A polícia foi tomada de surpresa?
Houve acordo com os bandidos?
Um roteiro para tirar as dúvidas
Vamos recapitular, para ver se de uma vez por todas a coisa vos entra na cabeça. A polícia paulista soube, com a devida antecedência, graças a seus bem azeitados serviços de inteligência, que o famigerado PCC preparava um levante de grandes proporções no estado. Se alguém pensou que era mais esperto, e que iria surpreender as autoridades ao orquestrar a rebelião nos presídios, ao mesmo tempo em que comandos saíam às ruas atirando contra policiais e unidades da polícia – doce ingenuidade! –, enganou-se redondamente. Não houve surpresa alguma. Se a informação não foi passada às bases, isso se deve a razões que só não compreende quem não quer. A informação era tão preciosa que seria uma leviandade passá-la adiante. E se caísse em ouvidos indevidos? Hein, hein?!?! Das autoridades se espera que ajam com um mínimo de responsabilidade. Ademais, mesmo se não houvesse esse perigo, que se poderia fazer? Reforçar a segurança nos prédios públicos? Pôr mais polícia nas ruas? Ordenar revistas e bloqueios de trânsito? Ora, isso poderia causar nervosismo entre os profissionais de segurança e pânico na população.
Dois delegados da alta cúpula da polícia de São Paulo foram a Brasília para depor na CPI do Tráfico de Armas. Explicaram como os criminosos se articulam dentro dos presídios e o papel que nisso desempenha o telefone celular. Contaram que tinham informações de que os presos planejavam um levante e avisaram que no dia seguinte haveria transferência maciça dos mais perigosos para presídios de segurança máxima. A sessão era secreta, mas infelizmente o encarregado de fazer a obrigatória gravação dos trabalhos era um técnico de som que ganha mal. Assim que terminou, ele foi abordado por dois advogados, que lhe ofereceram 200 reais por uma cópia. Negócio fechado, a gravação chegou naquele dia mesmo aos chefes do PCC, em primeiro lugar ao chefão que atende pelo nome de Marcola, e de lá, pela vibrante rede dos celulares, a quem mais pudesse interessar. Os bandidos, ao contrário das autoridades, têm o mau hábito de levar adiante as informações que recebem. A polícia, enquanto isso, continuava em sua estratégia de fingir que nada fugia da normalidade – tanto que nem se cancelou a permissão para que milhares de presos passassem em casa o Dia das Mães.
Os presídios rebelam-se. Pipocam ataques a unidades e viaturas policiais, bem como a agências bancárias. Sucedem-se os assassinatos de policiais. Ônibus são queimados. Estima-se que nesses ataques tenha atuado, por ordem dos chefes presos, uma parte dos beneficiados pela folga do Dia das Mães. Nenhuma surpresa para a polícia, como já sabemos. "Nada deu errado", garantiu o governador ao Jornal Nacional. Dando seqüência a seu minucioso plano de ação, o governo envia uma advogada de presos para conversar com Marcola, a essa altura recolhido à solidão desolada da prisão de Presidente Bernardes, a mais de 500 quilômetros da capital. A advogada não vai sozinha: acompanham-na graduados representantes da Polícia Militar, da Polícia Civil e da Administração Penitenciária. Armou-se uma comissão de alto nível, e poderia ser diferente? Tinha de ser digna da personalidade a ser visitada. Nem se economizaram os meios: um avião da PM foi destacado para o transporte da comitiva. Em seguida à cúpula de Presidente Bernardes, cessaram as rebeliões nas prisões e os ataques nas ruas passaram a ser apenas esporádicos.
Houve acordo, puseram-se a denunciar os especuladores. O governador apressou-se em qualificar tal suposição de "ofensiva". Mesmo assim, insistiram: se não foi para negociar um acordo, para que então a embaixada junto ao Primeiro Mandatário do PCC? Essa questão não foi bem explicada, mas... precisava? Que custava, àquela altura, exibir bons modos e boa vontade? Só se espanta quem não reconhece o valor da cortesia entre os indivíduos e das boas relações diplomáticas entre as potências. A má vontade foi a ponto de apontarem uma suposta violação do regime carcerário pelas próprias autoridades, uma vez que o regime a que se condenou o preso o impedia de receber visitas. Ora, prender-se a questiúnculas formais numa altura dessas? Deixar-se paralisar por filigranas? Enxergar indício seguro de acordo no fato de as rebeliões terem cessado e os assaltos terem diminuído em seguida à reunião de Presidente Bernardes é, por outro lado, desprezar o valor das coincidências na vida, os felizes acasos para os quais a língua inglesa até inventou uma palavra, serendipity – bonito substantivo que nomeia o que acontece por mera sorte.
O mais é vida que segue, e aí se inclui o recuo do que resta de batalha a seu campo habitual, que são as periferias e as favelas. Tudo claro agora? Tudo compreendido em suas exatas dimensões e perfeita lógica? Se alguém insiste em não entender, é porque não entende o Brasil. Alguém não entende o Brasil? Por favor, alguém aí entende o Brasil? Pelo amor de Deus: alguém aí pode explicar o Brasil?