OESP
A roda do poder no Brasil entortou depois do massacre realizado pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), na semana passada, em São Paulo. Não há condições de consertá-la no curto prazo. E o motivo é: o primeiro eixo, o que dá sustentação à roda, rachou. Afastemos a metáfora. O Estado, provedor do bem comum, tem como dever moral proteger a sociedade. Com suas instituições, ocupa o degrau inicial na escadaria do poder. Por isso é conhecido como primeiro setor. A organização privada, que produz bens e serviços, ocupa posição logo abaixo, ganhando a designação de segundo setor. Organizada em núcleos, a comunidade cria grupos de referência, movimentos e entidades para representá-los. Este é o terceiro setor, formado por organizações não-governamentais, fenômeno que merece destaque na moldura brasileira. Fechando a roda, grupos e bandos se organizam fora da esfera do Estado, fixando-se na informalidade ou se abrigando no esconderijo da bandidagem. Formam o quarto setor e lutam para enguiçar o eixo central da roda. No Brasil a meta está sendo alcançada.
O mais organizado ataque ao poder público da nossa História contemporânea, coordenado pelo PCC, apesar do rastro de morte e destruição que deixou, a ponto de inserir o País nos primeiros lugares no ranking mundial da violência, não deve ser analisado sob a exclusiva ótica da criminalidade. Configura-se como vertente do paradigma do puro caos, sob o qual se explica a nascente civilização da barbárie, assim descrita por Samuel P. Huntington: quebra da lei e da ordem, Estados falidos, anarquia crescente, máfias transnacionais, cartéis de drogas, debilitamento geral da família, violência étnica, religiosa e discriminações de gêneros, convergindo tudo isso para o declínio na confiança e na solidariedade social nas nações. No caso do Brasil, a idade das trevas ressuscitada pelo PCC ocorre no meio de um ciclo de penumbra que obscurece o sistema político, dentro do qual se flagra a maior teia de corrupção dos tempos republicanos. O primeiro eixo da roda do poder se bifurca com o quarto eixo na encruzilhada da criminalidade.
Se parcela do primeiro setor - atores públicos - se sente motivada a sair pelas tabelas, derrapando pela ladeira da corrupção e da impunidade, os acantonados no quarto setor se sentirão no direito de ditar regras. Uma indagação fica no ar: os bandidos do PCC teriam força e motivação para o massacre que comandaram se o País não estivesse afogado numa crise moral? A escalada de agressões à lei e à ordem, a partir da elite política, contribui para a desarmonia dos conjuntos sociais. A degenerescência do poder central propicia o fortalecimento de poderes centrípetos, constituídos por bandos e gangues saídas das margens sociais.
Se o Estado fosse eficaz na gestão das emergências, o quarto eixo perderia força e a criminalidade seria desmontada. Na verdade, os exércitos informais se expandem quando o poder formal reflui. O poder do Estado brasileiro está na lona há muito tempo. Basta ler a pesada estatística de cerca de 150 mil pessoas que morrem todos os anos no País por causas violentas, nos dados apurados pelo pesquisador Luis Mir (Guerra Civil - Estado e Trauma). Mais de um terço, algo em torno de 55 mil, são assassinadas. Só o atendimento médico a esse contingente gera um gasto de R$ 19 bilhões.
Há outras maneiras de enxergar os danos causados pela guerra do PCC. A perda de referências simbólicas pela sociedade é uma delas. As pessoas nas ruas fogem da polícia, quando deveriam buscar nelas a proteção. De anjos protetores os policiais se tornam alvos demoníacos. O anseio de convivência social esmaece na sombra do terror. A desumanização, característica da civilização pós-industrial, se expande na esteira do medo e do colapso de confiança nos administradores públicos, nos tribunais e nos políticos. Alguém há de indagar: estamos falando de Brasil, terra da cordialidade e da generosidade? Isso mesmo. A morte planejada chegou, entre nós, para comemorar a vitória de criminosos leitores de livros de guerra, operando por celulares. A voz do Estado já não cria eco nos moucos ouvidos sociais. Ao fechar o expediente de trabalho mais cedo, iniciando a volta para casa logo no início da tarde, a população de São Paulo deu, na segunda-feira fatídica da semana passada, uma cabal demonstração de que é oceânica a distância que a separa do Estado. Escolas, comércio, bares, escritórios fecharam as portas sem dar ouvidos às autoridades que diziam controlar a guerra. A garantia do governador Claudio Lembo ("a situação está sob controle") entrou no limbo.
Uma hipótese, cujos traços são visíveis, tende a se consolidar. Refere-se ao refúgio que os cidadãos buscarão para se proteger. Fechar-se-ão em círculos familiares e correrão para núcleos que conservam certo prestígio, as entidades não-governamentais que acolhem opiniões e demandas, como sindicatos, associações, clubes, federações, grêmios e movimentos. A cena de sufoco exibe o cidadão comprimido entre a criminalidade de cima e o tiroteio debaixo. O arremate é um flagrante arrepiante: a sociedade ensanduichada. Um corpo e uma alma comprimidos por metástase que contamina a cabeça e os pés da Nação. Se o poder de cima não convence e o poder debaixo é que vence, a alternativa que resta aos cidadãos é dar uma banana para a democracia representativa. (A propósito, um dos líderes do PCC, de apelido Macarrão, garantiu a uma rádio que houve acordo entre eles e o governo de São Paulo para acabar a conflagração.) Pinça-se na ilustração do futuro o traço de uma democracia forjada no pânico. Grupos organizados elegerão bancadas para o Congresso. Inclusive o PCC, como, aliás, vem de ser divulgado. Quando isso ocorrer, um território chamado Brasil poderá deixar de ficar "deitado eternamente em berço esplêndido".
P. S. - O desabafo do governador Lembo de não ver a hora de encerrar o mandato e esperar o momento de ir para o cemitério (a pé) apenas confirma que a roda trincou.
Entrevista:O Estado inteligente
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