| primeira leitura |
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| O texto é para o fim de semana, e vou me aventurar numa leitura mais leve do apagão da segurança pública em São Paulo. Sinto inexplicável orgulho de ser paulista de classe média depois dessa semana de terror. Como explicar? Aparentemente, fomos um povo tíbio. Morremos de medo, saímos de fino, liberamos, ainda que movidos pelo pânico, as madrugadas para que a polícia que criticamos lutasse sua batalha contra gente que nem sabemos se é bandida. Colocamos embaixo do tapete, no amanhecer, a mais básica noção de direitos humanos, a vigilância contra a truculência... Quem quis saber de questionar a polícia? Tudo errado. Mais: esquecemos o bê-á-bá das crises e nos fiamos em boatos, grudamos os olhos no noticiário irresponsável naquelas emissoras para as quais torcemos o nariz, caímos em todas as armadilhas postas para que o pânico aumentasse. Quem não acreditou, ainda que por poucos minutos, na história de que a mãe do Marcola, falecida há muito tempo, havia sido assassinada na quarta-feira e que a vingança do homem seria maligna? Uma vergonha. Querem mais vexame, daqueles que ninguém quer contar? Num frio atípico de outono, mesmo para a São Paulo que tem fama de gelada, mães zelosas de classe média proibiram seus filhos jovens de desfilar com modelos que pudessem cheirar a uma certa moda bandida. Os indefectíveis gorros de lã, as mochilas enormes e sem forma definida, a sobreposição de moletons desalinhados, enfim, toda aquela discreta deselegância paulista já cantada sumiu do mapa dos setores médios da sociedade. Vestir-se "direito" era imperativo para não ser confundido com os outros meninos comandados pelo PCC. Que infâmia! Há mais informações disponíveis para quem quiser nos mandar aos quintos dos infernos das fantasias baratas de segurança, todas sacrificadas de repente no altar do tal Marcola. Nossa gente alucinada por cercas elétricas, sistemas de alarmes e carros com vidros filmados pirou por horas a fio. Na capital da diversidade, quem não soube de um budista com os cinco sentidos ligadíssimos, de um ioguim respirando errado e de um católico cabulando a missa? Ou de um promoter recusando festa, de uma perua desmarcando horário no salão de beleza, de um valentão ensinando seu pit bull a fazer pipi no jornalzinho para não por a cara para fora de casa? Somos ridículos. Na capital que é também dos serviços apareceu, sim, aquele obrigatório exército de terapeutas, pedagogos e especialistas em relaxamento. Como explicar o que houve para as crianças? Como explicar para os adolescentes que os horários se tornaram menos liberais? Como explicar, como meditar, como tirar os nós da coluna, equilibrar os chacras... Saudáveis disparates, dada a gravidade do momento, mas não menos disparates. Critiquem quanto quiserem a São Paulo de classe média que pulou de cabeça em todos os equívocos possíveis e imagináveis. Só não acusem os paulistas do que eles não fizeram. A maioria deles não se rendeu à cartilha dos politicamente corretos de botequim. Não fez mea-culpa de pecados que não são seus. Não se encantou com a teoria improvisada da "elite branca" e "perversa" que seria responsável pelo crime organizado. Não entrou no canto da sereia de que a resposta imediata para tamanho descalabro é investimento de longo prazo em educação, por mais que essa resposta seja necessária e desejável para resolver problemas... no longo prazo, obviamente. A São Paulo de classe média não é burra. Em meio aos seus muitos faniquitos nesses dias difíceis, sentiu um inequívoco cheiro de incompetência e de falência institucional no ar. Sabe bem que as grandes vítimas de um Estado a cada dia mais incapaz e corrupto são os mais pobres. E antevê que, uma vez totalmente roubados os alicerces nos quais ela própria se equilibra, será a periferia a primeira a sofrer. Que uns e outros brinquem à vontade de mandar para o paredão essa gente que teima em ser incluída num país de miseráveis. Mas, em nome dos pobres com os quais tanto fingem se preocupar, que eles nem tentem patrocinar uma idéia de Brasil sem contar com ela. Divirtam-se com a revolução bolivariana do atraso, lá nos vizinhos, e nos deixem em paz com nossos sonhos de fazer um país em que a classe média seja a regra, não a diferença, a aberração, o ponto fora da curva e do tom. Bem vistas as coisas, somos menos ridículos por nossas ilusões de segurança e mais por pagarmos, sempre em silêncio, a conta de toda essa demagogia que Lula, Lembo e companhia despejaram sobre as nossas cabeças nos últimos dias. O texto era para ser leve e ficou pesado e sério no final. Isso é São Paulo. Eh São Paulo! [ liliana@primeiraleitura.com.br] |
Entrevista:O Estado inteligente
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sábado, maio 20, 2006
Eh São Paulo! Por Liliana Pinheiro
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