"Serra tem 63% dos votos para
governador e, quando o estado entra
em convulsão, cadê Serra? Cadê?"
Em julho do ano passado, quando quatro explosões terroristas deixaram 56 mortos em Londres, Tony Blair interrompeu uma reunião do G8 na Escócia e voltou imediatamente à capital inglesa, onde fez um pronunciamento solidarizando-se com os familiares das vítimas. A rainha visitou o Royal London Hospital, onde alguns dos 700 feridos estavam internados. Em Madri, os atentados terroristas de março de 2004 deixaram 191 mortos, houve exploração política indecente do episódio, mas ainda assim as autoridades não perderam a noção de solidariedade: o governo decretou três dias de luto e o rei falou ao país agradecendo aos que ajudaram a socorrer as vítimas. Em São Paulo, uma dramática onda de atentados do crime organizado resulta em mais de 150 mortos – e o que fazem nossos governantes? Escondem-se.
O presidente Lula passou o domingo da conflagração no recesso do lar em São Bernardo, quietinho. Não fez um pronunciamento ao país, ou aos paulistas, para demonstrar coesão e firmeza, para tranqüilizar a cidade e o estado onde construiu sua vida sindical e política. Os tucanos fizeram ainda pior. O ex-governador Geraldo Alckmin, que passou os últimos doze anos no governo paulista, tentou de tudo para distanciar-se da tragédia. Não apareceu ao lado do sucessor, Cláudio Lembo, para transmitir unidade, coragem, altivez. Não deu uma coletiva para solidarizar-se com os paulistas, não lançou uma nota de repúdio ao crime e de conforto aos familiares das vítimas. Aparecer no enterro de um policial assassinado para dar condolências aos familiares, num ato de civilidade e respeito? Nem pensar. Alckmin passou a semana esgueirando-se pelas bordas da tragédia. Na segunda-feira, o condomínio do seu escritório político em São Paulo fechou às 4h30 da tarde por causa da violência. Alckmin estava no escritório, escondidinho.
E o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que já foi candidato a prefeito de São Paulo, fez sua carreira política e acadêmica em São Paulo, ganhou duas eleições presidenciais em São Paulo, o que fez? Estava em Nova York, onde deu uma entrevista sem sinal de indignação, luto ou solidariedade – e sentou-se à mesa com outros dois tucanos emplumados, Aécio Neves e Tasso Jereissati, que estavam de passagem por Nova York. Para quê? "Para jogar conversa fora", explicou o ex-presidente.
Ninguém fez pior do que José Serra, que acaba de deixar o comando da prefeitura paulistana para concorrer ao governo de São Paulo. Serra tem 63% das intenções de voto para governador, está virtualmente eleito e, quando o estado que deseja governar entra em convulsão, cadê Serra? Cadê? Viajou para Nova York? Foi passar uma semana com o filho na Itália? Sua assessoria informa que ele foi mesmo para Nova York, descansar. Pois, de seu descanso, Serra não deu uma única palavra de conforto aos paulistas, nem fez um único gesto de solidariedade. Nada. Sumiu do mapa e dos holofotes. Lembo, o governador, diz que Serra não lhe deu sequer um telefonema...
Pois é. Nossas autoridades, com medo de ser responsabilizadas pelo triunfo da barbárie e perder uns votinhos, tiveram um comportamento que não se pode chamar de mesquinho. É covarde mesmo.