ENTRE O LUSCO E O FUSCO Encontro artigo do cronista Joaquim Ferreira, no qual ele seleciona 1958, no Rio, como emblemático de um tempo idílico. Muitas coisas o autor podia colocar um pouco antes ou um pouco depois de 58, mas a história se faz mais com o que se escreve, se engloba, se inventa e se resume do que com o que realmente aconteceu. Relembram-se 365 dias em que aqui se vivia no melhor dos mundos. Juscelino era o máximo da liberdade (envolveu-se, pessoalmente, na censura de um programa de televisão meu, censurou Lacerda e Hélio Fernandes, mas deixa isso pra lá!), construía Brasília (erro político gerador de nossa corrupção endêmica), a Copa do Mundo era nossa (indiscutível), a bossa nova começava a desafinar (no bom sentido), havia um cinema brasileiro, embora de chanchadas, a Rádio Nacional antecipava a Rede Globo em charme e importância, o teatro rebolava, mas inocentemente; e muitas vezes eu via Jango manquitolando nas boates atrás de vedetes. Ainda nem sabia que era de esquerda. Joaquim lembra, com justeza e justiça, o admirável Rubem Braga profetizando do alto de sua cobertura: "Ai de ti, Copacabana!". A diferença entre mim e o autor é que eu vivi a época, e conheci tudo e todos de que ele fala, e ele nasceu (sorte dele) quando muitos dos personagens já tinham passado desta para melhor (!). Nossas visões são diferentes. A de Joaquim é desfocada pela lenda. A minha é deturpada pela proximidade. Outra forma de lenda. Meu ponto mais importante: a visão da sexualidade da época, tópico sempre deturpado pela mídia. Que faz todas as moças da época serem freiras. Olha, onde eu andava já estavam todas de duas-peças, coisa já anunciando o biquíni, que, pouco antes, sem ousar dizer seu nome, entrava gloriosa e escandalosamente no Arpoador. É claro que, à socapa (palavra de então), as moças eram chamadas de putas. Pois, não sei se os mais jovens sabem – o mundo, antes, era sexualmente dividido entre moças de família e putas. Depois é que embolou o meio de campo. Se a sexualidade da época fosse a que se apresentava aos menos enfronhados (de fronha), todo mundo virgem, então estão mentindo os que contam histórias sobre os sátiros daquele tempo, Antônio Maria, Sérgio Porto, Vinicius de Moraes e outros mais modestos a quem não pretendo entregar. Diz aí: quem é que eles traçavam? Puxo esse tópico por ouvir na tevê declarações de antigas beldades, defendendo a pruderie da época, esquecidas de que podiam até casar virgens, mas tudo tem o outro lado (lato sensu), hoje conhecido como engenharia reversa. O felácio ainda não chegara à Presidência dos Estados Unidos, mas já era praticado (embora sem a perícia mais tarde absolutamente natural em qualquer universitária de família). E para cada virgem de 18 quilates (Benjamim Constalat) havia uma de 4 (sem trocadilho), e uma jovem senhora (naquela época qualquer coisa além dos 30) que já se separara, ou traía, assídua e competentemente, o marido, com os vários "amantes de plantão" (apelido colocado nos que ficavam de tocaia, termo popularizado depois que Sérgio Porto o tascou em cima de Antônio Maria). Mas logo tudo se escancarou. A permissividade, que tanto defendemos, extrapolou e acabou com aquele tremendo barato, o adultério, insuperável pecado mortal, maravilhosa hipocrisia. E criou essa outra, muito menos empolgante, do "Vou procurar meu espaço", e do "Vamos dar um tempo". Tudo passou a ser rotineiramente permitido. E hoje a volúpia, que tristeza!, pode ser satisfeita, com menor preço e menor risco, por uma pizza e um chope no Barril 1800. NOSSA POPULARIDADE EM BARCELONA | Padaria |  | | Jornal dos Esportes |  | |