Entrevista:O Estado inteligente

domingo, maio 21, 2006

JOÃO UBALDO RIBEIRO Tristeza

OESP
Tristeza
João Ubaldo Ribeiro




Por acaso eu estava apalermado e desorientado, assistindo pela tevê ao que acontecia em São Paulo, quando um amigo paulista ligou.

- Meu Deus do céu, estou aqui apavorado, diante da tevê! - disse eu, antes que ele falasse qualquer coisa. - O que é que está havendo aí?

- O que você está assistindo.

- Sim, mas o que é isso, parece guerra, não é possível estar acontecendo uma coisa dessas em São Paulo.

- Claro que é, tanto assim que está acontecendo.

- E você, como é que está, a família, tudo bem?

- Está tudo bem, mas todo mundo tem a sensação de ser sobrevivente.

E eu também. Lá se mostrava, em imagens aterrorizantes, a maior cidade do País, a quarta cidade do mundo, a cidade mais poderosa do mais poderoso Estado do Brasil, razão de orgulho para todos nós, mistura fabulosa de gente vinda de toda parte, baluarte principal da nossa economia, maior em vários sentidos do que muitos países, lá estava a nossa São Paulo (espero que isto não seja lido com bairrismos irracionais, abobalhados e atrasados tanto por não-paulistas quanto paulistas) sendo metralhada, explodida, queimada e acuada. Mortes, mortes às dezenas, anunciadas quase como se anunciam os resultados de páreos num clube de jóquei ou os números de uma loteria. Os mortos, como sempre acontece nessas ocasiões, passam a ser números.

Só que os mortos não são números. São gente, com histórias, sonhos, vidas a viver. Têm filhos, têm pai e mãe, têm famílias que, muitas vezes, são irreparavelmente destruídas. É quase impossível folhear os jornais onde as fotos mostram a dor indescritível, intransferível, inelutável de quem se encontra de repente em meio a uma tragédia estonteante. E estava pensando nisso mesmo, quando vi o governador Lembo, que sempre apareceu perante as Câmaras com a postura e o tom de quem não estava enfrentando uma crise de proporções estarrecedoras e dava a impressão de que se tratava de alguém defendendo os brios de São Paulo num evento comparável à Revolução Constitucionalista, dizer que tudo estava "sob controle" e que "nada deu errado".

Tudo sob controle, com gente sendo assassinada a torto e a direito, a população sem transportes, as ruas desertas, as agências bancárias explodindo? Nada deu errado, nem mesmo as mortes? Foram todas "certas"? Será que querem impingir aos brasileiros (sim, porque aqui se trata, insisto, de todos os brasileiros, não somente os paulistas) que a situação em São Paulo, a ação do tráfico no Rio e a insegurança praticamente em todo o País são normais, indicam que tudo está sob controle (sob o controle dos bandidos pareceu estar, em algumas ocasiões) e que nada está dando errado?

Comenta-se que houve aspectos políticos na conduta das autoridades paulistas - que, aliás, negam ter negociado com os bandidos, mas parece negativa de depoente de CPI -, assim como no governo, em que pesem as solenes manifestações de ignorar politicagem e ver o interesse da sociedade acima de tudo. O governo paulista não quereria dar ao PT o argumento de que a ineficiência tucana na segurança pública de São Paulo havia tornado necessária a ajuda federal. E o PT, docemente constrangido, pode perfeitamente (e vai) explorar os acontecimentos em sua campanha. Enquanto isso, dane-se o povo de São Paulo.

Não vou discutir, embora tenha vontade, os argumentos e, principalmente, as afirmações do governador de São Paulo. Tampouco sei se os governos tucanos têm sido especialmente negligentes ou incompetentes na condução dos problemas de segurança da cidade e do Estado. Mas sei, como todo mundo, que o problema não é de São Paulo, é do Brasil todo. Tanto no caso de São Paulo como em todos os os outros, o responsável é o Estado. O governo, como se diz comumente, o governo em todos os seus níveis. A segurança é dever básico do Estado e o monopólio da violência tem que ser mantido pelo Estado. E o Estado, além de bravatear, fajutar estatísticas, anunciar medidas que nunca são tomadas, continua a ostentar o superávit primário mais lustroso do planeta, enquanto o povo das grandes cidades praticamente já se acostumou a um clima de guerra urbana, em que a autoridade é desmoralizada a tal ponto que, no Rio de Janeiro, só ingressa em certas áreas com a autorização dos chefes locais.

Só resta agora a gente ver algum alegre progressista sugerindo a institucionalização e reconhecimento do PCC e do CV como organizações legítimas e instâncias adequadas para a discussão dos problemas públicos. Como disse outras vezes, o fato de já ter vivido "neste país" 65 anos me autoriza a acreditar em qualquer coisa. E, portanto, não julgo de todo descartável a inclusão de representantes do PCC e do CV em órgãos colegiados não só do governo federal como dos estaduais e municipais. Acredito mesmo que as tendências mais modernosas podem apontar nesse sentido. Afinal, se não podemos vencê-los, juntemo-nos a eles. E, mais ainda, dirá o aludido progressista, o PCC e o CV são parte da sociedade em que vivemos e nela devem ser plenamente admitidos, revendo preconceitos e pré-noções que, se criticamente examinadas, se revelarão obsoletas - chega de exclusão.

Sim, e chega de descalabro também, chega de desgoverno, chega de esculhambação, chega de humilhar cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, chega de nos humilhar coletivamente, chega de furtar nossos impostos, chega de nos tratar como gado manso. Mas imagino que não posso sair dizendo isto por aí, deve ser desacato à autoridade e subversão.

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