O GLOBO
Costumava ser de bom-tom perguntar: "...E como vão as crianças?"Hoje em dia, nestas bandas, pode ser embaraçoso. Não é assunto bem-aceito, por exemplo, pelos pais daqueles adolescentes de classe média média ou média alta que tanto consomem como vendem ecstasy, a droga da moda nas festas que suas turmas freqüentam.
Eles são traficantes mais ingênuos do que malévolos. Vendem "balinhas" de ecstasy tanto para garantir seu próprio consumo como para ganhar status na turma. Não se consideram criminosos. Pelo mentos, até serem presos — que é em geral quando os pais percebem que seu filho não é exatamente o que pensavam que era.
Para se ter idéia da dimensão do problema, em três anos a Polícia Federal apreendeu mais de 220 mil comprimidos da droga. E prendeu muita gente: na maioria, jovens que jamais subiram um morro em busca de cocaína e que se ofenderiam — sinceramente — se alguém os comparasse aos "mulas" do tráfico.
Também não é boa idéia indagar sobre os meninos quando se conversa com quem tem filho infrator internado em qualquer instituição oficial. Outro dia, O GLOBO mostrou que o tratamento é brutal.
No momento, há inquéritos abertos e mudanças anunciadas. Mas o repórter Rubem Berta contou outro dia o que viu e soube no Instituto Padre Severino, na Ilha do Governador. A unidade está superlotada e os internos são — por decisão confirmada pela instituição — separados segundo os grupos criminosos adultos a que supostamente pertenceriam. É uma estratégia que pode ter alguma vantagem prática, mas contém a perversidade de significar uma rendição do Estado à estrutura do crime: coloca os meninos sob a proteção das quadrilhas, simplesmente por falta de opção.
Além disso, longe dos funcionários, os adolescentes denunciam surras freqüentes: "Eles gostam de bater na cara", disse um interno.
Não há como dimensionar qualquer dos dois problemas — ou imaginar soluções. Nada que socorra os moços da classe média transformados em "mulas" de ecstasy e outras substâncias englobadas na definição eufemística "drogas recreativas", nem os delinqüentes infanto-juvenis pobres, que superlotam unidades onde fazem cursos completos de ódio pela autoridade do Estado.
Na verdade, todos os pais e mães de todos os degraus da pirâmide social estão, no que se refere aos riscos que correm seus filhos, em situação democraticamente igual.
É raro acontecer falarmos em democracia com tão melancólico sarcasmo.