Entrevista:O Estado inteligente

segunda-feira, abril 03, 2006

Kalachnikov e Lula Denis Lerrer Rosenfield

ESTADÃO


Mikhail Kalachnikov, o célebre inventor do fuzil AK-47, era filho de pequenos agricultores, que foram deportados para a Sibéria - naquele grande movimento de "reforma agrária" que foi "solucionado" pelo envio à Sibéria e ao Gulag, aos campos de trabalhos forçados, de milhões de pessoas, que lá morreram. Ele mesmo, criança, foi deportado com sua família. Seu pai morreu de exaustão e seu irmão foi para um desses campos de trabalhos forçados. Contudo, toda a sua vida de sucesso como projetista de armas se baseou em esconder o seu passado de "evadido", de "inimigo do povo", pois poderia voltar para onde tinha saído.

Sua "culpa" residia no fato de ser filho de pequenos agricultores que acreditavam na propriedade privada. Ardilosamente, conseguiu impor-se graças a seu gênio, ocultando a sua história pessoal e familiar. Chegou a ganhar o Prêmio Stalin e o de Herói Socialista, numa curiosa situação em que um "servo" opta por se pôr a serviço do seu "senhor", aquele que fora, inclusive, responsável pela morte de seu pai. Temos um caso que poderíamos denominar de "servidão voluntária", para retomarmos essa expressão de Étienne de La Boétie e, também, de Martinho Lutero. Tão profunda foi essa renúncia à liberdade que ele chegou a declarar: "Nunca liguei a tragédia que atingiu nossa família à pessoa de Stalin. Achava que a culpa cabia aos pequenos funcionários locais" (Rajadas da História, Jorge Zahar Editor, 2005). A mentalidade stalinista tinha nele se entranhado.

Quando ficou claro que Nildo, o caseiro da mansão também denominada República de Ribeirão Preto, tinha tido o seu sigilo bancário violado, a sua vida privada invadida e estava sendo investigado pela Polícia Federal, o governo, achando que poderia ainda escapar do autoritarismo que escancarava, "decidiu" investigar. Essa "decisão", assaz estranha, só foi manifestada pelo presidente Lula na quarta-feira, quando na quinta anterior o então ministro Palocci já havia recebido em sua casa o extrato bancário violado do caseiro, entregue em serviço expresso e personalizado pelo ex-presidente da Caixa Econômica Federal, Jorge Mattoso. Segundo suas respectivas cartas de renúncia, a "legalidade" teria sido preservada - só se for, evidentemente, a "legalidade socialista", que eles teriam gostado de ver implementada. E o presidente, mais uma vez, fingiu nada saber, encobrindo a sua responsabilidade e fazendo como se nada lhe dissesse respeito. O ministro, naquele momento, continuava dizendo que desconhecia o extrato do saldo bancário e o presidente da Caixa, por sua vez, pedia 15 dias para averiguação, quando ele tinha sido o próprio autor da violação.

Uma esquizofrenia real adotava a forma da "normalidade" administrativa, como se a sociedade brasileira ainda acreditasse na pureza ética do PT. Essa sucessão de mentiras, própria de um governo que revela o seu DNA autoritário, voltado para a perseguição de um trabalhador que ousou dizer a verdade, tinha um propósito específico: achar um bode expiatório, de preferência um funcionário menor desse banco estatal, encontrar o "funcionário local", pois o governo dos "trabalhadores" jamais poderia fazer uma coisa dessas.

Observamos o culminar de todo um processo em que o PT se foi apoderando, progressivamente, do aparelho do Estado com o intuito de pô-lo a seu serviço, numa prática que reproduz o acontecido nos países que fizeram a experiência do "socialismo real". A mentira se fazia, então, forma mesma de governo, dentro de um ambiente que não permitia nenhuma discussão. A mentira é tão mais eficaz que o Estado tudo controla e a liberdade de opinião e de imprensa é aniquilada. Qual não deve ter sido a surpresa do atual governo quando, tentando "desqualificar" o caseiro, como se estivesse sendo pago pela oposição, numa prática eminentemente stalinista, foi obrigado a recuar pela simples coragem de uma pessoa humilde. A oposição parlamentar soube, no caso, assumir as suas responsabilidades, ao contrário de um setor seu que, quando surgiram as primeiras denúncias de corrupção sistêmica do atual governo, procurou preservar o presidente Lula. Mas, sobretudo, a imprensa exerceu em sua plenitude as prerrogativas da liberdade, desmontando a farsa e mostrando o valor da democracia.

Talvez o que de mais importante que esteja acontecendo seja o fato de que a mudança petista e governamental está sendo vista e julgada. A própria cobertura dos meios de comunicação mostra que esse governo está fazendo exatamente o contrário do que apregoou durante décadas. O líder do PT na Câmara dos Deputados, Henrique Fontana (RS), chegou a dizer que o problema não era a violação ("vazamento", na linguagem deles) do sigilo bancário do caseiro, mas a sua "escandalização". Ou seja, o problema não está no fato extremamente grave da violação do sigilo bancário e da devassa da vida pessoal de um filho bastardo, não reconhecido por seu pai, mas na sua cobertura midiática. A conduta desse parlamentar mostra a preocupação política de um partido que, acuado, acusa recepção de sua renúncia voluntária aos padrões morais que, outrora, dizia ser seus.

O positivo da situação atual consiste em que a sociedade reage, mostra desgosto e indignação, manifesta a sua perplexidade e abre caminho para que o Brasil possa ser outro. Os parâmetros morais foram autonomizados, passaram a pertencer a toda a sociedade, que a partir deles julga, não sendo mais de propriedade partidária. Graças a eles, o governo, depois de procurar durante dias um bode expiatório pelo crime da violação, teve de se curvar a uma opinião pública que clamou pela indicação dos responsáveis por tal crime. Se os meios de comunicação não tivessem tido uma participação tão firme, lutando pela concretização das liberdades democráticas, o governo teria mais uma vez se utilizado de subterfúgios para se desresponsabilizar daquilo que fez. O autoritarismo teria dado um grande passo. Agora, a democracia se afirma em nosso país.

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