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Na semana passada, o Brasil enfrentou dois choques no seu projeto de ampliar as atividades da Petrobras na América do Sul como forma de construir a unidade energética na região. Os contratempos servem de lição para o governo, que pensa que pode acalentar projetos como o do tal gasoduto atravessando todo o Brasil e ligando Venezuela, Brasil e Argentina, além de outras maluquices do gênero.
A Bolívia radicalizou seu discurso nacionalista e quer alterar todos os contratos existentes, transformando os investidores em meros prestadores de serviços do governo. O Brasil tem muitos ativos no país, portanto, tem muito a perder. Na Venezuela, a PDVSA passa a ser a dona de tudo e quem não gostar das novas regras está fora do jogo, como aconteceu com a Exxon, a Total e a ENI.
Para agravar a situação, mas também para ser um exemplo do que pode vir a acontecer com o Brasil, o rompimento do duto na Bolívia, por causa das chuvas na última semana, provocou o início de um drástico racionamento de gás que vai se estender por um mês, pelo menos.
Logo no início do governo Evo Morales, o governo do Brasil e a Petrobras acharam que os investimentos brasileiros seriam mais iguais que os outros. Acreditaram também que, quando Evo Morales falava durante a campanha eleitoral contra os investimentos estrangeiros, estava falando dos outros países, mas nunca do Brasil.
Na Petrobras, confiava-se muito nas conversas diplomáticas que assegurariam ao Brasil um tratamento diferenciado na Bolívia e acreditava-se demais em Hugo Chávez como um amigo próximo do petismo e interessado apenas em fortalecer a região para o objetivo comum de enfrentar os Estados Unidos.
O que aumentou a valentia dos países produtores de petróleo e gás foi a alta dos preços internacionais. Principalmente os produtores de petróleo estão se sentindo robustecidos pelo aumento da demanda e dos preços. Nos momentos de valentia, eles estão afastando os investimentos estrangeiros e afetando diretamente a capacidade futura de aumento da produção.
Na Petrobras, cometeram-se vários erros de avaliação em relação à Bolívia: primeiro, a idéia de que somos, aos olhos deles, uma espécie de "gringos bonzinhos", que teriam um tratamento diferenciado; segundo, que, por ser grande demais na economia boliviana, a Petrobras tinha poder suficiente para desaconselhar qualquer reação extremada; terceiro, o de menosprezar a retórica, como se eles não estivessem querendo dizer o que diziam.
Quando os investidores começaram a empacotar suas coisas e ameaçar sair do país, a Petrobras anunciou aumento de investimentos na Bolívia. E deu no que deu.
Apesar de tudo, especialistas acham que é mais fácil chegar a acordos com a Bolívia do que com a Venezuela. Na terra de Hugo Chávez, os investidores que ficaram decidiram correr riscos porque a abundância de petróleo é tanta que, mesmo com as perdas provocadas por mudanças bruscas de regras, ainda assim é possível ganhar dinheiro. É bem verdade que há uma enorme dificuldade com a conversão de bolívares para dólar, o que acentua as perdas dos investimentos estrangeiros.
Quem sai de seu país para investir em outros países corre riscos de qualquer maneira. O caminho para atenuar esses riscos é avaliar do ponto de vista mais objetivo possível as ameaças e as chances de investir em cada país. O problema, no caso do governo Lula com a América Latina, é que ele deixou ideologia demais entrar em avaliações, que deveriam ser objetivas, sobre o impacto do risco político no retorno econômico de cada investimento. Também ideologizou na hora de fazer o planejamento estratégico de como lidar com esses riscos.
A Argentina não respeitou os contratos com as concessionárias de serviços públicos, a Bolívia ameaça expropriar todos os bens de estrangeiros, a Venezuela está obrigando todos os investidores a serem acionistas minoritários em suas próprias empresas. O que este quadro mostra a todos os investidores, não apenas aos brasileiros, é que só há uma forma, universal e eficiente, de reduzir o risco de atuar em outros países: buscar regras claras e respeitadas em qualquer conjuntura política.
A América Latina está virando um terreno hostil aos investimentos e fértil para o aparecimento de aventureiros com discurso demagógico e radical. Uma noção ultrapassada de nacionalismo reaparece e ganha força em vários países da região, entre eles o Peru, que hoje realiza suas eleições. Montar uma estratégia de aumentar a interligação energética entre os países vizinhos pode acabar aumentando a vulnerabilidade do Brasil. O sonho de unidade latino-americana pode ser desejável, mas ele tem que ser construído com garantias aos investidores, com regras claras, com segurança, e não com proselitismo antiamericano.
Na energia, o Brasil não pode brincar. Um investimento construído torna-se, ao mesmo tempo, uma possibilidade de abastecimento e uma fragilidade. Antes de perseguir projetos grandiloqüentes, de aumentar a dependência em relação aos vizinhos, é preciso que os próprios vizinhos escolham seu caminho. A América do Sul está ficando confusa demais e arriscada demais para que o Brasil possa continuar seus planos de integração sem se cercar de mais garantias.