dos dois poderá presidir o Senado. A não ser que, até a posse e com o trunfo de ser governo com todo o poder, o PMDB coopte dois ou três senadores para garantir sua maioria.

Certamente o presidente Lula ajudará nessa tarefa, pois seu partido, o PT, deve ficar reduzido a dez senadores e não estará na disputa de poder. O PMDB terá, então, o domínio das duas Casas do Congresso.

Paralelamente, estarão em curso as negociações para a formação de um novo partido de centro-esquerda, que sempre é a tentação do presidente eleito, que necessita de maioria no Congresso para as reformas constitucionais.

Unir grupos do PT, PSDB e PMDB para formar uma grande sigla que lhe dê sustentação é o sonho do presidente Lula. Mas, jogando com a carta Aécio Neves, Lula insiste com o PMDB que se concentre nessa manobra estratégica, que poderia garantir ao partido uma posição privilegiada na reorganização partidária.

Ao mesmo tempo, a tentativa de Aécio será reunir em torno de si as lideranças regionais mais fortes do PSDB, como o governador Cassio Cunha Lima, da Paraíba; o senador Tasso Jereissati, do Ceará; e Marconi Perillo, de Goiás, para se imporem ao domínio paulista, que terá no governador eleito de São Paulo, José Serra, seu principal nome para a sucessão presidencial. O PSDB sairá das urnas, apesar da provável derrota de Alckmin, fortalecido pelas vitórias em Minas e em São Paulo, e deverá eleger mais outros três ou quarto governadores, além da segunda ou primeira bancada no Senado, o que lhe dará força política para disputar a Presidência em 2010, desde que se mostre unido.

Como em política nada acontece como se prevê com muita antecedência, será preciso esperar para ver como será o início do provável segundo mandato de Lula, que tipo de acordos pontuais ele tentará fazer, que futuro ele pensa construir para si próprio, ou o que o futuro político lhe reserva.

Nunca é demais lembrar que existem processos contra ex-integrantes do governo Lula em andamento no Supremo, cuja decisão deve sair em meio ao segundo mandato, com claras implicações políticas.

E também que, aos 60 anos, e considerando-se um enviado dos deuses, Lula é capaz de querer permanecer no poder por mais tempo ou, não sendo possível, voltar a ele mais adiante. Com o provável fim da reeleição, o mandato do presidente a partir de 2010 será de cinco anos. Como disse Aécio, “tudo pode acontecer”.

Arquivo do blog