| primeira leitura |
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| Abro a Folha desta quinta e encontro lá, na seção Tendências e Debates, um artigo que vale por um abaixo-assinado. Seu título: "Civilização, sim; barbárie, não" ( clique aqui para ler). É assinado por nada menos de dez (!) pessoas: Antonio Visconti, Celso Antônio Bandeira de Mello, Fábio Konder Comparato, Goffredo Telles Júnior, Hermann Assis Baeta, João Luiz Duboc Pinaud, José Osorio de Azevedo Júnior, Maria Eugênia R. Da Silva Telles, Plínio de Arruda Sampaio e Weida Zancaner. Há várias coisas que me incomodaram no texto, da iniciativa ao conteúdo. Os signatários têm um comum o fato de serem advogados — ao menos formados em direito — e gozar da reputação ou de especialistas na área ou de lideranças com voz política. São os aiatolás do direito se comportando como o Conselho da Revolução Islâmica: vão lutar bravamente para que nada mude na legislação brasileira, embora a sociedade demonstre óbvia aspiração por mudanças. O artigo deixa claro que vão pressionar para que tudo fique como está. É o espírito que anima o abaixo-assinado disfarçado de artigo. Num dado momento do texto, o clichê presta mais um serviço à tolice. Está escrito: "Os atentados desta semana são a explosão de um processo cumulativo, cujo combustível é a extrema desigualdade social do país. Enquanto esse problema não for atacado seriamente pela sociedade brasileira, será impossível livrar o nosso quotidiano da violência". Trata-se de uma óbvia mentira e de uma ofensa aos pobres. Na sublinha, os miseráveis é que estão sendo acusados de integrar o crime organizado. Não há um só desses nomões coroados que conheça de perto a pobreza. Todos eles a transformaram numa questão meramente retórica, intelectual — em alguns casos, ela serve apenas a preconceitos e taras ideológicos. Pior, muito pior: diante de algumas dezenas de corpos de policiais e seus familiares alvejados pelo crime, os aiatolás do direito preferem atacar "o discurso da truculência estatal [que] visa precisamente esconder essa questão de fundo, porque ela afeta privilégios e interesses de gente muito poderosa". É um escárnio e uma agressão ao bom senso, quando sabemos que são justamente os pobres as principais vítimas do crime organizado. Contra este, de fato, não há uma só palavra de censura no artigo. Claro! Afinal de contas, ele nada mais seria do que uma fração das culpas de todos nós. Estou perplexo: dez advogados se reúnem para subscrever um texto que condena a vítima! Algumas assinaturas são particularmente saborosas. Fábio Konder Comparato, por exemplo, sempre pretendeu ser uma espécie de Licurgo do PT. A camarilha sindical do partido lhe deu um pé no traseiro, a exemplo do que fez com outros chamados —injustamente! — intelectuais. Crítico, a partir de então, do governo Lula, não abandonou a sua vocação de bom burguês da esquerda e é grande defensor de uma democracia direta movida a plebiscitos e referendos. Notável! O mudancista Comparato, de súbito, se mostra um conservador quando se trata de mudar a legislação que regula o crime. Plínio de Arruda Sampaio, ex-democrata-cristão, é hoje membro do PSOL, o partido presidido pela senadora Heloísa Helena (AL). Sua trajetória é curiosa. As pessoas costumam evoluir da irresponsabilidade teórica para a maturidade. Ele fez o contrário. A senadora, Lula e Marcola, agora junto com os dez doutores aiatolás, também consideram que o crime é função da maior ou menor inclusão social. Estive com ele num debate, há uns dois meses, na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, da USP. Era parte dos eventos de recepção dos calouros. Do alto dos seus 75 anos, dr. Plínio decidiu, para delírio de metade da platéia, dizer que, se seu partido chegar ao poder (o que não acontecerá, felizmente!), vai extinguir a propriedade privada. Isso mesmo. Eles são socialistas. Eu quis saber se ele tomaria a propriedade das pessoas na base do papo ou a bala. Ele me acusou de direitista e de integrar a imprensa burguesa, que distorce a verdade. Então tá. Restou-me lembrar-lhe Antero de Quental na querela com Castilho, na chamada Questão Coimbrã, sobre o realismo português: a tolice num homem maduro (Antero usou outras palavras) me incomoda tanto quanto a gravidade numa criança. Na oportunidade, ele também defendeu o direito de o MST dar aulas, em seus acampamentos, com dinheiro público, sobre as obras geniais de Mão Tsé-tung e Che Guevara. É... Como sabem, sou um direitista nojento... Comovente também é a conclusão do texto: "O que a cidadania não pode é deixar-se levar pela insolência e pela agressividade dos que advogam a barbárie e abdicar dos princípios do direito. O que pode derrotar a barbárie é mais civilização - não a truculência". Segundo entendi, por qualquer razão, eles se consideram bastantes procuradores da tal "cidadania". Peço aos dez doutores que identifiquem quem são os portadores da "insolência" e da "agressividade" e onde estão essas pessoas nefastas que "advogam a barbárie". Tenho a impressão de que eles não estão se referindo a Marcola... Cláudio Lembo Doutor Cláudio, no dia 21 de março, escrevi neste site o seguinte: "Cláudio Lembo já deve deixar de sobreaviso as direções de presídios e das unidades da Febem; o 'povo unido' vai começar a protestar, a reivindicar, a fazer, em suma, a campanha eleitoral do adversário tucano: Lula. E tudo com a roupagem da mobilização social". Eis aí, governador. As rebeliões estavam mais previstas do que o Natal a cada 25 de dezembro. Demita os secretários incompetentes que não souberam tomar as devidas medidas preventivas. Quanto à sua acusação genérica à elite branca ou sei lá o quê, talvez o contexto da entrevista explicasse muita coisa. Conto uma historinha. No fim do ano passado, passei alguns dias numa praia freqüentada por endinheirados. Um casal, na faixa do 40, acompanhado de uma garota de uns 12 anos, estava num guarda-sol próximo. Era a menina deixá-los para tomar banho de mar, o pai e a mãe acendiam o seu cigarro de maconha e curtiam a paisagem. Tomavam ao menos o cuidado de apagá-lo quando ela chegava. Tive ganas de lhes dar voz de prisão. Prisão ética. Prisão moral. Não tenho dúvida de que, se entrevistado por algum jornal, o casal se mostraria muito indignado com a violência e cobraria uma ação severa e competente do poder público. É verdade: parte da elite brasileira que fuma maconha ou cheira pó não se dá conta de que está mancomunada com Marcola e de que responde por parte da miséria brasileira. Atrás de um baseado, há um soldado do narcotráfico, geralmente menor, geralmente pobre, que os consumidores de droga acreditam ser um problema do governo. Mas nem mesmo isso justifica a entrevista concedida por Lembo. Ele me parece descompensado, e sua fala, na prática, não difere muito da dos poetastros da violência ou daquele Conselho de Aiatolás a que me referi aqui. Já o seu desejo de que o mandato termine logo e suas referências, de humor duvidoso, à proximidade do cemitério me parecem dotados de um estoicismo fora de hora. Doutor Cláudio, o momento pede mais a energia de César do que o frio fatalismo de um Sêneca. Anime-se: comece por botar na rua os incompetentes. Crânio Vale dizer: ou você concorda com os aiatolás ou você está irremediavelmente doente: ou é curado por uma cirurgia ou por um chicote. Bom, lamento decepcionar. Como os tumores não me faziam falta e eram suplementares ao que sou, creio que não respondiam por aquilo que consideram meu desvio. Não mudei. Só lastimo o tempo que eles eventualmente me roubaram e, por conta do convalescença, ainda roubam. [reinaldo@primeiraleitura.com.br] |
Entrevista:O Estado inteligente
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sexta-feira, maio 19, 2006
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