O ensaísta holandês explica a origem
da hostilidade contra a cultura e as
instituições ocidentais
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Jerônimo Teixeira
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O escritor e jornalista Ian Buruma, de 55 anos, é um cosmopolita por nascimento e formação. Nasceu na Holanda, filho de pai holandês e mãe inglesa, passou a adolescência no Japão e hoje divide seu tempo entre Londres e Nova York. Profundo conhecedor da Ásia, ele tem explorado as diferenças entre Oriente e Ocidente – na tentativa de aproximá-los – em romances e ensaios. Aquele que é talvez seu livro mais provocativo acaba de ser lançado no Brasil pela editora Jorge Zahar. Ocidentalismo, escrito em parceria com o professor de filosofia da Universidade Hebraica de Jerusalém Avishai Margalit, é uma breve mas contundente história cultural do ódio que alimenta o terrorismo fundamentalista. O título foi inspirado na obra Orientalismo, do intelectual palestino Edward Said. Nela, Said criticava a visão colonialista que estudiosos ocidentais teriam criado sobre o Oriente. Buruma e Margalit devolvem na mesma moeda: os "ocidentalistas" alimentariam uma visão deformada e odiosa do Ocidente. Na entrevista a seguir, Buruma explica as razões desse ódio.
Veja – O que vem a ser "ocidentalismo"?
Buruma – É a hostilidade em relação a uma certa idéia de Ocidente, tão extremada que chega a desejar a sua destruição. O Ocidente, nesse caso, não é uma entidade geográfica, mas ideológica. Seria a conjunção de algumas coisas: a cidade metropolitana, o liberalismo político, o capitalismo, o comércio livre. Quando há um atentado a uma discoteca em Bali, por exemplo, isso é um ataque ao Ocidente, do mesmo modo que uma explosão no metrô de Londres. O exemplo mais claro de ocidentalismo hoje em dia é o fundamentalismo islâmico, mas não é o único.
Veja – O senhor não estaria atribuindo todas as virtudes – democracia, liberdade política etc. – unicamente ao Ocidente?
Buruma – Muitos países situados no Oriente têm as mesmas coisas – liberalismo, democracia etc. O problema que estou apontando é outro: nenhuma dessas instituições é tida como virtuosa pelos ocidentalistas. Eles desejam outro tipo de sociedade, que julgam mais pura. Uma sociedade com unidade racial ou espiritual e um Estado sagrado, obediente às leis religiosas. O nazismo, nesse sentido, é um bom exemplo de ocidentalismo. Para eles, o Ocidente era impuro, pois permitia a mistura de raças. Os fundamentalistas islâmicos de hoje desejam não a pureza racial, mas a pureza espiritual, um mundo em que todos obedeçam aos mesmos preceitos religiosos.
Veja – O anti-semitismo seria a principal corrente do ocidentalismo?
Buruma – Não é a principal, mas trata-se sem dúvida de uma das formas mais comuns de ocidentalismo. Aos olhos dos anti-semitas, os judeus sempre estiveram associados ao comércio, ao capitalismo, às cidades modernas, ao internacionalismo. Ou seja, eles seriam tudo o que os puristas detestam.
Veja – Por que hoje os países islâmicos do Oriente Médio são o terreno mais fértil para esse ódio ao Ocidente?
Buruma – O ocidentalismo no Oriente Médio tem raízes no fracasso da política secular. Em muitas partes do mundo árabe, houve ditaduras seculares e corruptas. Esses ditadores passaram a ser vistos como figuras que o Ocidente corrompeu. Na percepção geral, obedeciam aos rituais muçulmanos apenas como jogo de cena, quando na verdade o interesse deles estava em Paris ou Londres, onde tinham amantes e dirigiam carros esportivos. Os religiosos radicais que se rebelaram contra esses ditadores estavam, em primeiro lugar, contestando o poder em seu próprio país – mas viam a fonte da corrupção de seus líderes na decadência moral do Ocidente. O xá Reza Pahlevi, derrubado pelos aiatolás no Irã, é um exemplo disso.
Veja – No seu livro, o senhor observa que os ocidentalistas mais inflamados tiveram um contato extenso com o Ocidente. Por que então eles o odeiam tanto?
Buruma – É difícil dar uma resposta geral a essa pergunta, mas é um fenômeno quase universal: as pessoas que se voltam de forma violenta contra o Ocidente são aquelas que foram expostas à influência ocidental. É raro que elas sejam moradoras de vilas remotas, onde quase nunca se encontram produtos da civilização ocidental. São quase sempre pessoas que estudaram na Europa ou nos Estados Unidos – um dos casos mais evidentes é o do egípcio Mohamed Atta, um dos terroristas que derrubaram o World Trade Center. Podemos só especular sobre a razão psicológica desse fato. Talvez sejam pessoas que nutriram expectativas elevadas e ilusórias sobre seu próprio sucesso no Ocidente, mas acabaram sozinhas e isoladas em alguma metrópole. De volta a seu país de origem, levaram na bagagem o desprezo pelo mundo que as ignorou. Elas têm a sensação de que não foram aceitas e sentem-se humilhadas pela debilidade do poder de seu país de origem. Vale a pena fazer uma comparação com a juventude de Adolf Hitler. Ele foi para Viena como estudante de arte, provavelmente com grandes ilusões sobre a vida na cidade, mas se sentiu humilhado por não ter sido aceito na escola de artes, e tinha pouco dinheiro para moradia. Essa experiência acabou se traduzindo em uma percepção fantasiosa de Viena como um lugar corrompido pela influência judaica.
Veja – O ocidentalismo teria menos chances de propagação se as sociedades árabes não fossem tão pobres?
Buruma – A pobreza não ajuda, claro. Mas há locais muito mais pobres ao redor do mundo onde esse fenômeno não se verifica. Comparados com a maioria da África central e meridional ou com vastas porções da Índia, países como a Arábia Saudita e o Egito são relativamente prósperos. Não creio, portanto, que a pobreza esteja entre as causas principais. E vale notar que os líderes desses movimentos não costumam ser pobres. Geralmente, vêm das camadas privilegiadas e educadas.
Veja – Os países islâmicos podem se democratizar sem perder sua identidade?
Buruma – A Indonésia parece ir nessa direção. Ainda tem muitos problemas, mas a transição democrática está acontecendo. A Malásia não é uma democracia exemplar, mas tampouco é uma ditadura. A democracia turca também tem seus problemas, mas funciona. Os problemas maiores estão no mundo árabe. Até a Palestina tem algo que se assemelha a uma democracia. É claro que a vitória eleitoral do Hamas é uma ameaça, entretanto ainda é cedo para saber em que extensão. Não seria de estranhar que eles tentassem se apoderar do governo palestino e impedir eleições livres no futuro. Se isso de fato acontecer, a culpa não será do Corão. Sim, o Hamas é um partido islâmico, mas a ameaça não está aí. O problema maior é que se trata de um partido revolucionário. Não há nada inerente ao Islã que impeça a existência de um regime democrático.
Veja – Nem mesmo a dificuldade de separar Igreja e Estado?
Buruma – Não. Na prática, ao longo de grande parte da história da civilização islâmica, o clero e os sultões foram autoridades distintas. Hoje, na Indonésia e na Turquia, há separação entre Estado e Igreja. Portanto, isso não é uma impossibilidade no mundo muçulmano.
Veja – O que o Ocidente pode fazer para melhorar sua imagem no mundo árabe – ou, nos seus termos, para combater o ocidentalismo?
Buruma – Enquanto houver países ditatoriais, esses problemas estarão presentes no Oriente Médio. Quando esses regimes são seculares e oprimem a religião, a resposta naturalmente vem na forma de movimentos revolucionários religiosos. Não há muito que o Ocidente possa fazer a respeito, a não ser que se continue tentando o que os americanos fizeram no Iraque, o que, na minha opinião, só piorou as coisas.
Veja – Por que o senhor diz que a guerra do Iraque piorou a situação?
Buruma – Para os ocidentalistas, a invasão do Iraque foi ótima. Eles vêem a guerra como uma confirmação de sua visão de mundo. É muito fácil e conveniente interpretar o conflito como um ataque do Ocidente contra o mundo islâmico. Essa é uma das razões por que a invasão foi, desde o início, uma idéia estúpida. Espero que ela ainda termine bem, mas acho duvidoso.
Veja – Um Estado palestino poderia enfraquecer a causa ocidentalista?
Buruma – Depende do tipo de Estado. Se for governado por extremistas do Hamas, não há muita esperança de melhora. Mas um Estado democrático seria, sim, um entrave à ascensão do pensamento ocidentalista.
Veja – A palavra "ocidentalismo" foi inspirada no conceito de orientalismo, do intelectual palestino Edward Said. Alguns críticos de Said, porém, provavelmente diriam que ele mesmo era um ocidentalista.
Buruma – Não, ele não acreditava que o Ocidente era o mal e deveria ser destruído. O problema de seu livro Orientalismo é que ele se fixa em apenas um aspecto dos estudos sobre o Oriente conduzidos por ocidentais. Ele partiu da imagem fantasiosa do Oriente Médio que aparece na literatura francesa do século XIX e, com base nisso, extrapolou essa crítica para caracterizar todo e qualquer estudo oriental como um instrumento do colonialismo. É uma visão reducionista e estreita. Muitos orientalistas europeus do século XIX não eram favoráveis ao colonialismo – pelo contrário, eram opositores da política colonial. Apesar dessa distorção dos fatos, Said estava certo ao mostrar como determinadas visões orientalistas roubam aos povos do Oriente a sua humanidade. A palavra "ocidentalismo" não foi concebida para atacar Said, mas para expor o outro lado da moeda. Avishai Margalit e eu queremos mostrar que também existe uma visão desumanizadora do Ocidente.
Veja – Algumas características que o senhor atribui ao ocidentalismo – como a idéia de que as cidades modernas são lugares de corrupção e pecado – estão presentes também em algumas religiões ocidentais, em particular no fundamentalismo cristão americano. Essas religiões seriam também ocidentalistas?
Buruma – Não diria que essas religiões são em si ocidentalistas, mas alguns de seus membros mais proeminentes sem dúvida compartilham um certo rancor contra algumas liberdades ocidentais. Há pouco tempo li nos jornais sobre uma igreja no Kansas que era contrária aos funerais militares de soldados mortos no Iraque. Ao que parece, eles acreditam que a morte de americanos é uma punição pela postura tolerante que o país tem em relação aos homossexuais. Esse tipo de pessoa tem, sim, um pensamento muito próximo do ocidentalismo. A direita cristã americana, porém, não é anticapitalista, nem particularmente contrária à democracia – pelo contrário, participa ativamente das eleições.
Veja – O marxismo seria uma forma de ocidentalismo?
Buruma – Não. O marxismo é anticapitalista, mas não pretende destruir uma determinada noção do que seja o Ocidente. Seria muito problemático tentar abrigar todas as visões críticas do capitalismo sob a noção de ocidentalismo. O objetivo do conceito é muito específico: queremos isolar uma certa vertente criminosa de ataque ao Ocidente.
Veja – A China abandonou o ódio ao Ocidente dos tempos de Mao?
Buruma – Mesmo na época de Mao não havia um interesse real em destruir o Ocidente. E hoje a China está mais próxima das velhas ditaduras militares latino-americanas do que, digamos, do comunismo de Cuba. O modelo chinês é parecido com o do Chile dos tempos do general Pinochet: uma combinação de liberalismo econômico com autoritarismo político.
Veja – Esse modelo pode durar?
Buruma – Sim, desde que o crescimento econômico persista e as classes urbanas instruídas sintam que estão sendo beneficiadas pelo status quo. Resta saber o que aconteceria em uma crise econômica se a classe média deixasse de ficar mais rica. Estive na China há pouco mais de um ano e não senti nenhum clima de descontentamento entre a classe média urbana. Na zona rural, sim, existe insatisfação, porque a população se sente abandonada. Ainda há muitos fazendeiros pobres e trabalhadores que perderam o emprego em empresas estatais falidas. Nas cidades, o clima é outro. O governo percebeu que precisa manter sua classe média urbana contente, mesmo que negligenciando outras classes sociais, como os operários e as populações das vilas do interior. Afinal, foi a classe média que protestou na Praça da Paz Celestial.
Buruma – Não, de forma alguma. Em termos de civilização e instituições políticas, a América Latina está no mundo ocidental. É claro que existe uma civilização européia, com raízes no pensamento grego e na tradição judaica e cristã, e é evidente que a América do Sul tem sua própria história. Mas a influência européia é tal que a América do Sul ainda faz parte da civilização européia. O mesmo vale para os Estados Unidos. Essas divisões, na verdade, são arbitrárias. Não é possível traçar um limite claro entre Ocidente e Oriente.
