Entrevista:O Estado inteligente

domingo, maio 21, 2006

DORA KRAMER 'Alckmin está na zona de risco'

OESP

'Alckmin está na zona de risco'

Dora Kramer

Se o Brasil fosse um país politicamente organizado e previsível, o prefeito do Rio de Janeiro, César Maia (PFL), diria que Geraldo Alckmin não está errado em deixar para começar de fato a campanha à Presidência da República em agosto, depois da Copa do Mundo, no horário eleitoral gratuito de rádio e televisão.

Como não há organização nem previsibilidade no cenário político, ele considera que o PSDB está perdendo um tempo precioso no início do "desmonte" da candidatura do presidente Luiz Inácio da Silva e na montagem de Alckmin como alternativa ao eleitorado contrário à reeleição.

Os tucanos, na opinião do prefeito do Rio, nesta altura já deveriam ter um diagnóstico dos pontos fortes e fracos do candidato, das limitações a serem ressaltadas no adversário, uma agenda de fatos a criar ou a explorar e principalmente um plano de ação senão em andamento, pelo menos em preparação.

No lugar disso, o que César Maia enxerga, na perspectiva de um observador atento de "mais de 90 campanhas" no Brasil e no mundo, é paralisia, arrogância - "já viu o tamanho do salto que eles usam?" - e "fricção" interna de posições. "Alckmin tem esquema dele, Tasso Jereissati o dele e as duas equipes não se entendem."

Resultado, ninguém sabe realmente o que fazer. "Não há estratégia." E, se há, diz, ninguém no PFL, o partido do candidato a vice, foi informado a respeito.

"Na Europa haveria tempo de sobra, nos Estados Unidos, onde tudo é feito com antecedência e muita técnica, a candidatura estaria liquidada. Aqui, estamos num meio termo, mas já entrando na zona de perigo. A campanha está atrasada, há excesso de confiança na decepção do eleitorado com Lula e carência de ação", diz.

Para o prefeito, o PSDB precisa acordar, sair da letárgica soberba dos que se pressupõem destinados a recuperar o poder pela força da inércia e começar a despertar as emoções do eleitor. Está faltando paixão, negativa e positiva.

"Se entrar no mês de junho com a mesma concepção de que Lula perderá a eleição para ele mesmo, que tudo se resolverá no horário eleitoral e que basta fazer um debate de propostas de governo para ganhar a eleição, o PSDB pode ter uma surpresa desagradável."

Publicidade eleitoral e marketing político, na concepção do prefeito, não resolvem. "Nunca vi marqueteiro ganhar eleição, mas já vi perder. Quem faz a campanha é o desempenho do candidato sustentado por uma estrutura muito bem organizada e executada."

César Maia critica a falta de senso de Geraldo Alckmin para aproveitar as oportunidades eleitorais. Seja no aproveitamento de uma cena para uma boa foto, seja na palavra firme e assertiva no momento exato. Ele lembra que quando estava disputando com José Serra a indicação do PSDB, Alckmin "fez o discurso certo para o público interno e para os segmentos que lhe dariam apoio, como a burguesia paulista".

Uma vez indicado candidato, recolheu-se. "Ele fez como o jogador de xadrez que dá um lance, não prevê os próximos e leva um xeque-mate do adversário." Se se mantiver na posição de mover suas peças só em agosto, o prefeito vê o risco de o candidato ser "emparedado" por Lula.

César Maia lembra que não se pode subestimar o poder de fogo de um candidato à reeleição com a prerrogativa de concorrer no cargo. "De 1998 para cá, 92% dos prefeitos, governadores e presidente candidatos à reeleição chegaram a segundo turno e 85% deles ganharam." A estatística não é determinante, mas também não pode ser desprezada, aponta.

"A maioria é conservadora. Mesmo quando está insatisfeita, se não vê alternativa viável e segura, tende a preferir manter as coisas como estão. Até por medo de mudar ou de errar feio na escolha."

O prefeito acha surpreendente que o PSDB não tenha definido ainda quais os valores a serem defendidos pelo candidato a presidente, a fim de permitir ao eleitor fazer uma nítida contraposição entre os principais adversários.

Considera inadmissível a campanha não dispor de pesquisas detalhadas sobre como atingir o presidente que, segundo o pefelista, também não está com a vida ganha. "O segundo turno é inevitável e Lula muito vulnerável; é preciso descobrir que adjetivos negativos fariam uma boa tradução de seus piores momentos."

Mas o "desmonte" da figura do oponente não basta. "É preciso que Alckmin seja visto pelas pessoas como o receptor natural dessa insatisfação", como "uma esponja pronta para absorver a água que escorre da candidatura do outro", compara. Eleitores dispostos a fazer essa transposição há milhões, diz o prefeito, "isso não falta".

Por enquanto, acredita o prefeito César Maia, falta mesmo é Geraldo Alckmin fazer algo mais que se apresentar como um bom sujeito, uma pessoa correta, e ir à luta tratando de suprir a ausência de "luminosidade" natural por um esforço estratégico, organizado e científico para comunicar suas virtudes ao eleitorado. "Quem não tem carisma como dom, precisa desenvolvê-lo e Alckmin até agora não desenvolveu."

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