Entrevista:O Estado inteligente

quarta-feira, abril 05, 2006

Tereza Cruvinel - Contar a história

Tereza Cruvinel - Contar a história

Panorama Político
O Globo
5/4/2006

Dentro de seis meses o eleitor dará sua palavra. Mandará Lula para casa ou lhe dará outro mandato. O que se disputa hoje na CPI dos Correios é a aprovação da narrativa da crise, no pressuposto de que ela influenciará o eleitor: a narrativa do relator e da oposição contra a do PT. Ontem surgiu a possibilidade de acordo para aprovar um relatório comum mas nada indica que a oposição cederá no principal, resumido na palavra mensalão.

A opinião externa não conhece a fundo nem um relatório nem outro mas já gostou do de Serraglio. Ele descreve com riqueza de detalhes os fatos mostrados fragmentariamente ao longo dos meses de funcionamento da CPI. Desmonta as peças e o funcionamento do valerioduto e identifica seus beneficiários, os deputados petistas e aliados que receberam recursos por meio do Banco Rural, autorizados por Marcos Valério e Delúbio Soares. Avança sobre os nichos de corrupção nos Correios e no IRB e capta indícios fortes (mas não provas robustas) de que operações dos fundos de pensão deram prejuízos destinados a irrigar caixas políticos e eleitorais.

Com tudo isso o PT concorda mas não com a caracterização de que os recursos ilegais foram usados para garantir votos a favor do governo na Câmara. Ou seja, com a afirmação de que o mensalão existiu. Se a própria CPI pede a cassação de apenas 18 deputados, incluindo aí Roberto Jefferson e José Dirceu, diz o deputado petista Maurício Rands, perde força a afirmação de que havia pagamento de mensalão para garantir a maioria. "Para um partido de 92 deputados, seria preciso comprar muito mais para chegar à maioria de 257", diz ele.

Entre os 16 mandados à cassação, entretanto, diz a oposição, os não-petistas eram líderes ou presidentes de partidos aliados. São os casos de Pedro Corrêa e Janene, do PP, Valdemar Costa Neto, do PL, José Borba, do PMDB, e o próprio Jefferson, do PTB. Eles devem ter distribuído o dinheiro com seus colegas de bancada. Sobre isso não há provas mas existe a convicção generalizada.

Da mesma forma, o relatório afirma que partidos que mudaram de sigla, engordando a base governista, teriam sido pagos para isso. Não há provas mas há convicção. A CPI poderia ter sanado a dúvida, quebrando o sigilo de todos os que mudaram de partido mas não o fez.

— Nós admitimos que houve uso ilegal de recursos e nos penitenciamos. Eles foram ilegalmente também compartilhados com outros partidos e isso é crime. Mas foi caixa dois, assim como o do senador Azeredo em Minas, e não mensalão — diz o líder petista Henrique Fontana.

Embora o relatório alternativo do PT conteste outros pontos, como o pedido de indiciamento de Dirceu, Genoino e Gushiken e a ênfase no desvio de recursos públicos para o valerioduto, destacando também as fontes privadas, os governistas se dariam por satisfeitos com a supressão da referência a mensalão, preservada a não-responsabilização de Lula.

No início da noite uma comissão composta por Eduardo Paes e ACM Neto, pela oposição, por Rands e Eduardo Cardozo, pelos governistas, tentava um entendimento para se votar hoje um relatório único, negociado. Mas é muito difícil que cheguem a tal acordo.

Se a disputa for para o voto, o resultado é incerto. Um dos lados ganhará por um ou dois votos. As dúvidas ontem eram sobre a posição a ser adotada pelo petebista Arnaldo Faria de Sá e pelo peemedebista Asdrúbal Bentes.

Alckmin, PFL e Garotinho

Diante dos movimentos do PSDB para atrair o PMDB para a coligação de Geraldo Alckmin, o próprio presidente do PFL, Jorge Bornhausen, tomou a iniciativa de dizer ao candidato: para derrotar Lula, o apoio do PMDB será muito importante. E para isso, o PFL abriria mão do vice tranqüilamente.

Alckmin teria agradecido o desprendimento mas admitido que a aliança oficial é difícil. O que está sendo montado são boas alianças regionais com os peemedebistas. Bons palanques.

Garotinho, que foi o primeiro a se aproximar dos tucanos, ressentiu-se quando surgiu a hipótese (na prática impossível) de uma aliança já no primeiro turno. Tem dito que irá à convenção como candidato a presidente, para defender a candidatura própria e não outro caminho no primeiro turno. Se houver o segundo, será outra conversa.

Menos fogo

Ontem a oposição baixou o tom em relação ao ministro Márcio Thomaz Bastos mas não desistiu de levá-lo a dar explicações ao Senado sobre a quebra do sigilo bancário do caseiro Nildo. Só na semana que vem será possível votar o requerimento do senador Arthur Virgílio neste sentido.

— Nossa posição em relação não é ainda de condenação. Mas achamos que ele deve algumas explicações sobre a participação de seus auxiliares e sua própria conduta — diz o líder do PFL, Agripino Maia.

Pelos meninos

O rapper MV Bill volta ao Planalto amanhã. Agora para conhecer as primeiras linhas e apresentar propostas para um programa destinado a proteger os "falcões", os meninos explorados pelos traficantes nas favelas. Pedido por Lula depois da exibição do vídeo, o programa vem sendo discutido pela Secretaria Geral da Presidência com a de Direitos Humanos e os ministérios da Educação e do Desenvolvimento Social. Algo tem que ser feito mas o governo ainda não sabe bem o quê.

CRISTOVAM BUARQUE dirá hoje ao presidente do PDT, Carlos Lupi, que abre mão de disputar a candidatura presidencial no partido, apoiando o nome de seu colega Jefferson Peres. Fará isso para apressar o partido. "Passa da hora de nos definirmos", diz ele.

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