Entrevista:O Estado inteligente

domingo, maio 21, 2006

Lembo: "Eventualmente, pode haver inocentes mortos"

oesp

     "Eventualmente, pode haver inocentes mortos"
Uma semana depois do auge da crise, o governador Cláudio Lembo avalia os estragos políticos da guerra

Angélica Santa Cruz

Na manhã de ontem, uma semana após o início da tragédia sem precedentes que abalou São Paulo, o governador Cláudio Lembo comemorava o fim da convulsão, mas se preparava para a segunda etapa da crise: contabilizar o saldo final deixado pela guerra. O mais dramático deles, o número de mortos. Em entrevista ao Estado, ele reafirmou que o trabalho da polícia seguiu os "parâmetros da legalidade", mas admitiu que eventualmente podem haver inocentes entre as vítimas.

O senhor está preocupado com as denúncias de que pode haver execuções e inocentes entre os mortos?

Eu espero que não tenha inocentes mortos. Mas em um momento tão difícil para a Polícia Militar, com todos os confrontos que aconteceram, eventualmente pode ter alguém inocente. É a tragédia humana. Estou lidando com os fatos colhidos no inquérito policial e, pelo que soube até agora, não há. Mas, claro, há essa preocupação. Não só se houve inocentes, o que é profundamente grave. Mas também em relação aos que morreram, policiais e criminosos. Sou governador de todos os brasileiros de São Paulo. Todos os paulistas, inclusive esses eventuais bandidos que morreram. Tenho muita tristeza por isso. Claro que a tristeza tem graus - e a maior é em relação aos policiais.

Por que o governo afirma que não vai divulgar a lista de mortos?

Não há por que publicar a lista. Se a lista for publicada, as famílias dos mortos terão um reflexo na sua integridade moral. Estamos preservando os direitos humanos das famílias. Cada morto terá seu inquérito policial específico, seu registro de óbito no cartório civil, não é preciso que a cidadania saiba o nome dos mortos em lista. Isso não foi guerra. Foi um momento social trágico. Portanto, nós não vamos jogar sal na casa das famílias das vítimas. Não vamos torná-los degredados. Eles são nossos irmãos brasileiros. Os inquéritos estarão à disposição da imprensa, do Ministério Público, do poder judiciário, das entidades nacionais e internacionais. Porém, lista não! Não vamos marcar a família de ninguém, está claro.

As famílias estão tendo acesso às circunstâncias exatas das mortes?

Claro que sim. Os corpos são entregues às famílias, junto com o registro. Estamos dando todo o apoio, para que eles sejam enterrados. Mas dar nomes aos mortos, não estamos fazendo. Os filhos, as esposas e companheiras deles não vão ser agredidos não. São os direitos humanos que estão sendo preservados. Essas entidades que estão falando em lista estão fazendo um grande desserviço aos direitos humanos. Não vamos esconder nada, mas não vamos é divulgar uma listona dizendo "esses são os bandidos". E os filhos deles? E as mães?

Passada a crise, ficou o debate sobre os caminhos da Segurança Pública no Estado. Uma das críticas é que o secretário de Administração Penitenciária, Nagashi Furukawa, negociou demais com a facção criminosa PCC...

Negociado não, porque essa palavra tem dupla conotação nesse caso em que há o episódio da crise em si e o retardado, o que havia antes dela. São Paulo nunca negociou com o crime. O que pode ter tido é alguma fragilização no tratamento do criminoso, até pela preservação excessiva daquilo que, entre aspas, alguns chamam de direitos humanos. Aí temos que analisar: tudo o que foi concedido aos presos nesse longo período dentro dos presídios, foi bom ou foi mal? Precisamos examinar com tranqüilidade, mantendo a dignidade do presidiário, mas mantendo a da sociedade. Os meios de comunicação falaram de televisões, visitas íntimas, cor de uniforme. Eu vou examinar isso tudo a partir de segunda-feira. Vamos agora ver o que aconteceu nos presídios, com equilíbrio, bom senso, serenidade. Vou até voltar a ser o Claudio Lembo de antes (risos). O secretariado, todo ele, foi excepcional na crise. Não vi nenhum secretário falar uma tolice sequer. E os dois secretários dos quais você quer falar, o Saulo e o Nagashi, foram muito bem na crise. Sendo que o Saulo foi excepcional.

Vai haver mudanças no secretariado?

Não vai, não! É uma ingenuidade brasileira esse negócio de tem que haver, tem que mudar. É na crise que a gente testa os homens. Eles foram testados e se saíram bem.

O senhor não está conversando com o o senador Romeu Tuma?

Todos os dias. O senador Tuma é um amigo particular que eu estimo, respeito, fizemos campanhas eleitorais juntos. É um grande conselheiro. Mas nunca disse a ele que seria nesse instante secretário de qualquer pasta de São Paulo, e nem ele quer. No passado, quando da transmissão do cargo, de Geraldo Alckmin para mim, chegamos a dialogar sobre ele ser secretário. Chegamos à conclusão de que seria muito importante manter a estrutura policial de São Paulo, o secretariado atual. Mas o ex-governador não teve participação na formação do secretariado. Foi muito elegante.

É verdade que há muitas diferenças de estilo entre Saulo Abreu e Nagashi Furukawa?

Tem, e é muito grande. Um tem uma visão concretista do mundo e o outro tem uma visão com traços românticos. Mas são apenas visões do mundo. Romântico é o Nagashi, Saulo é realista. Mas eu respeito as duas. É bom que eles tenham visões diferentes.

E se Nagashi Furukawa entender isso como uma crítica?

Não é crítica, é uma análise. As pessoas também analisam o meu estilo de governo.

Onde o senhor acha que pode ter errado e acertado?

Olha, sem qualquer empáfia, acho que errei muito pouco. Talvez, na comunicação, ou em um ou outro momento mais difícil não utilizei bem as palavras ao me expor. E acertei em dar dignidade, respeito à Polícia Militar, Civil e Científica de São Paulo. Quando falei que São Paulo tem uma polícia capaz de acertar essa crise, acertei. O uso do Exército naquele momento era um instrumento político contra São Paulo, não partidário, mas contra São Paulo. Preservei a autonomia de São Paulo.

O que está acontecendo, afinal, entre o senhor e o PSDB?

Todas as lideranças do PSDB de São Paulo foram muito solidárias, estiveram aqui no gabinete, dialogando, analisando as situações. Quanto ao governador Geraldo Alckmin, que está em campanha por todo o Brasil, certamente teve dificuldades de conexão. Ligou duas vezes e estou muito satisfeito com isso. E mais, ele não ter ligado mais demonstra que ele tem confiança em mim, me respeitou. Não sou tutelado por ninguém e ele entendeu isso. Quero fazer um grande elogio a ele. Ele não ter telefonado mais ou menos, não ter comparecido ao palácio é porque sabe que tenho autonomia, sou presidencialista, sempre defendi a autonomia e respondo pelos meus atos

Mas, governador, então a gente pode escrever assim: "Lembo está agora amenizando as críticas que fez?" É verdade que o PFL está tentando acalmar o senhor?

Não estou amenizando nada! Estou sendo realista. Quanto ao meu partido, não procurou me censurar e nem o fará, porque tenho consciência de minha autonomia. O seu jornal publicou isso. Li com muito cuidado para entender o estilo de quem diz e percebi que é mais o estilo de certos assessores, um release da expressão da vontade dos dirigentes do PFL. Portanto, não recebo aquilo nem sequer como crítica, muito menos como censura, porque não aceito censura de ninguém, particularmente a partidária.

Geraldo Alckmin se queixou das suas críticas?

Quando falamos por telefone (na tarde de sexta-feira), ele estava tranqüilo, com bom senso. Se ficou magoado, as mágoas passam.

Esse episódio todo vai prejudicar a campanha dele?

Eu digo que não prejudica coisa nenhuma. A sociedade vai ter consciência de que essa situação é de todos nós, e Alckmin tinha uma boa polícia e 147 presídios construídos para desafiar o crime em São Paulo. Essas desordens aconteceram em Los Angeles, nos Estados Unidos, na França, com uma greve enorme ou pessoas destruindo a periferia de Paris, na África do Sul quando da integração de suas etnias, na Alemanha, nas Olimpíadas de Munique. Problema de segurança pública é muito difícil - e problemas sociais de agressão também. Em todos os países do Primeiro Mundo acontece isso. Em São Paulo, que é Primeiro Mundo mas tem bolsões de miséria, também. Quando eu assumi, eu disse que era preciso tomar conta das ONGs no interior dos presídios. Fui agredido, porque era contra os direitos humanos. Depois eu disse : "Os advogados estão se portando mal". Fui agredido pela OAB. Depois disse: "Certos setores estão trabalhando mal". Fui agredido por algumas igrejas. Alertei a sociedade e sabia o que estava fazendo, o que aconteceu não foi nada novo. Eu ia pôr ordem na casa, não deu tempo.

Como foram os momentos da administração da crise?

Solitários. Fui um homem solitário. Os secretários da área de segurança, meus assessores, alguns jovens que vieram aqui. O resto foi solidão. Mas isso não é uma queixa, não! É uma constatação apenas. Mas sozinho não é acuado. As pessoas conheceram um Cláudio Lembo que foi secretário de Justiça de São Paulo, mas não viram a minha vida quando fui candidato, com momentos difíceis também. Fui candidato a vice-presidente da República pelo PFL junto com Aureliano Chaves e fui traído por todo o partido. Todo o partido se calou, salvo o senador Marco Maciel (PFL-PE). É uma história de traição notável dentro do PFL. Eu nunca disse isso. Mas registrei e sei como é o jogo político-partidário. Eles pensaram que eu ia me calar? Não, há momentos em que se está no topo, no vértice do governo, e é preciso ser claro e nítido.

Amanhã o senhor terá encontro com as lideranças do PFL. Vai ser um encontro difícil?

Tenho convicção de que será um encontro cordial.

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