Entrevista:O Estado inteligente

terça-feira, abril 11, 2006

Luiz Garcia - Quem se anula

Luiz Garcia - Quem se anula


O Globo
11/4/2006

Com João Paulo Cunha, ex-presidente da Câmara dos Deputados, o PT atingiu na semana passada a marca de três petistas implicados no esquema do mensalão a escapar ao garrote vil da perda de mandato. Cinco de outros partidos também se salvaram. O caso de João Paulo tem característica importante: os delitos de que foi acusado ocorreram quando presidia a Câmara. Ele não representava o baixo clero, nem era pitorescamente espontâneo ou sincero defensor do nepotismo, como seu sucessor — aquele Severino de curta história que, pela sede com que se lançou ao pote, foi praticamente forçado por seus pares a renunciar à presidência e ao mandato. Na imagem projetada durante sua passagem pelo cargo, o deputado petista parecia político moderno, de boa safra. Não era nada disso. Trocou sua imagem de íntegro por R$ 50 mil que lhe chegaram pelo valerioduto. E usou a esposa para sacar o dinheiro no banco — tendo sido apanhado numa mentira tosca sobre a operação. Em sua gestão na presidência da Casa, Marcos Valério ganhou, naturalmente, uma licitação milionária. João Paulo foi o oitavo deputado do selecionado grupo absolvido no plenário — com votos de sobra — apesar da recomendação do Conselho de Ética. No momento, o placar geral está a favor dos acusados: são oito absolvidos contra três cassados e quatro que renunciaram para escapar ao garrote. A esta altura interessa pouco ir mais fundo nos motivos para cassação deste ou daquele parlamentar. Há outro motivo de preocupação: o peso dessas decisões no movimento — informal, mas forte como nunca se viu antes — pela anulação do voto nas próximas eleições. Cada vez mais se ouve o anúncio dessa intenção, até de pessoas que sabem como funcionam as democracias, conhecem sua fragilidade intrínseca, e não ignoram o que bons cidadãos devem fazer para ajudar a colocá-las no bom rumo — ou seja, votar. É o único instrumento ao alcance de todos nós. Respeita-se o desencanto, mas é desanimador que formadores de opinião, que sabem das coisas, considerem a inação protesto eficaz. A quem nos disser que vai "votar nulo", devemos lembrar, para começo de conversa (e para humilhar um pouco, o que sempre ajuda), que isso não existe no idioma: quem anula não vota, não participa do processo democrático. Quem anula, anula-se: desiste do sistema e de ajudar a consertá-lo. Anula o voto, anula a si mesmo como cidadão. Em qualquer situação, há candidatos que prestam (um pouco, mais ou menos ou muito) e outros que não prestam de todo. Os do segundo grupo agradecem penhorados aos cidadãos que, para mostrar sua indignação contra o que eles são e fazem, ajudam a elegê-los com sua cômoda omissão.

 

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