Documentos desmentem Dantas e derrubam
suas versões sobre o dossiê que passou a VEJA.
Mas ele ainda conversa com o governo
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Marcio Aith
Joedson Alves/AE![]() |
| Dantas: ele pagou quase 1 milhão de dólares aos espiões de contas |
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Em reportagem publicada na semana passada, VEJA informou ter recebido do banqueiro Daniel Dantas, do Opportunity, por meio de um ex-espião da agência de investigações Kroll, documentos com supostas contas, em paraísos fiscais, do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de ministros e ex-ministros de seu governo, do senador Romeu Tuma e do diretor da Polícia Federal, Paulo Lacerda. O simples fato de um cidadão com o histórico policial de Daniel Dantas deter uma lista com supostos segredos financeiros da cúpula do governo deveria causar uma reação enérgica do Estado contra o banqueiro. Estranhamente, Lula e seus principais ministros decidiram poupá-lo. Em vez de apurarem o conteúdo da mensagem, insurgiram-se contra o mensageiro.
Lula fez a VEJA o mais destemperado ataque verbal já desferido por um presidente contra um órgão de imprensa desde a redemocratização. Enquanto isso, e não por coincidência, Dantas admitia conhecer os documentos, mas negava, em entrevistas que deveriam ingressar no anedotário da ingenuidade jornalística, tê-los encomendado à Kroll e os entregado a VEJA. Não foi uma boa estratégia. Dantas ofereceu o material pessoalmente à revista e o entregou por intermédio de Frank Holder, ex-diretor da Kroll. A operação envolveu vários emissários de Dantas, o próprio banqueiro e deixou registros e gravações suficientes para ocupar várias edições de VEJA.
Os repórteres da revista empenharam-se em acompanhar os desdobramentos da crise causada pela primeira reportagem. Descobriram fatos igualmente graves. Ao mesmo tempo que VEJA era atacada pelo governo e por colunistas e editorialistas crédulos, loucos para acreditar em tudo que favoreça o governo, o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, reunia-se secretamente com Dantas. O encontro ocorreu em Brasília, na noite de quarta-feira 17. VEJA apurou que Dantas e Bastos celebraram uma trégua. O governo não colocaria a Polícia Federal na cola do banqueiro desde que Dantas e seu investigador fechassem a boca – e que o banqueiro segurasse seus sócios e cúmplices, caso eles viessem a ser convocados a depor na CPI dos Bingos. Quando sair a versão oficial do encontro, ela com toda a certeza será candidamente reproduzida sem contestação pelos crédulos, ingênuos e aqueles com interesses financeiros em agradar ao governo.
Rafael Neddermeyer/AE![]() |
| Thomaz Bastos: reunião secreta com o banqueiro "inimigo" |
O encontro entre Dantas e o ministro da Justiça é escandaloso. Dantas acusa o ministro Bastos de ter contas não declaradas no exterior. Se essa acusação é falsa, como sustenta o ministro, Bastos deveria esforçar-se para prender o banqueiro, e não se sentar à mesa com ele para tratar de negócios. Não é a primeira vez que o ministro é flagrado na casa errada. Há dois meses, VEJA revelou sua participação em reunião na qual o ex-ministro Antonio Palocci (Fazenda) tentou apagar as provas da quebra do sigilo do caseiro Francenildo Costa. Ele não perdeu o cargo naquela ocasião pela lassidão moral da política brasileira. É possível que a mesma lassidão o garanta no cargo novamente. O curioso é que, na noite de quarta-feira, enquanto Bastos se encontrava com o banqueiro investigado pela Polícia Federal, a própria Polícia Federal, de quem Bastos é superior hierárquico, deixava vazar que convocaria um editor executivo de VEJA e o colunista Diogo Mainardi para depor em Brasília. Ou seja, enquanto mandava a PF incomodar os mensageiros, o ministro negociava com o autor da mensagem.
VEJA também foi a campo entender melhor por que Bastos e outros ministros tratam Dantas com temor. Obteve nos Estados Unidos um documento precioso cujo original está em poder da Justiça americana: uma ata, escrita pela Kroll, resumindo uma conferência telefônica realizada em 10 de fevereiro de 2005 entre diretores da Kroll e o banqueiro e sua turma. Nela, Dantas faz revelações. Diz que o então ministro José Dirceu (Casa Civil) e o governo do PT como um todo comprometeram-se a defender os interesses do Opportunity. Para isso haveria uma condição: que eles não fossem investigados pela Kroll. Dantas descreve setores da Polícia Federal como corruptíveis e mercenários. Curiosidade: também participou da conferência telefônica o espião Holder, a quem Dantas agora alega mal conhecer.
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| O ex-ministro José Dirceu: apoio ao banqueiro para ver-se livre da espionagem da Kroll |
Confrontado com as entrevistas que Dantas concedeu a jornais nesta semana, o documento mostra que existem dois Dantas. Um, o verdadeiro, é o que anda nos porões. O outro, o de fachada, é aquele em que os jornalistas ingênuos acreditam. Este último esteve ativo em algumas entrevistas nas quais admitiu vagamente que conhecia a lista com supostas contas bancárias, que classificou como "inverossímeis". Não lhe foi perguntado em que circunstâncias Dantas soube desses papéis, por quem, quando e onde. Ele admitiu apenas que conhecia o espião Frank Holder, o compilador das listas, assim assim, como que de passagem.
Dantas aliou-se ao governo na tentativa de desmoralizar VEJA. É uma estratégia arriscada, considerando o volume de conversas gravadas e de outros registros feitos durante os nove meses em que a revista esteve em contato com o banqueiro e seus espiões. A estratégia começou a ruir graças a jornalistas de O Estado de S. Paulo, em franco contraste com um de seus editorialistas, o crédulo, o oficialesco, o assustadiço. Na segunda-feira passada, os jornalistas fizeram uma grave denúncia: o governo decidira atacar VEJA e poupar o banqueiro. A razão da escolha? Segundo o jornal, VEJA fora escolhida como alvo preferencial pois, na avaliação do governo, Dantas teria ainda muita munição. Pena que o jornal não tenha aprofundado a investigação suscitada pela reportagem em questão. Não houvesse perdido o rumo ético há um bom tempo, o governo Lula teria de ser confrontado com o absurdo moral de atacar uma publicação que fez o seu trabalho. Mas isso é, realisticamente, perda de tempo.
Na terça-feira, o mesmo jornal revelou que a Brasil Telecom, empresa que Dantas controlou, pagou, ao longo de 2005, centenas de milhares de dólares diretamente ao espião Holder – aquele que Dantas dissera mal conhecer e que, segundo ele, coleta informações inverossímeis. Na última sexta-feira, um documento publicado na revista Carta Capital comprovou que esses pagamentos totalizaram 838.000 dólares. A publicação foi além: lembrou que o senador Heráclito Fortes (PFL-PI), velho aliado de Dantas, fez várias alusões a contas bancárias no exterior durante o depoimento do ministro Luiz Gushiken à CPI dos Correios, no dia 14 de setembro passado: "Não era uma característica da Kroll, no mundo inteiro, fazer gravações telefônicas, como se queria provar e mostrar, mas, sim, rastreamento de contas e outras atividades", disse o senador ao ministro. "O medo da Kroll tem outro fundamento, senhor Gushiken, e a verdade vai chegar. É só questão de esperar, é só questão de tempo. Na verdade, o pavor que o governo tem da Kroll tem outro fundamento e nós vamos chegar à verdade."
Valeria Gonçalves/AE![]() |
| Mangabeira: contratado por Dantas. Para pensar |
VEJA divulgou apenas um dos 41 papéis que recebeu dos espiões de Dantas e, mesmo assim, tomou o cuidado de apagar o nome das instituições financeiras e os supostos números de contas. Muitos compararam o episódio à divulgação do Dossiê Cayman, a papelada falsa que, em 1998, tentava incriminar o então presidente Fernando Henrique Cardoso e os ministros José Serra e Sergio Motta e o governador de São Paulo, Mário Covas, como donos de uma empresa num banco das Antilhas. A comparação não se sustenta não só porque VEJA tomou o cuidado de apagar informações sensíveis, mas, principalmente, porque a revista apontou o nome do mandante do dossiê, o nome do fabricante do dossiê e chamou atenção para o uso dos papéis como instrumento de chantagem.
Outros criticaram a revista por publicar informações ainda não comprovadas, lembrando ser essencial, num jornalismo com pretensões éticas, confirmar as informações antes de publicá-las. VEJA concorda com a premissa, mas não aceita a crítica. Está confirmado e provado que foi o banqueiro Daniel Dantas quem pagou 838.000 dólares pelo dossiê; está confirmado e provado que o autor dos papéis é o ex-diretor da Kroll Frank Holder, um dos mais experientes e respeitados investigadores privados americanos; está confirmado e provado que Dantas usou o dossiê como elemento de chantagem. Vale lembrar que os nomes dos fabricantes do Dossiê Cayman – todos obscuros meliantes do submundo de Miami – só vieram à tona dois anos depois de sua divulgação. Além disso, as fontes que vazaram aqueles papéis falsificados permanecem incógnitas.
Joedson Alves/AE![]() |
| Procurador-geral: ilha de isenção |
VEJA não denunciou a existência de contas de petistas e outras autoridades em paraísos fiscais, ao contrário da versão comprada por jornalistas ingênuos nesta última semana. VEJA informou que um banqueiro poderoso tem em mãos e usa como instrumento para obter vantagens oficiais uma lista com supostos números de contas em paraísos fiscais do presidente da República e de autoridades brasileiras no exterior – isso é notícia. Foi essa a notícia que VEJA publicou. A revista deixou claro que não pôde comprovar a autenticidade dos papéis, que podem ser todos eles uma fraude. Mesmo assim, é custoso acreditar que o banqueiro tenha gasto tanto tempo e dinheiro na contratação e instrumentação dos melhores espiões internacionais e tenha saído da operação com um monte de documentos de fantasia. Fosse tudo fantasia, teria o ministro Márcio Thomaz Bastos se abalado a, arriscando o próprio cargo, encontrar-se secretamente com o banqueiro Dantas? Afinal, Dantas não é o inimigo da PF, o investigado pela polícia e que, segundo o governo, falsifica papéis para derrubar o próprio governo? Fosse tudo fantasia, o ex-ministro José Dirceu teria se curvado aos interesses de Dantas sob a ameaça do escrutínio da Kroll, como mostra a ata da teleconferência em poder da Justiça americana?
É tudo fantasia? Na esperança de que a apuração caminhe agora pelas vias oficiais, VEJA, na semana passada, entregou todos os 41 documentos de que dispunha ao procurador-geral da República – única autoridade com estofo ético e poderes para investigar o caso.
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Notícia é com ele
Roberto Setton ![]() |
O editor executivo Marcio Aith, de 38 anos, é um dos mais destacados jornalistas do país. Formado em direito pela USP, na Faculdade do Largo São Francisco, ele iniciou sua carreira na imprensa em 1990, na Gazeta Mercantil. Ex-correspondente da Folha de S.Paulo em Tóquio e Washington, ele estava à frente da editoria de economia do jornal em 2004, quando revelou que a empresa de investigações Kroll fora contratada pelo banqueiro Daniel Dantas para espionar adversários comerciais e integrantes do governo. Em VEJA, Aith vem desempenhando um papel fundamental na apuração dos escândalos do governo Lula. Foi ele quem desvendou as ligações perigosas do ministro Antonio Palocci com a turma de Ribeirão Preto e descobriu uma rede de sete contas secretas no exterior do publicitário Duda Mendonça, marqueteiro do PT. Agora, o nome de Aith volta a estar em evidência por causa da apuração exemplar que trouxe à tona o dossiê de Daniel Dantas contra autoridades brasileiras. De certa forma, trata-se de uma extensão das reportagens que ele fez sobre a Kroll na Folha de S.Paulo. Aith não larga o osso.
Fotos Ronaldo Peres/AP, Paulo Pinto/AE e Peter Adams/Corbis/Stock Photos ![]() |
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Em sua edição passada, na reportagem sobre o arsenal do banqueiro Daniel Dantas contra o governo, VEJA revelou que ele incluía supostas contas de autoridades brasileiras no exterior. Para ilustrar a matéria, a revista publicou a cópia de uma lista (à direita) enviada por ordem de Dantas a VEJA, que tomou o cuidado de apagar o número das supostas contas e o nome dos bancos. Ainda assim, o fato de tê-la publicado causou várias reações. Uma delas foi a afirmação de que a lista não provava nada. De fato não prova – nem VEJA pretendeu o contrário. Ao publicá-la, a revista quis tão-somente mostrar que tinha em seu poder papéis repassados por Dantas. Todos eles foram entregues ao procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza. Ao longo da semana passada, os repórteres da revista empenharam-se em acompanhar os desdobramentos da crise causada pela primeira reportagem. Neste quadro, o leitor encontra um resumo da apuração. 





