Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, maio 19, 2006

Keynes, nos ajude de novo LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS

folha



Passei a última semana em Londres a trabalho. Visitei vários fundos de investimentos com interesse no Brasil e fiz uma palestra na London School of Economics. Andei pela cidade, revi lugares que conheci, em passado já distante, e lembrei-me de lorde Keynes. Seus ensinamentos foram elementos-chave na construção do economista que escreve esta coluna. Sempre que reflito sobre a situação brasileira, é ao seu pensamento articulado e à sua forma de entender os fenômenos da economia que recorro.
Enquanto passeava pelo Hyde Park, lembrei-me do debate entre Keynes e Churchill sobre a revalorização da libra, em 1925. No fim da Primeira Guerra Mundial, a moeda inglesa, que ocupava o lugar do dólar como a divisa internacional daquela época, tinha perdido metade do seu valor. Os detentores de títulos em libra tiveram o valor de seu capital reduzido pela metade. Os interesses financeiros clamavam por uma volta à paridade cambial de antes da guerra. Sem isso, alertavam, Londres perderia o posto de capital financeira do mundo, e a Inglaterra, uma fonte importante de negócios e rendas.
Churchill, que era o ministro das Finanças à época, mostrava-se decidido a seguir esse caminho. Nesse momento, Keynes entrou no debate econômico como opositor à lógica financista. Com um raciocínio claro, mostrou os efeitos da valorização da libra sobre a indústria inglesa e o equilíbrio no mercado de trabalho. A decisão de retornar a paridade anterior criaria uma recessão econômica muito forte, com exportações menores e as importações em alta. E o desemprego cresceria como resultado.
Colocado de uma forma mais cáustica, o que se verificava era um conflito de interesses do setor financeiro e dos setores produtivos e de grande parcela dos trabalhadores. E era esse o ponto que Keynes mais vigorosamente citava em seus artigos. A história é conhecida. Churchill venceu o debate, a libra foi valorizada e a economia inglesa entrou em uma profunda e longa recessão econômica, como previra Keynes.
Nesta altura, o leitor da Folha deve estar se perguntando aonde quero chegar ao relembrar esse embate de idéias ocorrido há 80 anos. Respondo a essa questão. Vivemos hoje um conflito semelhante entre os valores do mundo financeiro e os do chamado lado real da economia. Converse com alguém ligado ao primeiro e terá uma visão extremamente otimista de nossa economia; visite uma zona rural ou as associações ligadas à indústria brasileira e o quadro muda de cor, de rosa para negro. Olhada a economia brasileira pelo lado da solvência, principalmente a externa, realmente vivemos dias de muita segurança e glória. Afinal, em poucos anos poderemos ser um país sem dívida externa. O Banco Central acumula reservas de uma forma extraordinária e, ainda, recompra títulos de nossa dívida externa no mercado, reduzindo, com isso, os riscos de uma crise externa, como ocorreu com freqüência no passado. Mas o outro lado dessa equação, isto é, o custo da acumulação de reservas em um ambiente de juros reais de 10% ao ano, é uma ameaça real para a atividade econômica.
Segundo um diretor do BC, que também estava em Londres na semana passada, esse seria o preço do seguro da normalidade econômica. Esquece ele de dizer que esse custo pode chegar a níveis insustentáveis no Orçamento fiscal da União. Com isso, o governo será obrigado a cortar ainda mais investimentos, inclusive nas estatais, ou aumentar impostos para manter a promessa de um superávit primário de 4,25%. Por outro lado, o conservadorismo da política monetária em um quadro de desleixo fiscal limita o nosso crescimento econômico neste momento de quase euforia no mundo. As comparações neste primeiro trimestre mostram isso de maneira muito clara. A combinação de juros altos e crescimento econômico baixo continua contribuindo para uma perigosa valorização cambial, que, em algum momento, cobrará sua fatura.
O debate que está esquentando sobre o conflito entre a bonança financeira e o crescimento econômico pouco vigoroso é que me fez lembrar do meu velho mestre. Mas como Keynes, temo que nosso lado saia perdedor nesse embate.


Luiz Carlos Mendonça de Barros, 63, engenheiro e economista, é economista-chefe da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações (governo FHC).
E-mail - lcmb2@terra.com.br

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