Entrevista:O Estado inteligente

sexta-feira, maio 19, 2006

ISOLADO, LEMBO DESABAFA


editorial da folha
A excepcionalidade da crise na segurança pública de São Paulo é tamanha que gerou um desabafo -pelo tom, pelas palavras e pelos alvos escolhidos- raríssimo em política. Em entrevista a Mônica Bergamo, publicada ontem nesta Folha, o governador Cláudio Lembo (PFL) ataca aliados, elogia adversários e identifica no comportamento "cínico" da "minoria branca brasileira" a causa estrutural do problema.
Um leitor que não conhecesse as origens políticas e a filiação ideológica de Lembo, deparando com a entrevista na certa classificaria de "esquerdista" a sua retórica. "Nossa burguesia devia é ficar quietinha e pensar muito no que ela fez para este país" e "a bolsa da burguesia vai ter de ser aberta para poder sustentar a miséria brasileira" são duas de suas frases que seriam ovacionadas caso ditas no Fórum Social Mundial.
Por mais que se possam discutir as premissas do lamento sociológico de Lembo, o fato é que o discurso passa ao largo das responsabilidades imediatas que lhe cabem como chefe das forças de segurança do Estado, logo após terem sofrido ataque sem precedentes do banditismo. Já na segunda parte da entrevista, o alvo da crítica do governador transita do genérico ao específico: os tucanos, sem excluir o ex-governador e pré-candidato ao Planalto Geraldo Alckmin.
Nos dias de crise, figuras ilustres do PSDB promoveram um sutil "desembarque" da gestão Lembo. Alckmin e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso criticaram ações do governador: FHC, por ter negociado com o PCC o fim de rebeliões, o que Lembo nega; Alckmin, por ter rejeitado ajuda de tropas federais -o Datafolha mostrou que essa recusa do governador pefelista foi considerada um erro pela maioria dos paulistanos. O leitor fica sabendo na entrevista que nem FHC nem o ex-prefeito José Serra, pré-candidato à sucessão estadual, telefonaram a Lembo na fase aguda da ação criminosa.
A entrevista pode ser lida como o desabafo de alguém que, em plena crise, se viu isolado por companheiros que lhe prestavam solidariedade até a véspera dos acontecimentos. Se Lembo está errado ao demonstrar grande fragilidade como homem público no momento em que os paulistas mais precisam de um governo forte e coeso, está certo ao chamar os tucanos à sua responsabilidade. Afinal, a selvageria em São Paulo é o atestado de que sucessivas gestões do PSDB no Estado, incluindo a de Alckmin, fracassaram na tarefa de debelar o PCC.

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